Mundo ficciónIniciar sesiónMilena
A água da chuva caía tão forte que parecia machucar a minha pele através do tecido encharcado do vestido. Eu corria sem olhar para onde estava pisando, com os sapatos de salto baixo batendo contra as poças d'água da calçada escura. O barulho dos trovões lá no alto abafava o som dos meus próprios soluços.
Eu estava sem rumo, completamente ensopada, com a barra do meu vestido de noiva arrastando na lama e recolhendo toda a sujeira da rua. Minha cabeça girava, repassando cada detalhe da traição do Pedro e da humilhação que minha família me fez passar.
Eu não tinha para onde ir, não tinha dinheiro no bolso e nem um teto para me abrigar daquela tempestade, mas o ódio que queimava no meu peito era o que me mantinha de pé. Eu só queria sumir, sumir daquela rua e daquela vida de mentiras.
Atravessei a avenida principal sem prestar atenção no farol ou nos carros. Minha visão estava completamente embaçada pelas lágrimas misturadas com a água da chuva.
De repente, um barulho alto de pneus cantando no asfalto molhado ecoou bem do meu lado. Um feixe de luz branca e violenta atingiu meus olhos, me cegando por um segundo. Um carro gigante, um BMW blindado preto de luxo, surgiu do nada no meio do temporal, deslizando na pista e freando bruscamente a poucos centímetros das minhas pernas.
O impacto do vento quase me jogou no chão. Fiquei paralisada no meio da rua, com o coração disparado na garganta, esperando a batida que nunca veio. O carro era imponente, reluzente mesmo debaixo daquele toró, com os vidros tão escuros que era impossível ver quem estava lá dentro. Eu estava ofegante, com as mãos no peito, assustada demais para me mover.
Foi então que o clique da trava da porta ecoou como um tiro no meio do silêncio da noite. A porta do passageiro se abriu devagar, revelando um interior luxuoso com bancos de couro claro e um cheiro marcante de perfume importado e poder.
Lá de dentro, um homem estendeu a mão na minha direção. Era uma mão grande, com dedos firmes e um relógio de ouro que brilhava contra a luz do painel do carro.
Quando levantei os olhos para ver quem era o dono daquele automóvel milionário, meu estômago deu uma volta completa. Mesmo com o rosto meio na sombra, eu reconheci aqueles traços marcantes, os cabelos escuros desalinhados e os olhos intensos que pareciam ler a minha alma.
Era Ulisses Albuquerque. O CEO do Grupo Albuquerque, o homem mais rico, implacável e temido do mundo dos negócios. E, acima de tudo, o maior e mais perigoso inimigo do homem que quase destruiu a minha vida, Pedro Henrique.
Eu continuei parada na chuva, feito uma boba, olhando para aquela mão estendida. O contraste entre nós dois era ridículo. Eu era uma noiva destruída, toda borrada de maquiagem preta, com o vestido rasgado e cheirando à fumaça da igreja que eu mesma tinha incendiado.
Ele era a própria definição de perfeição e poder, vestindo um terno sob medida que parecia custar mais do que tudo que eu já tinha visto na vida. Todo mundo na cidade conhecia a fama de Ulisses Albuquerque.
Nos jornais e na boca do povo, ele era chamado de demônio do mercado financeiro, alguém que não tinha piedade de ninguém e que destruía qualquer um que cruzasse o seu caminho. E ali estava ele, me oferecendo abrigo no meio de uma tempestade.
— Vai ficar aí parada pegando um resfriado ou vai entrar? — a voz dele ecoou firme, grave e rouca, cortando o barulho da chuva.
Eu hesitei por um segundo, engolindo em seco. Minha mente dizia para eu correr, para não me meter com alguém tão perigoso quanto ele, mas meu corpo estava cansado demais para lutar contra o frio. Dei um passo à frente, segurei a mão dele e senti o calor da sua pele firme contra os meus dedos congelados. Ulisses me puxou para dentro do carro com uma facilidade impressionante, como se eu não pesasse nada. Assim que entrei, ele puxou a porta e o barulho do mundo lá fora sumiu por completo devido ao isolamento do carro blindado. O ar-condicionado quente começou a soprar, batendo no meu corpo trêmulo.
Fiquei encolhida no banco de couro macio, com vergonha de estar molhando todo aquele luxo com a minha roupa ensopada. Ulisses não pareceu se importar. Ele se esticou para o banco de trás, pegou uma toalha de algodão preta e macia e jogou por cima dos meus ombros. Depois, ele pegou um lenço de grife do bolso do paletó e começou a limpar as gotas de água que escorriam pelo meu rosto, com movimentos surpreendentemente cuidadosos para um homem com uma fama tão terrível.
Eu não conseguia parar de olhar para ele. O rosto dele tinha traços masculinos fortes, uma barba por fazer que lhe dava um ar misterioso e perigoso, e aqueles olhos escuros que me fixavam sem o menor pudor. Ele exalava um charme natural, uma certeza de que mandava em tudo e em todos ao seu redor.
Pedro Henrique sempre teve um ódio mortal de Ulisses. Lembrei de quantas vezes vi o meu ex-noivo quebrar copos em casa com raiva após perder contratos milionários para o Grupo Albuquerque, xingando o rival de todas as coisas possíveis e dizendo que um dia iria acabar com ele.
O Pedro tinha medo daquele homem. Um medo real que ele tentava disfarçar com arrogância. E agora, ironicamente, eu estava sentada bem ao lado do maior pesadelo do meu ex, sendo protegida por ele debaixo de uma tempestade que parecia o fim do mundo.
Ulisses terminou de limpar meu rosto, guardou o lenço e se recostou no banco do motorista, cruzando os braços robustos sobre o peito largo. Ele me encarou por alguns segundos em silêncio, com um brilho de divertimento e mistério no olhar, analisando o meu estado deplorável, o meu vestido floral amassado e a falta do meu véu.
— Então... o que a noiva está fazendo tão longe da igreja em uma noite como esta? — ele perguntou, com um tom de voz calmo, mas que carregava uma pitada de deboche.
Engoli o choro que insistia em querer voltar e apertei a toalha contra os meus ombros com força, sentindo uma fúria renovada tomar conta do meu peito. Olhei bem nos olhos dele, sem medo, deixando que ele visse todo o ódio que agora comandava a minha vida.
— O Pedro Henrique me humilhou da pior forma possível minutos antes do casamento — respondi, com a voz firme e cortante, sem gaguejar. — Ele e a minha própria família estavam me fazendo de palhaça. Aquele desgraçado é um monstro e merece tudo de pior que existir nesse mundo. Eu quero ver ele de joelhos, destruído e implorando por piedade.
Ao ouvir minhas palavras e notar o fogo da vingança nos meus olhos verdes, Ulisses inclinou o corpo um pouco para a frente. Os lábios dele se curvaram lentamente, dando um sorriso sarcástico de canto que mudou toda a expressão do seu rosto imponente.
Ele segurou o meu queixo com os dedos, me fazendo olhar bem de perto para o seu sorriso perigoso, e falou com uma voz macia que fez meu coração dar um salto:
— O inimigo do meu inimigo é meu aliado…por isso Milena. Eu vou te ajudar na sua vingança. Sabia que não se casaria com o homem errado.







