Ela é minha!

Milena

A luz do sol entrou forte pelas frestas da cortina de seda, clareando o quarto gigante onde eu passei a noite. Eu rolei na cama macia, que parecia uma nuvem de tão gostosa, e por um segundo achei que tudo o que aconteceu ontem tinha sido um pesadelo. 

Mas aí eu olhei para os lados, vi os móveis de luxo e lembrei da igreja pegando fogo, da traição no camarim e do olhar de uísque do Ulisses. Minha vida antiga tinha virado cinzas, literalmente. 

Dei um suspiro fundo e estiquei o braço para pegar o meu celular, que estava jogado no criado-mudo com a tela cheia de poeira da confusão da véspera.

Assim que apertei o botão para ligar o aparelho, o troço quase explodiu na minha mão. Parecia que o celular estava tendo um ataque cardíaco de tanto que vibrava e apitava. 

A tela travou por alguns segundos com a enxurrada de notificações que começaram a pular na minha frente. Eram milhares de mensagens de texto e mais de trinta ligações perdidas. Adivinha de quem? Do embuste do Pedro Henrique, claro. O homem que passou cinco anos me fazendo de boba achou que podia resolver tudo mandando mensagem de texto.

Abri as mensagens e comecei a ler, sentindo uma mistura de raiva com uma vontade imensa de rir da audácia dele. No começo da madrugada, o tom dele era de cachorrinho arrependido. Ele dizia: "Milena, meu amor, volta para casa, aquilo foi um mal-entendido, a Valéria que pulou em cima de mim!". 

Logo depois, vendo que eu não respondia, o tom mudou para o desespero: 

"Pelo amor de Deus, me perdoa, vamos esquecer isso e casar logo na semana que vem, eu te amo!"

Mas o melhor foi o surto das quatro da manhã, quando o verdadeiro Pedro Henrique apareceu nas mensagens. Ele começou a me ameaçar com todas as letras, dizendo que a igreja quase pegou fogo por minha culpa, o que era verdade, mas ele mereceu. 

E que os convidados saíram tossindo e que o teto do altar ficou todo preto por causa das velas que eu joguei. 

"É melhor você aparecer agora mesmo, sua vagabunda! Se você não voltar para assinar os papéis e resolver a confusão que causou, eu vou agora mesmo na delegacia e mando a polícia ir atrás de você por vandalismo!", dizia o último texto.

 Dei uma risada anasalada, olhando para o teto. Ele realmente achava que ainda mandava em mim e que eu ia voltar correndo com o rabo entre as pernas. Isso não iria acontecer. Mas o que me deixava tensa era a possibilidade de ser presa.

Esfreguei os olhos, levantei da cama e percebi que alguém tinha deixado uma muda de roupa simples no closet para mim: uma calça jeans que serviu direitinho e uma camiseta regata branca básica e roupa íntima da mais alta qualidade.

Imaginei por um segundo Ulisses escolhendo aquela calcinha…

Será que ele escolheu ou alguma empregada? 

Será que ele já tinha um kit de calcinha preparado em casa pra quando uma mulher viesse visitá-lo?

Quantas mulheres vem aqui pra ele ter um kit de calcinha pronto?

sacudi a cabeça e deixei a imagem sumir. Não era da minha conta se Ulisses era um pervertido com várias calcinhas em casa, eu tinha que focar no que era importante.

Resolver o problema da igreja e não ser presa.

 Desci as escadas correndo, segurando o celular que não parava de piscar. Eu precisava achar o Ulisses antes que eu fizesse alguma besteira.

Encontrei Ulisses na sala de jantar que era um pouco escura e muito chique. O homem parecia um modelo de comercial de TV logo cedo. Ele usava uma camisa social azul-clara com as mangas já dobradas e lia alguns papéis de negócios enquanto tomava café em uma xícara de porcelana que devia custar o preço do meu antigo guarda-roupa inteiro. 

Na mesa, havia de tudo: pães fresquinhos, frutas cortadas, bolos e um cheiro maravilhoso de café gourmet. Meu estômago até roncou, mas a minha preocupação era outra. Caminhei até ele a passos rápidos e parei bem do lado da cadeira dele.

— Bom dia Ulisses. — Disse tentando parecer calma.

— Bom dia Milena, como foi a sua noite? Gostou do quarto? — Ele olhou com uma expressão calma.

— O quarto é ótimo, mas tem um problema. Quando eu descobrir da traição eu surtei e praticamente ateei fogo na igreja. E agora o Pedro está me ameaçando com isso. —Quase abaixei a cabeça de vergonha.

Ulisses continuou calmo. —Milena, me explica isso direito. Você incendiou uma igreja?

—Ahh…Sim. —Ele sorriu como se estivesse segurando o riso. 

—Tudo bem continua.

—O Pedro me ligou a noite toda e está surtando. – falei,  mostrando a tela cheia de mensagens para ele. — Ele me ligou mais de trinta vezes  desde que a igreja começou a queimar até a madrugada. Ele começou me pedindo desculpas, falando para a gente casar logo e depois começou a me ameaçar, dizendo que vai chamar a polícia para me prender por causa do incêndio na Igreja. O que eu faço? Devo ligar de volta para ele e falar alguma coisa? Mandar ele para o inferno, talvez? Será que eu vou ser presa?

Ulisses nem se mexeu. Ele deu um gole lento no café, colocou a xícara no pires sem fazer barulho e olhou para mim com aqueles olhos intensos que me fizeram lembrar do roupão da noite passada. Um sorrisinho sarcástico brotou nos lábios dele, como se a situação toda fosse a coisa mais divertida do dia dele. —Você não vai ser presa. Eu vou fazer isso sumir. E a respeito do seu ex noivo…

Antes que ele pudesse me responder, o meu celular começou a tocar de novo, vibrando com o número de Pedro na tela. Eu dei um pulo para trás, assustada com o timing do traste.

Eu ia recusar a ligação, mas Ulisses foi mais rápido. Com uma agilidade que eu não esperava de um homem daquele tamanho, ele esticou a mão comprida e arrancou o aparelho dos meus dedos.

 Eu arregalei os olhos, sem entender nada. Em vez de desligar, ele deslizou o dedo pela tela, atendeu a chamada e colocou o celular direto no ouvido, recostando-se na cadeira de couro com a maior naturalidade do mundo.

— Celular da Milena, com quem eu falo?— Ulisses falou, a voz saindo tão grave, fria e calma que até eu senti um arrepio na espinha só de ouvir de perto. Ele apertou no viva voz para que eu ouvisse também. 

Houve um segundo silêncio absoluto do outro lado da linha, tão profundo que eu consegui ouvir o barulho do Pedro prendendo a respiração pelo alto-falante do telefone. Então, a ficha dele caiu. Pedro Henrique reconheceu a voz marcante, imponente e cheia de deboche do seu maior inimigo.

— MAS QUE PORRA É ESSA. O QUE VOCÊ  TÁ  FAZENDO COM O CELULAR DA MILENA? Onde a minha noiva está?

— A minha mulher está aqui, comigo. — A frase de Ulisses fez meu corpo todo arrepiar— Eu sugiro que você pare de gritar no ouvido dos outros logo cedo, faz mal para a digestão. E aproveitando o contato, quero te dar um aviso amigável: esqueça esse número. Esqueça a Milena. Ela não vai voltar para você, nem pagar as suas contas e a partir de hoje, ela pertence a outro homem. A um homem de verdade.

Pedro começou a gaguejar, a voz saindo fina e trêmula através do aparelho.

— Então não volte a incomodá-la. Adeus. –Ulisses disse tranquilo antes de desligar a chamada. 

Foi naquele momento que percebi que não dava mais pra voltar atrás. Agora eu e Ulisses estávamos juntos nessa vingança até o fim.

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