A mansão do lobo

Milena

O carro blindado de Ulisses parou diante de portões de ferro gigantescos, que se abriram sozinhos como se soubessem que o dono do mundo estava chegando. Eu olhava pelo vidro embaçado da BMW, ainda segurando aqueles papéis amassados contra o meu peito, sem conseguir acreditar no lugar onde eu estava entrando. Quando o veículo subiu a rampa de pedra e parou na fachada, o meu queixo simplesmente caiu. Não era apenas uma casa grande. Era uma mansão monumental, uma verdadeira fortaleza de luxo que parecia brilhar mesmo debaixo daquela chuva pesada e escura. As paredes de mármore branco e os vidros enormes iam até o teto, fazendo tudo parecer um palácio saído de um filme de cinema.

Ulisses desceu do carro com aquela calma irritante dele e deu a volta para abrir a minha porta. Antes que eu pudesse tentar me levantar com o meu vestido de noiva encharcado e pesado, ele segurou o meu braço com firmeza e me puxou para fora, me protegendo sob o teto da entrada. 

Assim que pisamos no saguão principal, eu congelei no lugar. O chão era tão espelhado que eu conseguia ver o meu reflexo borrado nele. No meio daquela sala gigantesca, havia uma escadaria dupla de mármore que subia para os andares de cima, digna de uma rainha. 

Mas o que me deixou mais chocada foi ver que, logo ao lado daquela escada imensa, havia um elevador particular de vidro reluzente, com detalhes em dourado. Uma casa com elevador por dentro. Aquilo era um nível de riqueza que eu nem sabia que existia no mundo real.

Eu estava ali parada, me sentindo a pessoa mais miserável do planeta, deixando poças de água suja naquele chão perfeito e tremendo tanto que meus dentes batiam uns nos outros. 

O frio da tempestade tinha entrado nos meus ossos e a adrenalina da briga na igreja estava sumindo, deixando apenas o cansaço. Ulisses se virou para mim, tirando o paletó do terno que ainda estava seco e jogando por cima dos meus ombros. O calor do tecido e o cheiro forte do perfume importado dele me cobriram na hora.

— Você vai direto para o andar de cima, Milena — ele falou, com aquela voz grave e mandona, apontando para o elevador de vidro. — Não quero que você fique doente antes mesmo de assinarmos o nosso contrato amanhã. Eu exijo que você tome um banho quente agora mesmo para não resfriar. Vou mandar separarem algo para você vestir. Vá.

Eu entrei no elevador de vidro me sentindo uma intrusa, apertei o botão para o andar superior e fui levada para um corredor enorme e silencioso. Uma das funcionárias da casa, que parecia já estar esperando por mim, me guiou até um banheiro que era maior do que o quarto inteiro onde eu morava na casa dos meus tios.

 Havia uma banheira gigante e chuveiros que pareciam jorrar água morna direto do teto. Eu tirei aquele vestido de noiva imundo, joguei os trapos no chão e entrei debaixo da água quente. Chorei mais um pouco ali, deixando que o vapor levasse a fuligem da igreja e o resto da maquiagem borrada do meu rosto. Pela primeira vez em horas, meu corpo relaxou um pouco.

Quando saí do banho, percebi que não havia roupas ali, apenas um roupão de banho de algodão preto e pesado pendurado no cabide. o nome Ulisses estava bordado em dourado. Coloquei a peça e, na mesma hora, vi que ela ficou enorme em mim. As mangas passavam das minhas mãos e a barra ia até os meus tornozelos, mas, como ele era muito largo, o decote ficava um pouco frouxo no meu peito e, quando eu andava, o tecido se abria, deixando minhas pernas bem à mostra. Amarrei o cinto de pano na cintura o mais forte que pude e saí do quarto, tentando encontrar o caminho de volta.

Desci pelo elevador de vidro e segui o som de um piano baixo que tocava em algum lugar da parte de baixo da casa. Acabei entrando em uma biblioteca enorme, com paredes cheias de livros e uma lareira acesa que deixava o ambiente bem quentinho. 

Ulisses estava ali. Ele tinha tirado a gravata, aberto os primeiros botões da camisa social branca e dobrado as mangas até os cotovelos, revelando braços fortes e cheios de veias saltadas.

 Ele estava de pé, perto da janela, segurando um copo de vidro grosso com um líquido dourado que parecia ser uísque e algumas pedras de gelo. 

Quando o barulho dos meus passos descalços ecoou no piso de madeira, ele se virou devagar. Naquele segundo, o tempo pareceu parar dentro da sala. O olhar dele mudou na hora. 

Aqueles olhos intensos e escuros desceram pelo meu corpo devagar, analisando o meu cabelo castanho que ainda estava úmido e caindo pelos meus ombros, parando no decote do roupão e depois descendo para as minhas pernas descobertas que apareciam pela fenda do tecido preto. 

O ar sumiu da minha boca. Não era o olhar frio do homem de negócios que eu tinha visto no carro. Era um olhar faminto, um olhar de um homem que sabia exatamente o que queria e que estava controlando a vontade de avançar na minha direção.

O silêncio na biblioteca ficou tão pesado que eu conseguia ouvir o estalar da lenha queimando na lareira. Ulisses deu um gole demorado no uísque, sem desviar os olhos das minhas pernas, e a boca dele se contraiu em um sorriso grande e perigoso. 

Aquele clima quente e cheio de segundas intenções deixou bem claro para mim que aquele contrato de um ano seria uma missão bem difícil de cumprir sem que alguém acabasse se queimando no fogo daquela atração.

— Vou mandar fazer um roupão sob medida pra você…a menos que tenha gostado do meu. Se quiser pode ficar com esse. — ele disse, com a voz ainda mais rouca, usando o sarcasmo de sempre para disfarçar a intensidade do momento. Ele caminhou até a mesa e colocou o copo de vidro ali.

— Ah, não precisa obrigada. —Minha voz parecia um sussuro de tão baixa

 — Um quarto de hóspedes já foi preparado para você no final do corredor do segundo andar. Por hoje, chega de emoções. É melhor que você vá para lá e descanse bastante, porque amanhã o nosso jogo começa de verdade. O seu jantar já está lá, eu pedi por você. Mas pode pedir outra coisa se preferir. —Ele respirou fundo como se estivesse tentando se controlar. — Se precisar de mim, é só chamar. Boa noite. — A voz grave dele fez minha pele arrepiar.

Eu apenas balancei a cabeça, sem conseguir dizer uma única palavra, e dei as costas, subindo correndo para o quarto que a funcionária tinha me indicado. 

Quando fechei a porta do quarto de hóspedes e me deitei na cama gigante e macia, o silêncio da noite me abraçou. Mas eu não conseguia dormir. 

Eu olhava para o teto alto daquele quarto luxuoso e a imagem de Ulisses bebendo uísque não saía da minha mente. Eu conseguia sentir o calor daquele olhar faminto dele na minha pele até agora.

Fiquei rolando de um lado para o outro na cama, apertando os lençóis de algodão caro contra o meu corpo. A minha mente começou a se encher de perguntas e uma dúvida cruel apertou o meu peito.

 Eu estava fazendo a coisa certa? Aquele homem era implacável, perigoso e irresistível demais. 

Ele prometeu me ajudar a destruir o Pedro e a minha família, mas, olhando para o jeito que ele me encarou com aquele roupão, comecei a me perguntar se eu realmente estava usando o Ulisses para a minha vingança, ou se eu estava entrando de livre vontade em uma armadilha muito mais perigosa do que o hospício que o meu ex tinha planejado para mim.

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