Capítulo 7

(POV: Alexandre)

O vapor do banho ainda nublava o espelho quando saí do banheiro, apenas com a calça do pijama e uma toalha pendurada no pescoço. Passei a mão pelo rosto, sentindo a leve ardência onde a mão de Sophie havia me atingido horas antes. Um sorriso amargo surgiu em meus lábios. O tapa tinha sido merecido, mas o beijo... o beijo tinha sido uma revelação. Sophie lutava contra mim com todas as forças, mas seu corpo, naquele breve segundo de entrega na cozinha, havia dito algo completamente diferente.

Eu ainda sentia o gosto dela quando o silêncio da mansão foi estilhaçado.

Gritos. Uma discussão acalorada vinda do corredor da ala leste, tornavam-se impossíveis de ignorar.

Abri a porta do quarto e dei de cara com dona Helena, que corria pelo corredor com o rosto pálido.

— O que está acontecendo, dona Helena? — perguntei, minha voz cortando o ar.

— Oh, senhor Alexandre! É o menino Caleb e a menina Sophie... eles estão se matando lá dentro! É horrível, senhor!

Caminhei em direção à ala leste sem pressa. No caminho, encontrei Lúcia parada diante da porta do filho. Ela não tentava entrar, apenas observava a porta fechada com uma expressão de derrota e irritação. Lúcia sempre prezou pelas aparências, e ver o castelo de cartas de Caleb desmoronar daquela forma barulhenta parecia ferir seu orgulho tanto quanto a situação em si.

Parei a uma distância segura, encostado na parede, agindo apenas como um espectador. De dentro do quarto, a voz de Sophie surgiu rasgada, carregada de um ódio que eu não sabia que ela possuía.

— Não encosta em mim! — o grito dela atravessou a madeira da porta. — Nunca mais ouse me tocar com essas mãos sujas! Tudo o que você me disse... cada palavra... era uma mentira maldita!

— Sophie, por favor, vamos conversar, eu posso explicar... — a voz de Caleb era um sussurro patético, sufocado pelo pânico.

— Explicar o quê? — Sophie rebateu, e o som de algo de vidro se estilhaçando contra a parede pontuou sua fúria. — Que eu sou "ingênua demais"? Que você só precisa "aguentar esse casamento de fachada até garantir sua parte na herança"? Eu li, Caleb! Eu li cada palavra que você mandou para ela.

— Amor, você está interpretando tudo errado.

— Interpretando errado o quê? Que eu sou um fardo? Uma obrigação para você colocar as mãos no dinheiro do seu avô?

Em seguida a porta se escancarou e Sophie saiu como um furacão. Caleb a segurou pelo braço no corredor, bem diante dos meus olhos e do olhar gélido de Lúcia. Ele parecia desfeito, o rosto transfigurado pelo medo de perder o prêmio que ela representava.

— Amor, espera! Eu errei, eu admito! — a confissão finalmente veio, ecoando pelo corredor, uma tentativa desesperada de conter o inevitável. — Eu vou terminar com ela. Hoje. Agora mesmo! Ela nunca significou nada, amor, eu juro! Foi só um passatempo… Eu só precisava... É que eu tenho… necessidades. Você sabe que eu sou homem, Sophie, e a gente... a gente não tem tido nada...

A palavra “necessidades” me fez querer rir, mas o efeito em Sophie foi devastador. Ela soltou um riso quebrado, ácido. Um som que carregava o fim de qualquer ilusão.

— Então a culpa é minha? — ela rebateu, a voz subindo de tom, carregada de uma mágoa que parecia rasgar sua garganta. — Por que eu quis me resguardar para o nosso casamento? Por que eu acreditei que o que tínhamos era especial o suficiente para esperar? Isso te deu a liberdade para me trair?

— Não! Não foi isso que eu quis dizer! — Caleb a soltou, recuando ao ver que Lúcia observava tudo em silêncio, sem mover um dedo para defendê-lo. — Me perdoa amor, por favor! Eu te amo! Nós construímos tanta coisa juntos. Três anos! Você vai jogar três anos fora por um impulso? Por algumas mensagens idiotas? Pensa em tudo o que passamos, Sophie... nos nossos planos...

Os olhos de Sophie estava cheio de lágrimas, brilhando sob as luzes do corredor, mas a postura dela era de uma firmeza inabalável, apesar do tremor em suas mãos.

— Impulso? — ela repetiu, a voz agora num sussurro cortante. — Trair por meses não é impulso, Caleb. Planejar me descartar depois de me usar para ganhar uma herança não é um erro, é um plano. É por isso que eu estou indo. Eu não merecia isso e você sabe muito bem. Está tudo terminando entre a gente.

Caleb congelou. Percebi que os olhos dele começaram a ficar vermelhos e encheram de lágrimas. Ele parecia buscar algum apoio no olhar da mãe, mas Lúcia apenas desviou o rosto, envergonhada pela mediocridade do filho.

— Sophie… Amor... Por favor… — a voz dele já não tinha força, era apenas um lamento rouco. — Eu te amo! Me dá só mais uma chance... Para a gente... Eu faço qualquer coisa! Eu mudo, eu juro!

Sophie balançou a cabeça devagar, as lágrimas já rolando pelo seu rosto, mas sem qualquer sinal de dúvida. Ela olhou para ele uma última vez, e vi o momento exato em que o amor que ela sentia se transformou em cinzas.

— Não existe mais "a gente", Caleb.

Ela se virou e começou a descer as escadas em direção ao hall, o som de seus saltos batendo no mármore como uma contagem regressiva. Eu a segui com o olhar, sentindo uma satisfação sombria crescer em meu peito. O noivado estava morto, e Caleb tinha cavado a própria cova. Desci os degraus e a interceptei antes que ela alcançasse a porta principal.

— Olhe para você — eu disse, minha voz grave ecoando no hall vasto e silencioso. — Você não pertence a este lugar.

Ela parou, soltando um suspiro trêmulo, as lágrimas escorrendo sem controle enquanto me encarava. A vulnerabilidade dela era hipnotizante, uma chama que eu queria proteger e, ao mesmo tempo, possuir.

— Agora vá embora — continuei, meu tom gélido e final, ocultando o triunfo que vibrava em minhas veias. — E se você tiver algum instinto de sobrevivência, nunca mais volte.

Não disse mais nada. Apenas fiquei ali, observando-a quebrar por mais um segundo sob o peso da minha sentença, antes de me virar e caminhar de volta para dentro da mansão. Enquanto subia as escadas, um sorriso discreto surgiu em meu rosto. Sophie estava livre de Caleb, e agora, o caminho estava finalmente limpo para mim.

Ela ainda não sabia, mas nunca sairia realmente do meu alcance. Eu a queria, e agora não havia mais ninguém no meu caminho.

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