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Capítulo 3 : O Jogo Virou e a Retomada do Meu Teto

Quando as rodas do ônibus me trouxeram de volta à realidade, a dor profunda do abandono do Alexandre começou a se transformar em algo completamente diferente dentro do meu peito: revolta e determinação. Eu estava grávida de seis meses e, nessa altura da gestação, eu já tinha feito os exames e sabia exatamente que carregava uma menina no meu ventre. Olhar para o pequeno príncipe e saber que uma princesa estava a caminho me deu uma força que eu desconhecia. Eu não tinha nenhuma estrutura financeira e me recusei a aceitar o papel de vítima do destino na comunidade de invasão. Foi ali que me lembrei de Henrique, meu primeiro marido. He havia ficado com a casa que pertencia a nós dois, vivendo confortavelmente enquanto eu passava por privações, e não me ajudava em absolutamente nada com o sustento do nosso filho. Decidi que era hora de fazer justiça e recuperar o que era meu por direito. Como se o universo estivesse lendo os meus pensamentos mais íntimos, Henrique me procurou e começamos a conversar, ele já sabia de tudo o que tinha me acontecido com o Alexandre : a traição, a nova gravidez e o meu total desamparo. Vendo a minha aparente vulnerabilidade, ele manifestou o desejo de reatar o nosso relacionamento. No entanto, a Daniele que ele conhecia no passado, a menina assustada que aceitava calada as agressões cotidianas, não existia mais. Eu aceitei voltar para a nossa antiga casa, mas impus as minhas regras com a firmeza implacável de quem estava, pela primeira vez, no controle absoluto da própria vida. Olhando fixamente em seus olhos, grávida de seis meses de outro homem e sabendo que esperava minha princesinha, eu disse a Henrique que ele teria que me conquistar novamente. Deixei claro que, morando ele, eu e nosso filho, ele seria apenas um companheiro de espaço e que não me tocaria em hipótese alguma, ele aceitou os meus termos, talvez acreditando que o tempo me faria ceder. Durante os dois primeiros meses daquela convivência estratégica, Henrique realmente se esforçou para provar que estava mudando e que merecia uma nova chance. Ele trabalhava duro todos os dias, me entregava o salário inteiro nas mãos e fazia questão de fazer todas as compras de mantimentos para a casa. Graças a essa atitude dele, pela primeira vez em muito tempo, consegui ter um verdadeiro alívio financeiro. Havia fartura de comida na mesa, roupas limpas e uma estrutura digna para o meu filho, permitindo que eu descansasse enquanto a minha barriga crescia na reta final da gestação. Eu usava os recursos dele para estruturar o lar onde os meus dois filhos iriam viver, mantendo a minha armadura emocional intacta. Porém, o lobo apenas se fantasiava de cordeiro para conseguir o que queria. Ao final do segundo mês morando juntos, a paciência de Henrique se esgotou por completo e ele tentou me forçar de todas as formas a ter relações com ele, quebrando o acordo que havíamos feito. No momento exato em que eu neguei e impus o meu limite, o homem agressivo e violento do passado despertou dentro dele com fúria. Eu corri, me tranquei dentro do quarto e gritei com toda a firmeza da minha alma que iria chamar a polícia. Como eu passei três anos apanhando no passado e nunca tinha tido a coragem de denunciá-lo, Henrique não acreditou em mim, achou que era apenas um blefe, uma ameaça boba de uma mulher indefesa, conseguiu invadir o meu espaço com fúria e começamos a discutir e a brigar. Tomado pelo ódio, Henrique partiu para a agressão física e me prensou, apertando as mãos contra o meu pescoço, iniciando um enforcamento cruel. Eu estava grávida de oito meses, desesperada e perdendo o ar, lutando pela minha vida e pela vida da minha filha que estava para nascer. Só parou de me machucar porque, no meio daquele horror, o nosso filho acordou com o barulho. Chorando e assustado, o meu pequeno menino olhou para o pai e disparou as palavras que salvaram a minha vida: "Não machuca a minha mamãe!". A voz do nosso príncipe quebrou o transe violento de Henrique, que me soltou. Eu realmente tinha discado o 190 antes. Os policiais chegaram rápido e, diante da gravidade da situação, nos acomodaram na viatura, dois policiais ocupavam os bancos da frente, no banco de trás, viajei ao lado de um terceiro policial e do meu filho, tentando acalmar o pequeno príncipe. Henrique, por sua vez, foi trancado isolado no compartimento de presos, o camburão da viatura, totalmente cortado de nós. Fomos para a delegacia de polícia. Lá dentro, o ambiente era frio e tenso. Fomos separados para prestar depoimento, e cada um de nós contou a sua própria versão dos fatos. Eu relatei o horror do enforcamento e mostrei as marcas que ainda ardiam na minha pele, enquanto ele tentava se defender. No entanto, um detalhe me chamou muita atenção: em nenhum momento daquele depoimento Henrique mencionou para o delegado ou para os policiais que a bebê que eu carregava na barriga não era filha dele. Ele silenciou sobre a paternidade da minha filha, engolindo a verdade diante da autoridade, talvez pelo peso da vergonha ou por saber que nada justificaria a covardia que havia cometido contra uma mulher grávida de oito meses. A denúncia foi formalizada ali mesmo, sem espaço para dúvidas. Henrique recebeu a voz de prisão em flagrante e ficou retido na carceragem, sem direito a voltar para trás. Após o encerramento de todo o procedimento, os policiais me acolheram com respeito e me levaram de volta para casa na viatura. Quando a porta daquela casa se fechou atrás de mim e do meu filho naquela madrugada, o silêncio que tomou conta das paredes não era mais de medo, mas de libertação. A justiça que esperei por anos finalmente havia sido feita. Henrique estava preso, ele havia sido retirado definitivamente da minha vida e eu fiquei sozinha, mas completamente segura, vitoriosa e dona absoluta do lar que era meu por direito.

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