O apartamento cheirava a ausência.
Helena percebeu isso na manhã seguinte, enquanto caminhava descalça pelo corredor silencioso.
Era estranho como a casa ainda parecia dele.
A caneca favorita continuava sobre a pia.
O perfume permanecia impregnado no travesseiro, nos lençóis e na cama.
Um relógio esquecido descansava na cômoda do quarto.
Restos.
Pequenos pedaços de um casamento morto.
Luna ainda dormia quando Helena entrou no quarto pela primeira vez desde que Ricardo foi embora.
Ela parou na porta.
O peito apertou imediatamente.
A cama está desarrumada, e o outro lado está vazio.
O armário semi aberto mostrando os espaços onde as roupas dele costumavam ficar.
Parecia uma cena de crime.
E talvez fosse.
Porque algo ali tinha sido assassinado.
Ela mesma.
Helena caminhou devagar até o closet, tentando ignorar o tremor nas mãos.
Precisava organizar as coisas.
Precisava agir como adulta.
Mas quando encontrou uma camisa social preta de Ricardo pendurada no fundo do armário, tudo desmoronou outra vez.
Ela segurou o tecido entre os dedos.
O perfume dele ainda estava ali.
Forte.
Familiar.
Dolorosamente familiar.
Fechando os olhos, Helena se lembrou das noites em que Ricardo chegava tarde do trabalho, cansado, e a abraçava por trás enquanto ela fazia jantar.
“Você é minha casa.”
Ele costumava dizer isso.
Mentira.
Mentira.
Mentira.
Helena apertou a camisa contra o peito antes que percebesse o que estava fazendo.
Patético.
Ridículo.
Mesmo destruída, ainda sentia falta dele.
Ainda queria acreditar que aquilo era um erro horrível do qual ele se arrependeria.
Mas homens arrependidos não postavam fotos felizes com amantes grávidas.
Homens arrependidos não abandonavam filhas de dois anos.
Ela abriu os olhos rapidamente e jogou a camisa no chão como se queimasse.
— Idiota — sussurrou para si mesma.
Não sabia se estava falando dele ou dela.
Talvez dos dois.
Passou a manhã inteira separando objetos de Ricardo em caixas.
Relógios.
Sapatos.
Documentos.
Gravatas caras que Helena ajudou a escolher quando ele começou a crescer na empresa.
Cada item carregava uma memória.
E cada memória doía.
No fundo de uma gaveta, ela encontrou um álbum antigo.
Fotos.
Helena sentou lentamente no chão ao abri-lo.
Ali estavam eles no início.
Jovens.
Apaixonados.
Pobres.
Felizes.
Ricardo sorria em todas as fotos como se Helena fosse a melhor coisa que já tinha acontecido em sua vida.
Ela passou os dedos sobre uma imagem do casamento civil deles.
Lembrou-se daquele dia perfeitamente.
Não tinham dinheiro para festa.
Nem alianças caras.
Nem lua de mel.
Mas tinham amor.
Ou pelo menos ela acreditava que tinham.
Uma lágrima caiu sobre a fotografia.
Depois outra.
E outra.
Até que Helena fechou o álbum rapidamente, incapaz de continuar olhando.
Foi então que percebeu algo estranho.
Uma foto estava faltando.
A mais importante.
A foto do nascimento de Luna.
Ela procurou entre as páginas confusas, mas não encontrou.
O coração apertou de forma diferente dessa vez.
Porque Ricardo tinha levado aquela foto.
Entre todas as coisas que deixou para trás.
Foi aquela que escolheu levar.
Helena não sabia o que sentir.
Raiva?
Esperança?
Dor?
Talvez tudo junto.
Luna apareceu no corredor naquele momento, segurando o ursinho velho contra o peito.
— Mamãe.
Helena rapidamente limpou o rosto.
— Oi, meu amor.
A menina entrou no quarto devagar, olhando as caixas espalhadas.
Então apontou para elas.
— Papá?
Helena sentiu a garganta fechar.
Ela puxou Luna para o colo imediatamente.
— Não, princesa.
Luna encostou a cabeça em seu peito inocentemente.
E Helena percebeu que não tinha tempo para quebrar.
Porque enquanto ela desmoronava por dentro, aquela criança ainda dependia dela para tudo.
Comida.
Proteção.
Amor.
Força.
Mesmo quando Helena não tinha mais nenhuma.
Naquela noite, depois que Luna dormiu, Helena voltou ao quarto mais uma vez.
Olhou ao redor em silêncio.
Depois abriu a última gaveta da cômoda.
Lá dentro encontrou a aliança de Ricardo.
Ele tinha esquecido.
Ou talvez tivesse deixado de propósito.
Helena segurou o anel dourado na palma da mão por longos segundos.
O símbolo de uma promessa que não significava mais nada.
Então fechou os dedos lentamente.
E pela primeira vez desde que ele foi embora.
Ela sentiu raiva de verdade.
Não tristeza.
Não saudade.
Raiva.
Porque Ricardo não destruiu apenas um casamento.
Ele destruiu a mulher que Helena costumava ser.