06

Filipa já estava acostumada a ser observada, mas não daquela forma. Assim que entrou no escritório naquela manhã, percebeu imediatamente que algo tinha mudado, não na rotina, nem no fluxo de trabalho, mas no comportamento das pessoas ao redor, nos olhares que surgiam e se mantinham por tempo demais, nas conversas que cessavam quando ela se aproximava e recomeçavam em sussurros assim que passava. A notícia já havia chegado, e era óbvio que chegaria, porque um noivado com Michael Philips não era o tipo de informação que passava despercebida, muito menos em um ambiente onde reputação valia tanto quanto competência.

Filipa seguiu pelo corredor com a postura ereta e a expressão neutra, ignorando completamente os olhares, como sempre fazia quando alguém tentava ultrapassar o limite do profissional, mas, mesmo sem olhar, ela ouvia, e dessa vez os comentários vinham carregados de julgamento, curiosidade e um tipo de desprezo disfarçado de admiração que ela conhecia bem demais.

— Você viu?

— Eu não acredito…

— Ela sempre disse que não queria casar…

— Com um bilionário desses?

— Esperta ela…

— Escolheu o cliente certo, né?

A última frase veio mais baixa, mas não o suficiente.

— Golpe do baú clássico.

Filipa parou.

Não de forma impulsiva, mas de maneira calculada, como alguém que decide interromper uma situação e não reage a ela. Virou lentamente o rosto na direção de onde veio a voz, encontrando dois advogados mais novos que tentaram desviar o olhar rápido demais para parecer natural.

Não era suficiente.

Ela caminhou até eles com passos firmes, sem pressa, deixando que o silêncio ao redor se formasse naturalmente.

— Repete.

A voz saiu baixa, controlada.

Nenhum dos dois respondeu.

Filipa sustentou o silêncio por alguns segundos, olhando diretamente para eles antes de tomar a decisão.

— Você.

Apontou discretamente para um deles.

— Está demitido.

O outro engoliu seco.

— E você também.

— Doutora, eu—

— Sem explicação.

A interrupção veio firme.

— O meu escritório não é lugar para gente pequena.

O impacto foi imediato, não apenas sobre os dois, mas sobre todo o ambiente, que agora evitava qualquer movimento desnecessário.

Filipa não disse mais nada. Apenas se virou e entrou na própria sala, fechando a porta com calma, como se aquilo não tivesse exigido absolutamente nada dela. No instante em que ficou sozinha, porém, a expressão mudou; ela soltou a bolsa sobre a mesa e passou a mão pelo rosto, deixando escapar a irritação que havia controlado até então, andando de um lado para o outro enquanto tentava organizar os pensamentos.

— Ridículo.

Murmurou para si mesma, incomodada não apenas com os comentários, mas com o fato de que, pela primeira vez, aquilo tocava em algo que ela ainda não tinha decidido como lidar. Sempre foi julgada, sempre ouviu coisas piores, mas daquela vez havia uma diferença incômoda, porque existia um fundo de verdade no que estavam dizendo, e isso a irritava ainda mais.

Filipa parou diante da mesa, apoiando as mãos sobre a superfície enquanto respirava fundo, tentando retomar o controle completo da situação.

— Golpe do baú…

Repetiu com desprezo.

— Como se eu precisasse disso.

O celular vibrou sobre a mesa.

Nome: Michael Philips.

Ela encarou a tela por alguns segundos antes de atender.

— O que foi?

A irritação estava evidente na voz.

— Vamos jantar hoje.

Ele foi direto.

— Com a minha família.

Filipa soltou uma pequena risada sem humor.

— Não é um bom momento.

— Está no contrato.

A resposta veio imediata.

— E a minha mãe está curiosa para conhecer a mulher que conseguiu dobrar o filho dela.

Filipa revirou os olhos.

— Quando ela descobrir que isso é um contrato, vai adorar.

— Ninguém pode saber.

A voz dele ficou mais firme.

— O meu irmão quer o meu lugar na empresa.

O silêncio durou um segundo.

— Eu estou irritada com você.

— Por quê, querida?

O tom dele carregava provocação.

— Porque todo mundo está falando que eu sou interesseira.

A voz dela subiu levemente.

— Que eu te dei um golpe do baú.

Fez uma pausa curta.

— Como se eu quisesse dar um golpe em você.

A respiração veio mais forte.

— Pelo amor de Deus, você nem é isso tudo que falam na mídia.

A provocação saiu natural.

— Nem é tão bonito assim.

Do outro lado, ele soltou um riso baixo.

— Eu sou bem bonito.

— Vou mandar um vestido para você.

— Não precisa.

— Precisa sim.

Ele não deu espaço.

— É um evento da minha família.

A ligação foi encerrada antes que ela pudesse responder.

Filipa encarou o celular por alguns segundos antes de jogá-lo sobre a mesa.

— Insuportável.

Horas depois, a caixa chegou. Era grande, discreta, mas inegavelmente cara, e Filipa abriu com calma, já esperando algum tipo de exagero vindo dele, mas o que encontrou não foi apenas luxo, foi precisão. O vestido preto era elegante, impecável, o tipo de peça que não se encontrava com facilidade, muito menos sem indicação direta, e quando ela passou a mão pelo tecido, percebeu algo que a incomodou ainda mais do que o valor.

O caimento.

Era perfeito.

Como se tivesse sido feito sob medida.

— Como ele sabe as minhas medidas?

A pergunta saiu baixa, sem resposta, deixando no ar a sensação incômoda de que havia mais controle ali do que ela gostaria de admitir.

Horas depois, já pronta, Filipa se olhou no espelho e, por um breve segundo, não se reconheceu. O vestido desenhava seu corpo com perfeição, o cabelo caía de forma elegante e a maquiagem destacava cada traço com sofisticação, deixando evidente que aquela versão dela havia sido construída com intenção.

E ela odiava o fato de que ele sabia exatamente como deixá-la assim.

O carro chegou no horário exato e Michael já a esperava. Quando ela entrou, ele a observou com calma, sem pressa, deixando o olhar percorrer cada detalhe antes de falar.

— Você está belíssima.

Filipa fechou a porta com mais força do que o necessário.

— Não fala comigo.

Ele sorriu de lado.

— Já percebi que esse jantar vai ser animado.

O carro começou a se mover.

— O que você acha de dormir na minha casa depois?

A proposta veio leve.

— Nem pensar.

A resposta foi imediata.

— Eu sou seu noivo.

— Por contrato.

Ela virou o rosto na direção dele.

— E o nosso contrato só é válido depois do casamento.

Fez uma pausa.

— Antes disso, você não me toca.

O olhar dela se manteve firme.

— E depois… só quando eu quiser.

Michael a observou por um segundo a mais antes de responder.

— Vai parecer uma eternidade.

A mansão surgiu poucos minutos depois, impondo presença antes mesmo de qualquer detalhe ser analisado. O lugar não existia apenas para morar, mas para impressionar, para estabelecer hierarquia, e Filipa percebeu isso assim que desceu do carro, mantendo a postura firme mesmo com a sensação clara de estar entrando em um território onde o controle não pertencia a ela.

Eles entraram.

O ambiente interno era ainda mais grandioso.

E então a voz veio.

— Então essa é a mulher que você arrumou?

Filipa virou o rosto na direção da escada.

Uma mulher elegante descia lentamente, analisando cada detalhe dela sem qualquer disfarce.

— Olívia era mais bonita.

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