Parte 2: O Encontro

Coloquei os fones de ouvido e continuei limpando o pátio, ainda tinha alguns minutos até a palestra começar. Deixei o balde ao lado e fui focando nos detalhes, tentando organizar cada canto. Quando olhei no relógio, percebi que estava atrasada. Tirei rapidamente o avental e corri para o auditório.

No meio do caminho, lembrei do balde e voltei correndo para pegá-lo. Mas, assim que me virei, esbarrei em alguém. O impacto me desequilibrou, e, quando estava prestes a cair, senti mãos fortes me segurarem, aproximando-me do corpo dele.

Por alguns segundos, senti sua respiração quente perto da minha pele, e o coração disparou. Quando finalmente me endireitei, soltei meu braço e olhei para ele. Pelo jaleco, era o médico. Ele era alto, forte, cabelos negros levemente desalinhados, olhos castanhos penetrantes — parecia uma mistura de perfeição com intensidade. Meu cérebro ficou completamente vazio por alguns segundos.

— Você está bem? — perguntou ele, a voz baixa, mas firme, carregada de algo que fazia meu corpo reagir sem que eu quisesse.

— Ah… sim… estou bem, obrigada! — respondi, ainda ofegante, tentando controlar o nervosismo.

— Me perdoe, foi minha culpa. Estava com pressa e quase te fiz cair de cara no chão.

— Não se preocupe… estou acostumada… sou um pouco desastrada — disse, tentando rir para disfarçar a vergonha.

Ele deu uma risada de canto, e senti minhas bochechas esquentarem ainda mais. Algo naquela risada era… sedutor, estranho, mas irresistível.

— Então, tudo certo? Melhor eu ir antes que você me perca de vista — disse ele, piscando para mim, deixando meu coração disparar ainda mais.

Assenti com um pequeno aceno, incapaz de desviar o olhar. Pela primeira vez, senti algo intenso— um frio na barriga que misturava medo, curiosidade e atração.

Corri para o auditório, ainda tentando recompor a postura. Me sentei discretamente no fundo, observando o médico se aproximar do palco para começar a palestra. Ele exalava confiança, cada gesto parecia natural, mas ainda assim carregava um magnetismo que prendia todos os olhares, inclusive o meu.

O palestrante começou a falar sobre escolhas de carreira, medicina e a importância da empatia. Mas minha atenção estava totalmente nele. Cada gesto, cada sorriso discreto, cada olhar que ele lançava em direção à plateia parecia me encontrar diretamente.

Quando a palestra acabou, alguns alunos se aproximaram para fazer perguntas, e eu me mantive na minha. Porém, na saída, algo inesperado aconteceu: alguém segurou minha mão.

— Esqueceu algo, Bel? — perguntou uma voz familiar. Meu coração disparou. Era ele, exatamente na minha frente.

— Um pouco… — respondi, surpresa e corando.

— Percebi que ainda não nos apresentamos. Sou Matteo. Posso saber seu nome?

— Meu nome é Bella, mas pode me chamar de Bel! — disse, tentando soar confiante, mas minha voz falhou em algumas palavras. — Prazer em conhecê-lo.

Ele sorriu, e algo no canto da boca dele deixou meu coração mais acelerado. Um sorriso quase provocador, que parecia saber exatamente o efeito que tinha sobre mim.

— Bel, já está tarde. Quer uma carona? — perguntou, sem parecer forçado, mas com um tom que me fez repensar a decisão.

Meus pensamentos dispararam: não conhecia Matteo direito, e, por mais confiável que parecesse, ainda era um completo estranho. Mas também era tarde, e o trajeto até minha casa poderia ser perigoso. Respirei fundo e decidi aceitar — apenas por precaução.

— Tudo bem, obrigado — respondi, tentando manter a postura calma.

No carro, havia uma loira linda, toda arrumada, sentada no banco da frente.

— Oi — disse ela, com um sorriso contido.

— Oi… — respondi, um pouco constrangida, não sabia muito sobre ela.

— Sou Daniela — se apresentou, sem desviar os olhos do celular.

— Você é esposa do Matteo? — perguntei, tentando quebrar o silêncio.

— Não, apenas amiga — respondeu, tranquila.

— Já está interessada nele? — perguntei, tentando puxar assunto.

— Não, só curiosidade — respondi, corando levemente.

Nesse momento, Matteo entrou no carro. Silencioso, forte, exalando presença. Ligou o carro e seguimos em direção à minha casa.

— Você deve estar com medo — disse ele, quebrando o silêncio.

— Não… por que estaria? — perguntei, tentando sorrir.

— Não se preocupe, não vou machucar você. Não machuco mulheres.

Assenti, sentindo uma estranha mistura de alívio e excitação.

— Então, você é uma garota corajosa — disse Matteo, olhando para frente, mas eu sentia seu olhar em mim, intenso, avaliador.

— Não sei se aceitar a carona de um estranho é coragem ou loucura — respondi, baixa, mas ele sorriu de lado, claramente entendendo. — Mas me diga, por que quis me dar carona?

— Depois daquele empurrão, achei justo me desculpar pessoalmente — disse ele, com o canto da boca curvado em um sorriso provocador.

— Mas desculpas já bastariam… — falei, corando ao lembrar do toque dele que ainda queimava minha pele.

— Você é esperta, Bel — disse ele, sério, mas com um brilho nos olhos. — Não era só isso. Queria te conhecer melhor.

— Me conhecer? — perguntei, surpresa.

— Sim. Você me pareceu diferente… interessante.

— Quantos anos você tem? — perguntei, curiosa.

— Vinte e cinco. E você?

— Dezoito… — murmurei, corando.

— Achei que fosse mais velha — disse ele, franzindo levemente a testa, mas ainda com aquele sorriso que me derretia.

— É o que sempre pensam! — respondi, rindo nervosamente.

— E limpar o pátio… isso é hobby ou necessidade?

— perguntou, curioso.

— Nenhum dos dois, apenas trabalho honesto — respondi, tentando parecer natural.

Por alguns minutos, ficamos em silêncio. Mas não era um silêncio vazio: era um silêncio carregado de tensão, curiosidade e algo não dito, que me fazia sentir borboletas no estômago.

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