Mundo de ficçãoIniciar sessãoColoquei os fones de ouvido e continuei limpando o pátio, ainda tinha alguns minutos até a palestra começar. Deixei o balde ao lado e fui focando nos detalhes, tentando organizar cada canto. Quando olhei no relógio, percebi que estava atrasada. Tirei rapidamente o avental e corri para o auditório.
No meio do caminho, lembrei do balde e voltei correndo para pegá-lo. Mas, assim que me virei, esbarrei em alguém. O impacto me desequilibrou, e, quando estava prestes a cair, senti mãos fortes me segurarem, aproximando-me do corpo dele. Por alguns segundos, senti sua respiração quente perto da minha pele, e o coração disparou. Quando finalmente me endireitei, soltei meu braço e olhei para ele. Pelo jaleco, era o médico. Ele era alto, forte, cabelos negros levemente desalinhados, olhos castanhos penetrantes — parecia uma mistura de perfeição com intensidade. Meu cérebro ficou completamente vazio por alguns segundos. — Você está bem? — perguntou ele, a voz baixa, mas firme, carregada de algo que fazia meu corpo reagir sem que eu quisesse. — Ah… sim… estou bem, obrigada! — respondi, ainda ofegante, tentando controlar o nervosismo. — Me perdoe, foi minha culpa. Estava com pressa e quase te fiz cair de cara no chão. — Não se preocupe… estou acostumada… sou um pouco desastrada — disse, tentando rir para disfarçar a vergonha. Ele deu uma risada de canto, e senti minhas bochechas esquentarem ainda mais. Algo naquela risada era… sedutor, estranho, mas irresistível. — Então, tudo certo? Melhor eu ir antes que você me perca de vista — disse ele, piscando para mim, deixando meu coração disparar ainda mais. Assenti com um pequeno aceno, incapaz de desviar o olhar. Pela primeira vez, senti algo intenso— um frio na barriga que misturava medo, curiosidade e atração. Corri para o auditório, ainda tentando recompor a postura. Me sentei discretamente no fundo, observando o médico se aproximar do palco para começar a palestra. Ele exalava confiança, cada gesto parecia natural, mas ainda assim carregava um magnetismo que prendia todos os olhares, inclusive o meu. O palestrante começou a falar sobre escolhas de carreira, medicina e a importância da empatia. Mas minha atenção estava totalmente nele. Cada gesto, cada sorriso discreto, cada olhar que ele lançava em direção à plateia parecia me encontrar diretamente. Quando a palestra acabou, alguns alunos se aproximaram para fazer perguntas, e eu me mantive na minha. Porém, na saída, algo inesperado aconteceu: alguém segurou minha mão. — Esqueceu algo, Bel? — perguntou uma voz familiar. Meu coração disparou. Era ele, exatamente na minha frente. — Um pouco… — respondi, surpresa e corando. — Percebi que ainda não nos apresentamos. Sou Matteo. Posso saber seu nome? — Meu nome é Bella, mas pode me chamar de Bel! — disse, tentando soar confiante, mas minha voz falhou em algumas palavras. — Prazer em conhecê-lo. Ele sorriu, e algo no canto da boca dele deixou meu coração mais acelerado. Um sorriso quase provocador, que parecia saber exatamente o efeito que tinha sobre mim. — Bel, já está tarde. Quer uma carona? — perguntou, sem parecer forçado, mas com um tom que me fez repensar a decisão. Meus pensamentos dispararam: não conhecia Matteo direito, e, por mais confiável que parecesse, ainda era um completo estranho. Mas também era tarde, e o trajeto até minha casa poderia ser perigoso. Respirei fundo e decidi aceitar — apenas por precaução. — Tudo bem, obrigado — respondi, tentando manter a postura calma. No carro, havia uma loira linda, toda arrumada, sentada no banco da frente. — Oi — disse ela, com um sorriso contido. — Oi… — respondi, um pouco constrangida, não sabia muito sobre ela. — Sou Daniela — se apresentou, sem desviar os olhos do celular. — Você é esposa do Matteo? — perguntei, tentando quebrar o silêncio. — Não, apenas amiga — respondeu, tranquila. — Já está interessada nele? — perguntei, tentando puxar assunto. — Não, só curiosidade — respondi, corando levemente. Nesse momento, Matteo entrou no carro. Silencioso, forte, exalando presença. Ligou o carro e seguimos em direção à minha casa. — Você deve estar com medo — disse ele, quebrando o silêncio. — Não… por que estaria? — perguntei, tentando sorrir. — Não se preocupe, não vou machucar você. Não machuco mulheres. Assenti, sentindo uma estranha mistura de alívio e excitação. — Então, você é uma garota corajosa — disse Matteo, olhando para frente, mas eu sentia seu olhar em mim, intenso, avaliador. — Não sei se aceitar a carona de um estranho é coragem ou loucura — respondi, baixa, mas ele sorriu de lado, claramente entendendo. — Mas me diga, por que quis me dar carona? — Depois daquele empurrão, achei justo me desculpar pessoalmente — disse ele, com o canto da boca curvado em um sorriso provocador. — Mas desculpas já bastariam… — falei, corando ao lembrar do toque dele que ainda queimava minha pele. — Você é esperta, Bel — disse ele, sério, mas com um brilho nos olhos. — Não era só isso. Queria te conhecer melhor. — Me conhecer? — perguntei, surpresa. — Sim. Você me pareceu diferente… interessante. — Quantos anos você tem? — perguntei, curiosa. — Vinte e cinco. E você? — Dezoito… — murmurei, corando. — Achei que fosse mais velha — disse ele, franzindo levemente a testa, mas ainda com aquele sorriso que me derretia. — É o que sempre pensam! — respondi, rindo nervosamente. — E limpar o pátio… isso é hobby ou necessidade? — perguntou, curioso. — Nenhum dos dois, apenas trabalho honesto — respondi, tentando parecer natural. Por alguns minutos, ficamos em silêncio. Mas não era um silêncio vazio: era um silêncio carregado de tensão, curiosidade e algo não dito, que me fazia sentir borboletas no estômago.






