Ao ver Marina tão insistente naquele momento, Vitor ergueu a mão e pressionou o ponto entre as sobrancelhas.
Naquele instante, Marina sentiu com clareza a agressividade se acumular ao redor dele.
Só que, quando ele voltou a olhá-la, seus olhos ainda estavam gentis.
— Na verdade, não tem nada demais em te contar. Eu só saí para tentar vencer por conta própria.
— Se eu ficasse na família Ramos, tudo que eu tivesse seria dado pelo Sr. Roberto.
— Marina, naquela época eu me apaixonei por você. Eu queria te dar um futuro. Um futuro conquistado por mim. Por isso escolhi sair e lutar sozinho.
— Passei cinco anos construindo alguma coisa. Depois que consegui, voltei.
— E o motivo de eu não querer contar ao seu pai e à sua mãe antes também foi porque eu tinha medo demais de te perder.
— Eu tinha medo de que eles não aceitassem que eu me casasse com você.
Ao dizer isso, o olhar de Vitor ficou ainda mais sério.
— Marina, eu sei que fui egoísta fazendo isso, mas só assim eu poderia ficar com você de verdade. Só assim eu não correria o risco de perder você.
Aquelas palavras pareciam emocionantes à primeira vista, mas não resistiam a uma análise mínima.
Antes, se ouvisse Vitor dizer aquilo, Marina com certeza ficaria tocada. Agora, só restava decepção.
Ela tinha lhe dado uma chance de ser sincero. Esperava que ele contasse tudo. Mas ele ainda escolheu uma mentira superficial.
Ela admitia que, naquele momento, ainda amava profundamente o homem à sua frente.
Ao encarar aquele olhar tão terno, tudo que tinham vivido parecia voltar e se fechar ao redor dela, como uma rede da qual ela não conseguia escapar.
Só de pensar em ir embora, o peito dela se apertava tanto que até respirar doía.
Mas a dúvida já tinha criado raiz. Então, daquela vez, por mais que fosse difícil abrir mão dele, Marina decidiu ir embora.
Não queria, nem podia, fazer seus pais perderem a dignidade por causa dela.
Para não fazer Vitor desconfiar e acabar atrapalhando o plano, Marina agiu como sempre. Fingiu estar tocada, se aproximou dele e se deixou envolver por seus braços, sem perguntar mais nada.
Só quando o carro parou diante do ateliê de vestidos é que ela se recompôs e desceu com Vitor.
Marina tinha esperado muito por aqueles vestidos de noivado e já tinha imaginado inúmeras vezes como seria ficar ao lado dele usando cada um deles.
Mas agora, aquela festa de noivado estava destinada a virar uma grande farsa. Se os vestidos eram bonitos ou não, já não importava.
Mesmo sem nenhuma expectativa, eles ainda assim caíram perfeitamente nela.
Vendo o encanto que Vitor nem tentou disfarçar e ouvindo os elogios cheios de inveja das atendentes, Marina só conseguiu fingir que estava feliz.
Ao perceber que ela tinha gostado, Vitor decidiu ficar com aqueles vestidos sem hesitar. Todos valiam algo na casa dos 10 milhões de reais.
Mas agora, por mais gentil e atencioso que ele parecesse, Marina já não sentia a felicidade de antes.
Sem vontade de passear com Vitor, ela inventou uma desculpa qualquer, dizendo que tinha combinado de sair com uma amiga.
Vitor não pensou muito. Pediu ao motorista que a levasse até lá e pegou um táxi para a empresa.
Marina pediu que o motorista a deixasse na entrada do shopping. Depois entrou depressa, saiu pelo outro lado e pegou um táxi direto para o hospital.
Ao chegar, ela não perdeu tempo. Foi direto ao setor de ginecologia, passou pela recepção e fez os exames.
Quando recebeu o resultado e confirmou que não estava grávida, seu coração inquieto finalmente relaxou um pouco.
Ao sair do hospital, talvez por causa do sol forte, talvez pela ansiedade, Marina sentiu uma tontura tão forte que quase não conseguiu se manter em pé.
Ela se apoiou na parede, se agachou ao lado e pegou o celular para ligar para Roberto.
A ligação foi atendida rapidamente. A voz carinhosa de Roberto veio do outro lado:
— Que milagre você me ligar assim? Finalmente resolveu trazer aquele namorado precioso para eu conhecer?
Marina tinha feito faculdade na Cidade G e reencontrado Vitor no último ano.
Por causa dele, depois de se formar, ela ficou na Cidade G e arrumou um emprego. Em um piscar de olhos, três anos tinham se passado.
Toda vez que seus pais diziam que iriam visitá-la, ela recusava com os mais diversos motivos.
E, toda vez que ela voltava para a Cidade J, Vitor nunca a acompanhava.
Foram três anos de namoro intenso. Para passar mais tempo com Vitor, ela voltou para casa pouquíssimas vezes. Mesmo assim, seus pais nunca a culparam. Só a lembravam sempre de cuidar de si mesma.
Agora, pensando nas palavras de Vitor ao telefone e ouvindo o cuidado do pai, Marina finalmente não conseguiu segurar as lágrimas que vinha reprimindo havia tanto tempo.
— Pai, eu quero voltar para casa.
Roberto ficou em silêncio por um instante do outro lado e perguntou:
— Nina, conta para o seu pai. Aquele homem te fez alguma coisa?
Assim que Roberto disse isso, as lágrimas de Marina caíram com ainda mais força. Mesmo assim, ela respondeu:
— Não, pai. Não pergunta...
— Tá, tá, tá. Eu não pergunto mais. Se você quer voltar, então volta. Eu vou te buscar, está bem?
— Nina, nós já queríamos que você voltasse há muito tempo. Fica tranquila. Eu e sua mãe sempre vamos ser o seu porto seguro. Você pode voltar quando quiser.
— Não sofra sozinha aí fora. Se acontecer qualquer coisa, você precisa contar para a gente.
— Tá. — Ouvindo aquelas palavras de cuidado, Marina conteve a tristeza e forçou um sorriso. — Esperem mais dez dias por mim. Daqui a dez dias eu volto e nunca mais saio da Cidade J.
Seus pais a tratavam tão bem. Fosse qual fosse o motivo de Vitor, ela não permitiria que eles perdessem toda a dignidade diante dos parentes por causa dela.
Por isso, aquela festa de noivado estava destinada a não ter noiva.
Depois de conversar mais um pouco com Roberto, Marina foi se acalmando.
Ao analisar friamente a própria situação, percebeu que a parte mais difícil ainda era aquele ensaio sensual.
Era um ensaio mais sensual, que ela e Vitor tinham feito juntos.
Na época, Vitor disse que aquilo seria um segredo só dos dois. Ela não pensou muito e aceitou na hora.
Na verdade, fazer fotos sensuais com a pessoa que amava não lhe parecia errado. Ela até achava aquilo doce.
Mas, se algo assim fosse exposto diante de todos, se fosse exibido publicamente, para uma mulher aquilo seria uma tortura.
Vitor tinha usado a confiança dela. Enquanto ela estava cheia de alegria, ele planejava como destruí-la.
Quanto mais Marina pensava, mais o coração esfriava.
Quem tinha feito aquele ensaio era uma fotógrafa muito requisitada no meio. Marina se lembrava de ter salvado o número dela.
Procurou por um tempo. Quando realmente encontrou o contato, seus dedos tremiam, mas ainda assim ela ligou.
A ligação foi atendida depressa. Marina se esforçou para soar natural.
— Jade, o ensaio meu e do Vitor já ficou pronto?
— Srta. Marina, né? O ensaio de vocês está quase pronto. Deve levar mais ou menos uma semana. Eu ia entrar em contato com o Sr. Vitor nesses dias. — Jade respondeu com simpatia.
— Jade, quando ficar pronto, você pode falar direto comigo? E pode não contar ao Vitor por enquanto? Quero fazer uma surpresa para ele. — Marina se esforçou para soar feliz, com um pouco de vergonha.
Do outro lado, a fotógrafa não desconfiou e aceitou na hora.
— Assim que ficar pronto, eu aviso você.
Marina agradeceu rapidamente.
Mas, no instante em que desligou, sentiu como se um pedaço do peito tivesse ficado vazio.
"Vitor, não importa o motivo, não importa que justificativa você tenha, eu não vou deixar você me usar para machucar meus pais."
Em uma semana ela conseguiria pegar tudo. Ainda bem que dava tempo.
Depois que pegasse o ensaio e visse Jade apagar os arquivos originais, não teria mais essa preocupação.
Claro, ela prepararia outro conjunto de fotos para Vitor.
Na festa de noivado, daqui a dez dias, esperava que Vitor gostasse daquelas fotos.
Marina pensava nisso quando o celular tocou de repente.
Ao ver quem ligava, uma ponta de inquietação passou por ela.