Capítulo 2
Quando chegamos em casa, já passava da uma da manhã.

Valentina estava de pé na entrada, e o seu rosto exibia uma palidez assustadora.

— Camila, será que eu estou atrapalhando vocês?

Antes mesmo que eu pudesse responder, Felipe a amparou até a sala de estar.

— Você vai dormir aqui hoje.

Levantei a cabeça para encará-lo.

— Esta é a nossa casa.

— Eu sei.

O tom dele soou calmo, como se fosse algo completamente natural.

— A febre dela não baixou, então não é seguro que ela volte sozinha no meio da noite.

Valentina me olhou com os olhos vermelhos.

— Talvez eu devesse dormir no sofá para não deixar a Camila chateada.

Felipe franziu a testa.

— Você está ardendo em febre, como vai dormir no sofá?

Após dizer isso, ele caminhou direto para o quarto.

Quando ele voltou, segurava a minha camisola branca e o cobertor fino que eu usava há muito tempo.

No inverno passado, eu sofria com pés e mãos gelados. Foi ele quem comprou aquele cobertor especialmente para mim.

Ele dizia que eu chutava as cobertas à noite, e que abraçá-lo me deixaria mais aquecida.

Agora, ele estava entregando o meu cobertor nos braços de Valentina.

— Aguente firme só por esta noite.

Estiquei o braço para impedi-lo.

— Esse cobertor não.

Felipe me encarou, e havia um traço de impaciência em seus olhos.

— Ela está com uma febre alta, e você quer fazer escândalo por causa de um cobertor?

— Eu não estou fazendo escândalo.

— Então o que é isso?

Ele abaixou a voz.

— Camila, a noite de hoje já foi cansativa demais. Não me obrigue a brigar com você.

Valentina abraçou o cobertor, e as lágrimas escorreram pelo seu rosto.

— Felipe, não seja rude com ela. Eu sei que a Camila é muito apegada às próprias coisas.

Quanto mais sensata ela parecia, mais eu assumia o papel da megera que se recusava a ceder.

Felipe ficou em silêncio por alguns segundos e empurrou o cobertor de volta para os braços dela.

— Vá tomar banho.

Valentina acenou com a cabeça. Ao passar por mim, disse em voz baixa:

— Camila, obrigada.

Eu não respondi.

Felipe encheu a banheira com água quente para ela e pegou um adesivo antitérmico na caixa de remédios.

Enquanto procurava os remédios, ele tirou uma caixa de comprimidos para o estômago e colocou sobre a mesa de centro.

— Você não comeu nada à noite. Tome dois comprimidos daqui a pouco para evitar que o estômago doa de novo.

Fixei o olhar naquela caixa de remédios.

Era até engraçado.

Ele sabia muito bem que eu sentiria dor.

A questão era que a minha dor sempre vinha depois das necessidades de Valentina.

Valentina saiu do banho vestindo a minha camisola.

— Camila, essa roupa é tão cheirosa.

Ela abriu um sorriso bem contido.

— Você ainda usa o sabão em pó com o cheiro de que o Felipe gosta, não é?

Felipe estava servindo água para ela. Ao ouvir aquilo, comentou com naturalidade:

— Ela já usa isso há quatro anos, acabou virando hábito.

De repente, eu perguntei:

— E como você sabe que a Valentina também prefere o café com aquele nível de doçura?

A sala inteira ficou em silêncio.

Os dedos de Valentina ficaram visivelmente tensos.

Felipe ergueu os olhos para mim.

— Como é?

— Não é nada.

Empurrei a caixa de remédios de volta.

— Eu só acho que a sua memória está excelente.

Ele percebeu a minha provocação, e a sua expressão se fechou na mesma hora.

— Você já foi irônica lá no parque. Vai continuar com isso agora?

Valentina colocou o copo de água na mesa depressa.

— Por favor, não briguem. A culpa é toda minha, eu não devia ter vestido essa roupa, nem devia ter tomado aquele café.

Enquanto falava, ela tentou tirar a camisola.

Felipe segurou o ombro dela com firmeza.

— Você está com febre, não complique as coisas.

Depois, ele olhou para mim.

— Camila, afinal, o que você quer que eu faça?

Eu já tinha escutado essa frase várias vezes.

O atraso, a quebra de promessas e o fato de me largar para buscar Valentina.

Sempre que ele fazia essa pergunta, a impressão era de que eu havia me tornado a grande culpada.

Baixei os olhos, e a minha voz soou muito baixa.

— Eu só queria que você se lembrasse de que hoje é o nosso aniversário de quatro anos.

Felipe pareceu desconcertado.

O olhar dele recaiu subitamente sobre a mesa de centro.

O bolo de aniversário, que estava atrasado em dois meses, continuava ali. A borda da caixa mostrava as marcas de quando eu a tinha amassado.

Após um longo silêncio, ele se aproximou e se abaixou na minha frente.

— A culpa foi minha.

Ele segurou as minhas mãos, e sua voz adotou um tom suave.

— A nossa triagem para a certidão de casamento não está marcada para amanhã? Eu vou acompanhar você. Às nove e meia, eu com certeza estarei lá.

Fiquei apenas observando-o.

Bastou que ele tentasse me agradar com um pouco de sinceridade para que, de maneira tola, eu quase acreditasse nele outra vez.

Entretanto, naquele mesmo momento, Valentina soltou uma tosse fraca no sofá.

Felipe virou o rosto na hora.

— Já tomou o remédio?

Ela balançou a cabeça.

— É muito amargo.

Ele se levantou e foi até a cozinha buscar mel.

Enquanto isso, as minhas palmas ainda guardavam o calor das mãos dele.

A tela do celular acendeu, e o aplicativo de passagens exibiu um alerta.

[A sua passagem só de ida para a Capital tem embarque marcado para daqui a três dias.]

A tela brilhou e logo voltou a escurecer.

Por fim, aquele bilhete rumo à Capital permaneceu guardado na minha lista de pedidos.

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