De madrugada.
Arthur ainda estava diante da janela do quarto, com um anel de diamante um pouco velho na mão.
Era o anel com que ele tinha pedido Sara em casamento naquela época. Naquele tempo, faltou só um pouco.
Só mais um pouco, e eles teriam se casado.
Agora, ele ficou olhando em silêncio para aquele anel por muito, muito tempo.
No fim, fechou os olhos e atirou o anel para longe.
O anel sumiu num instante na noite silenciosa.
Alguns dias depois.
Sara tinha acabado de voltar do hospital, depois de fazer exames, e viu um carro lá embaixo.
Arthur estava encostado ao lado do carro, como se estivesse esperando por ela.
Como na época da faculdade, quando ele esperava embaixo do dormitório dela.
Sara escondeu os remédios que tinha trazido e caminhou até ele.
— Você está me procurando?
Arthur levantou os olhos pra ela e, de repente, percebeu que Sara parecia ter emagrecido muito, e o rosto dela também estava bem pálido.
O pomo de Adão dele se moveu, mas ele não perguntou nada.
Só tirou do bolso um convite.
Sara abaixou a cabeça e, quando viu aquele convite, o sangue do corpo inteiro pareceu congelar.
Ela ficou muito tempo sem se mexer, até ouvir a voz de Arthur acima dela.
— Eu e a Elisa vamos nos casar. Só vim te avisar. Não vem. E não me diz parabéns.
Uma dor surda apertou por dentro.
Então ele já a odiava a ponto de nunca mais querer vê-la?
Ela tremia ao pegar o convite, e no fim não teve coragem de levantar a cabeça pra ele ver a expressão dela.
Só ficou em silêncio e assentiu.
— Te desejo felicidade.
O casamento de Arthur e Elisa seria dali a uma semana.
Sara entregou a carta de demissão na empresa, e logo aprovaram.
Arthur ia se casar, e também não queria mais ver ela.
Ela já não tinha mais motivo para continuar viva e pagar pelo que fez.
Três dias antes do casamento dele.
Sara conferiu os bens que tinha juntado nesses anos.
Nesses anos no Grupo Figueiredo, na verdade ela tinha conseguido guardar bastante dinheiro.
Ela vendeu a casa e doou o dinheiro todo pro Projeto Esperança.
Dois dias antes do casamento dele.
Sara foi ao cemitério.
Ela comprou o lugar ao lado de Isabela.
E ainda avisou o pessoal de lá.
— Quando chegar a hora, não escrevam nome nenhum na minha lápide.
De qualquer forma, ninguém ia levar flores pra ela.
Assim, quando a família Figueiredo visse no futuro, não ia saber que era ela, e não ia ficar com raiva.
Um dia antes do casamento dele.
Sara começou a deixar tudo acertado para depois.
Ela chamou o pessoal do centro de reciclagem e mandou levar tudo o que era dela pra fora.
No fim, dentro da casa vazia, sobrou só uma caixa grande de papelão.
Lá dentro tinha as carteirinhas de estudante dela e de Arthur do ensino médio, o ingresso do filme do primeiro encontro, as fotos dos dois, o colar que ele tinha dado pra ela, as cartas que eles tinham escrito um pro outro...
Sara acendeu o braseiro.
Essas coisas cheias de lembrança, essas coisas que ela tinha revirado tantas vezes de madrugada, viraram cinza.
Ela ficou sentada naquela casa vazia até o dia seguinte, quando o sol começou a subir.
Hoje era o dia do casamento de Arthur.
Ela se levantou cambaleando e, de repente, viu uma mancha vermelha no chão.
Ela tocou o rosto e só então percebeu que estava sangrando.
Mas Sara não ligou. Saiu andando, fraca.
Hoje era um dia raro de céu limpo.
Mesmo assim, Sara tremia inteira, e caminhava enquanto sangrava.
Alguns pedestres olharam, assustados, mas ela não parou nem por um segundo.
No fim, parou numa ponte.
Lá embaixo, a água do rio era funda demais pra ver o fundo.
Devia estar gelada até doer.
Sara se sentou na beira da ponte e ligou pro hospital.
— Oi. Hoje eu vou morrer. Por favor, recolham meu corpo e façam a doação de órgãos imediatamente.
Depois de desligar, ela encarou o rio, entorpecida.
O rosto estava cheio de sangue, mas ela puxou o canto da boca num sorriso.
Finalmente ia acabar.
Sara só sentia alívio.
Hoje ele ia estar recém-casado, e ela ia dormir no fundo do rio.
Era o melhor desfecho que ela conseguia imaginar.
Sara sorriu, fechou os olhos e se jogou, sem volta.
Nunca mais, Arthur.
...
Meia hora depois, no local da cerimônia.
Arthur, de terno, estava no palco, olhando Elisa, de vestido de noiva, caminhar devagar até ele.
A mente dele vagava longe, mas a cabeça inteira estava cheia da voz de Sara.
— Sara, que tipo de casamento você quer?
— O casamento que eu quero é bem simples. Eu quero num gramado bem grande, com muitos balões coloridos pendurados, só nossos melhores amigos, e a Isabela sendo minha madrinha.
— Um casamento da família Figueiredo não tem como ser simples.
— Arthur, quem disse que eu vou me casar com você?
Naquela época, nenhum dos dois imaginava que, no fim, ela realmente não ia poder se casar com ele.
O rosto de Sara enchia os olhos dele, e ele foi seguindo o ritual, no automático.
Até que, quando os dois estavam prestes a trocar as alianças, o assistente se aproximou, desesperado.
— Sr. Arthur, seu celular não para de tocar.
Arthur franziu a testa.
— Você nem olha que lugar é esse?
O assistente também ficou sem jeito.
— Mas tocou por muito tempo. Deve ser alguma urgência.
Então ele pegou o celular mesmo assim.
Era um número desconhecido. Ele deslizou e atendeu.
Do outro lado veio um grito, duro.
Era a voz de Luís.
O rosto de Arthur ficou frio na hora.
— Luís, é melhor você ter um motivo.
Do outro lado, só saiu uma frase.
Mas o rosto de Arthur ficou branco num instante.
Com um estrondo, o celular caiu no chão.
No segundo seguinte, todo mundo viu o noivo sair correndo como um louco.
Elisa chamava ele no palco, sem parar.
Mas Arthur parecia não ouvir nada. A cabeça inteira dele era só a frase do telefone.
— Arthur, a Sara morreu. Ela se jogou no rio e morreu!