Sara ficou muito tempo no cemitério. Quando ia embora, viu um grupo vindo na direção dela, e os passos travaram na hora.
No meio daquelas pessoas, Arthur também viu ela de primeira.
Era a primeira vez que os dois se encontravam depois do acidente.
Ele viu as flores diante do túmulo de Isabela, e o olhar dele escureceu de repente.
No instante seguinte, Dona Teresa viu Sara e foi pra cima dela, tomada de emoção, puxando ela com força.
Dona Teresa deu um tapa nela, furiosa:
— Quem deixou você vir? Some daqui. Some!
Sara ficou tonta com o tapa e deu um passo pra trás, sem se aguentar.
— Dona Teresa, eu só vim ver...
— Cala a boca! — Dona Teresa gritou. — Você não tem o direito de vir ver ela. A Isabela morreu por sua causa. Some daqui!
O lado esquerdo do rosto de Sara inchou rápido. Ela aguentou a dor e não ousou dizer mais nada.
Sr. António correu pra segurar Dona Teresa, que estava fora de si.
— Sara! Vai embora, não vem mais!
Só que, pra Dona Teresa, ainda não bastava. Ela viu as flores no chão, se soltou do Sr. António, pegou o buquê e começou a jogar em Sara, um atrás do outro. Ela chorava de um jeito que parecia que ia desabar.
— Não precisa bancar a boazinha e fingir que veio ver ela. Se naquele dia você não tivesse corrido, se naquele dia você tivesse ficado pra ajudar, como é que a minha filha teria morrido daquele jeito? Cinco bêbados. Você deixou a minha filha sozinha, e ela foi violentada por cinco bêbados. Quando a minha filha morreu, a parte de baixo...
Dona Teresa odiava Sara.
Todo mundo sabia que, mesmo se Sara não tivesse corrido, o resultado teria sido as duas se ferirem.
Mas Isabela tinha morrido de um jeito terrível demais. E o ódio cegava tudo.
Eles odiavam Sara por não ter deixado Isabela correr primeiro.
Eles fizeram aqueles bêbados apodrecerem na prisão, sem sair nunca mais. E Sara também tinha que apodrecer na culpa, sem sair nunca mais.
Dona Teresa batia nela enquanto chorava, sem poupar a mão:
— Minha Isabela, ela era tão novinha, tão boa. Por que você correu? Por que você deixou ela sozinha lá...
No fim, ela empurrou Sara, chorando:
— Por que foi a Isabela que morreu, e você ainda não morreu?
Sara cambaleou com o empurrão. A cabeça bateu numa outra lápide, e a testa abriu, cheia de sangue.
Os dedos de Arthur se fecharam de repente. Quando Sara conseguiu se levantar, tropeçando, ele agarrou o pulso dela com força.
— Mãe, não faz isso na frente da Isabela. Eu vou mandar ela embora agora.
Depois de dizer isso, ele a arrastou pra fora.
Do lado de fora do cemitério, Arthur empurrou ela e jogou ela pro lado com brutalidade.
Os olhos dele estavam negros. Ele falou entre os dentes:
— Você quer morrer? Eu te avisei, nunca mais pisa aqui.
Nos olhos dele tinha raiva, e parecia ter mais alguma coisa.
Sara abriu a boca, amarga:
— Eu queria ver a Isabela...
Arthur falou, sombrio:
— Você não tem esse direito.
Ele virou e entrou no cemitério. Mandou os seguranças expulsarem ela.
A frase "Você não tem esse direito" entrou no peito dela como uma faca.
Sara foi embora, cambaleando, com o rosto molhado de lágrimas, andando pela rua.
E no ouvido dela, veio a voz clara de Isabela.
— Sara, essa pulseira é uma pra você e uma pra mim. A gente vai ser melhores amigas pra vida inteira, não pensa em me largar.
— Sara, ontem eu vi meu irmão escolhendo um anel. Ele vai pedir você em casamento.
— Depois que ele te prender, vai ser ainda mais difícil te tirar pra sair. Hoje à noite a gente vai ver um filme, vai?
— Sara, corre! Corre!
...
As lágrimas já tinham tomado o rosto de Sara.
"Isabela, você sabe o quanto eu me arrependo de não ter ficado na sua frente naquele dia, de não ter deixado você ir?"
"Se quem tivesse morrido fosse eu, não ia ter tanta gente sofrendo."
Quem não tem pai nem mãe, morre e acabou.
Se ela tivesse morrido naquele instante, talvez Arthur tivesse amado ela pra sempre.
E eles não teriam chegado nesse ponto.
Quanto mais Sara pensava, mais doía.
No fim, ela não aguentou. A emoção estourou como uma enchente, e ela agachou no chão e começou a chorar, sem som, sem conseguir parar.