Antes de começar...
Este livro é a continuação direta de No Complexo do Alemão.
Mas Para compreender completamente os acontecimentos, os personagens e os segredos que serão revelados nesta história, não é necessário a leitura do primeiro livro!
Algumas guerras terminam. Outras apenas mudam de endereço.
O silêncio sempre foi seu maior aliado.
Enquanto outras crianças aprendiam a andar de bicicleta ou brincavam até o anoitecer, Lygia aprendia a desmontar uma pistola, controlar a respiração e nunca demonstrar medo.
Ela não teve infância.
Teve treinamento.
Todos os dias eram iguais. Acordava antes do sol nascer, treinava o corpo até a exaustão e, quando o físico já não aguentava mais, começava o treinamento mental.
Porque, segundo o homem que a criou, uma arma sem controle emocional era inútil.
— Sentimentos matam.
Essa era a frase que ela mais ouviu durante toda a vida.
Aos vinte anos, Lygia era exatamente o que ele desejava construir.
Fria.
Calculista.
Paciente.
Linda... perigosamente linda.
Os longos cabelos negros caíam sobre os ombros como uma cascata escura, contrastando com seus olhos claros, quase hipnotizantes.
Seu rosto delicado fazia qualquer pessoa acreditar que ela era apenas mais uma jovem comum.
Era justamente isso que a tornava tão perigosa.
Ninguém imaginava que por trás daquele sorriso discreto existia alguém treinada para matar.
Ela caminhou até a varanda da casa onde morava havia dez anos.
O lugar ficava longe do Rio de Janeiro.
Longe dos morros.
Longe das lembranças.
Ou, pelo menos, era isso que tentavam fazê-la acreditar.
Respirou fundo enquanto observava o nascer do sol.
Sabia que aquele seria o último amanhecer antes de sua vida mudar completamente.
Atrás dela, passos firmes quebraram o silêncio.
Ela não precisou se virar.
Reconheceria aqueles passos em qualquer lugar do mundo.
— Está pronta?
A voz grave ecoou pela casa.
Lygia permaneceu olhando o horizonte.
— Estou.
— Tem certeza?
Ela sorriu de lado.
— Esperei por esse momento durante dez anos.
O homem caminhou até ficar ao lado dela.
— Então chegou a hora de voltar.
Ela finalmente virou o rosto.
— Para onde?
Ele a encarou por alguns segundos antes de responder.
— Rio de Janeiro.
O nome da cidade fez algo estranho atravessar seu peito.
Uma sensação que ela não sabia explicar.
Como se uma parte dela conhecesse aquele lugar... mesmo sem se lembrar dele.
Ela ignorou o sentimento.
Fraqueza.
Era assim que havia sido ensinada a chamar qualquer emoção.
— Seu primeiro destino será o Complexo da Misericórdia.
Ela permaneceu em silêncio.
— Lá existe um homem.
Lygia cruzou os braços.
— TH. - Lygia murmurou.
O nome saiu de seus lábios pela primeira vez.
Ela o conhecia apenas por fotografias, relatórios e histórias.
Sabia sua rotina.
Sabia seus horários.
Sabia seus aliados.
Sabia exatamente como se aproximar dele.
Tudo havia sido planejado durante anos.
Nada poderia dar errado.
— Você não pode falhar — disse o homem.
— Não vou.
Ele colocou um envelope sobre a mesa.
Dentro dele havia uma fotografia.
Lygia pegou a imagem.
Seus olhos permaneceram fixos no rosto do homem retratado.
Ela não sorriu.
Não demonstrou raiva.
Não demonstrou absolutamente nada.
Apenas guardou a fotografia.
Porque era assim que havia aprendido.
Nunca deixar que o inimigo descobrisse o que se passa dentro da sua cabeça.
Sem dizer mais nenhuma palavra, ela entrou no quarto.
Abriu o guarda-roupa.
Pegou uma pequena mala.
Levava poucas roupas.
O suficiente para cumprir sua missão.
Quando fechou o zíper, olhou uma última vez para o lugar onde passou os últimos dez anos.
Não sentia saudades.
Não sentia medo.
Não sentia culpa.
Só existia uma certeza.
O passado estava esperando por ela.
E, sem saber, o Complexo da Misericórdia estava prestes a receber a mulher que mudaria o destino de todos.