Mundo de ficçãoIniciar sessãoAcerto de Contas
Autora: Edivania Rios História ambientada entre 1990 e 1998 Protagonistas: Karina e Gabriel Todos os direitos autorais reservados à autora citada acima. Qualquer uso parcial ou total sem autorização será considerado crime virtual e/ou de violação aos direitos autorais. LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998. Capítulo 2 Gabriel narrando… Peguei a gilete e a loção de barbear, e comecei a fazer a barba devagar. Estou muito cansado, cheguei em casa arrebentado depois de um dia inteiro de serviço. Meus vinte e oito anos pesam no corpo, e a minha mente também não ajuda a descansar. Clarisse resolveu ir se juntar ao grupo de antigamente. Eu não quero me envolver com aquele povo — só eu sei como é o ego de cada um quando se sente ameaçado, senti isso na pele a vida inteira. Sempre consegui me sustentar com a força dos meus braços, agora não será diferente. Sou trabalhador, faço de tudo um pouco, e para isso Deus me abençoou. Acho que o maior motivo de eu não querer estar lá na casa é o tal Luan e a patricinha, a mãe do meu filho — esses dois não são fáceis de lidar. Fui morar com aquele grupo de adolescentes na época porque Luan dizia ser meu amigo, me chamou e disse que o lugar era barato e seguro. Até levei a minha namorada para lá. Chegando ali conheci a Karina — e a Clarisse já ficava cismada com ela, por estar sempre bem arrumada, cheia de roupas caras e bonita demais para o nosso meio. Nada me interessava ali, ainda mais sabendo que o Luan era louco por ela e o tal Paulo morria de vontade de ficar com ela. Acho que a armadilha para eu ter ficado com ela veio mesmo do Paulo — ou era ele quem queria ficar com ela, ou queria me colocar na arapuca. A primeira opção faz mais sentido: afinal, o que ele ganhava vendo outro tirar a virgindade que ele sempre desejou? Às vezes eu não entendia por que uma riquinha queria ficar no meio de um monte de pobre. Metidinha, nunca gostou de mim — e depois foi eu que passei a não gostar dela. Quando ela apanhava na escola, o avô dela fazia as vítimas correrem e nunca deixava que ninguém a punisse. Eu ficava pensando: por que será que ela era tão odiada, e não admirada, por ter dinheiro? Na época sempre quis ficar longe dela, e agora não será diferente. No dia seguinte… Que falta me faz a Clarisse, meu Deus! Mas logo lembro: o meu filho deve estar lá… o meu filho! Sorri sozinho, só de pensar nele. Quando a Karina engravidou, eu não fiquei feliz nem um pouco. Primeiro pensei que o meu namoro com a Clarisse ia acabar de vez. Fiquei morando com ela e com os outros durante toda a gravidez — não foi nada fácil. Depois, ter que conviver tão perto da patricinha não tinha motivos bons… mas eu não podia negar: gostava de ver a barriga dela crescer, aquilo me dava sensações únicas, que eu não sabia explicar. Depois que o menino nasceu, fizemos um acordo bem claro: sexta, sábado e domingo o menino é meu, o resto da semana fica com ela. Meu menino é lindo, forte, e valeu a pena tudo o que passei para tê-lo comigo. A Clarisse não vê o menino com bons olhos, porque sofre muito com a lembrança — diz que toda vez que o vê, relembra aquela noite horrível. Por isso nunca mais voltei naquela cidade onde tudo aconteceu. Mas ela teve que entender que eu não fui o culpado daquilo — ela também foi drogada, tanto que nem lembra direito o que aconteceu entre nós. O telefone fixo tocou, cortando meus pensamentos. — Alô? — Gabriel? Sou eu. Já estou aqui em Salvador, já me instalei na casa. — Hum, está bem. Pode ficar à vontade. Diga para o meu filho que mandei um beijo bem forte nele. — Estou sentindo muita sua falta… e o seu filho está aqui perguntando por você toda hora. Um chato que não para. — Clarisse, não fale assim do Allan. Ele é meu filho, e não merece esse tratamento. — Está bem, está bem… o seu menino bom está perguntando por você a cada cinco minutos. Eu entendi a ironia na voz dela, mas não dei confiança. O meu serviço é braçal, suado: sou pedreiro, eletricista, carpinteiro — faço de tudo um pouco, e não tenho vergonha de nada do que faço. Mais tarde, à tarde… Chegando em casa depois de um dia de trabalho pesado, vejo uma carta na porta, me intimando a comparecer na residência onde os quatro já estão hospedados. Mas quem iria fazer eu ir até lá? A noite que passei com a Karina eu jamais quis ter vivido… mas a verdade é que lembro de cada detalhe. Naquele momento pareceu maravilhoso, como se tudo tivesse sido perfeito. Mas a gente sabe: qualquer coisa ruim parece boa no começo, se você insistir acaba destruindo a gente — e aquela noite foi exatamente assim. O telefone tocou de novo. — Alô? — Vem depressa, meu amor! Alguém está tentando me assustar, não estou me sentindo segura aqui. — Não acredito que terei que ir… volta para casa, Clarisse. Aqui é o seu lugar, comigo. — Não posso, amor. Isso é o nosso futuro, não posso deixar tudo de lado. — Então está bem. Estou indo. Chegando na residência… Faz oito anos que não vejo nenhum deles, e o coração já está disparado no peito. Já é meia-noite, parei na lanchonete no caminho para comer algo rápido, e agora estou chegando naquela casa. Cada um de nós ganhou uma chave, como se já fôssemos donos do lugar. Abri a porta devagar e entrei: só havia uma luz acessa bem no fundo, o resto estava tudo escuro. Eu puxava a minha mala quando esbarrei em alguém — é uma mulher, pequena, corpo magro. Será que é a Clarisse? — Oi? Quem é você? É você, Clarisse? — Sou a Karina. E você? É o Luan? Eu tinha segurado ela pela cintura sem querer, e fui soltando devagar, sentindo cada curva do corpo dela. — Acende a luz, Karina. Sou eu… o seu pior pesadelo. — O quê? Você veio? Deus nos livre de você! — Ela acendeu a luz, e ali estava ela: mais linda do que eu lembrava. Tive que me segurar com todas as forças para não brigar com ela, já que me recebeu com tanta raiva. Vou tratá-la com indiferença, é isso — esse tem que ser o meu caminho daqui para frente. Concentra, Gabriel. — Gabriel, o cara mais sacana que eu conheço — disse ela, com a voz firme e cheia de ódio. — Você não é bem-vindo na minha vida, nem na dos meus amigos. — Tenho certeza que foi uma surpresa muito agradável me ver, Karina — respondi com um sorriso sarcástico, tentando esconder o quanto ela ainda mexe comigo. Afastei alguns centímetros dela. Ela fechou os olhos por um instante, talvez para ganhar tempo e se recompor. Cruzou os braços sobre o peito, como se quisesse se proteger de mim. — Por favor, entre e sente-se — indicou o sofá com a mão. — Não lembrava de você ser tão formal assim, e tão gente boa de repente — sentei no sofá, sem tirar os olhos dela. Ela ignorou o meu comentário como se não tivesse ouvido. — Presumo que veio encarar o seu passado negro, que destruiu o seu presente. Assenti com a cabeça. — Vou passar quatro anos morando junto com os meus inimigos, e cada um vai mostrar o que realmente é. Não sou de me envolver muito com ninguém. Acho que muita gente queria ser como eu — mas quando eu amo, amo pra valer, sem medir as consequências. — E você está disposta a encarar o seu passado também? E por que está acordada a essa hora da noite? Ela balançou a cabeça, com aquele ar de superioridade que sempre teve. — Eu só ia beber água, está bem? Não precisa ficar imaginando coisas. — Acho que já tive uma boa ideia de como você é quando moramos juntos. Não vai mudar agora. — É mesmo? — Ela olhou para o chão, por um segundo pareceu insegura. — Então por que ficou comigo naquela noite? — perguntou ela, depois de oito anos, como se houvesse uma explicação que pudesse apagar tudo. Recostei-me no sofá, respirei fundo antes de responder. Ela me fitou firme, querendo mostrar que não se intimidava. — Não sou homem de coisas passageiras, você sabe muito bem disso, Karina. Tenho certeza absoluta que aquilo foi armado por vocês. Poxa, eu tinha namorada! Não foi nada pessoal, eu não queria aquilo. E você não é boba, percebeu tudo. Aquela noite deve doer até hoje… mas se te consola: eu não faria de novo. Sinto muito que tenha sido comigo que você perdeu a sua virgindade. — Vai pra merda! Se acha o dono do mundo! Não me importo nem um pouco que tenha sido com um homem tão sem valor como você. Não gosto de você, isso está mais do que claro: somos inimigos. Está no olhar, na pele, no coração e também na classe! — Gritou, fora de si. — Você e a sua turma nunca mais vão poder me machucar. Agora eu estou forte, e não tente usar os seus truques comigo, Karina. — Fala com as mãos! — Fez o sinal com os dedos, desdenhando. — Não sou louca, não vou fazer nada que me coloque na cadeia. — Mas Karina… não vamos mentir: aquela noite foi fabulosa! — Pisquei para ela, só para ver se conseguia desestabilizar aquela raiva toda. — O quê? — Ela ficou sem reação por um instante, e eu vi que tinha conseguido. Apertou o estofado do sofá com força, tentando parecer tranquila, mas eu sabia que aquelas palavras mexeram com ela. — Talvez eu deva lembrar melhor como você gemia de prazer… — Não é preciso! Mesmo que eu lembre de cada detalhe, não precisa ficar me lembrando. O que eu não esqueço é o dia seguinte: a sua namorada viu tudo, e você, como um canalha, fingiu que não tinha acontecido nada. Coitada da sua namorada, que acredita em você até hoje! — E o seu amadinho também viu tudo. E aquela noite deixou uma consequência que ninguém pode negar: o nosso filho! — O Luan nunca foi nada meu, então ele não tinha motivo nenhum para sofrer — respondeu firme, sem hesitar. — Só espero que aquela noite não tenha deixado feridas emocionais, carência ou desilusão. Mulher é muito emotiva e sensível… — Ah, você nunca foi nada para mim! Então não teve carência, nem desilusão, nem nada. Foi só a minha virgindade perdida, uma coisa como outra qualquer — e para mim, dinheiro resolve tudo o que acontece. — Desapontada? Você fala isso agora, mas eu não acredito nem um pouco. — Nunca estive! Agora você deve ter se divertido muito tirando a minha virgindade, deve ter sonhado com isso várias vezes, seu safado… só a sua namorada que cai no seu papo de bom moço. — Olha, vamos parar com isso. Vou dormir porque estou morto de cansaço. Boa noite. — Ah, é verdade… você é o tipo de homem que não tem futuro nenhum. — Estou feliz com tudo o que conquistei com o meu trabalho. Mas isso não quer dizer que não saiba reconhecer uma mulher bonita como você — mesmo que você ache que o dinheiro compra tudo e todos. Nesse momento a Clarisse apareceu na porta. — Amor? O que você está fazendo aqui? — Cheguei agora mesmo. — Eu só estava bebendo água — explicou a Karina, parecendo até com medo de que a Clarisse pensasse alguma coisa errada. A Karina saiu depressa e me deixou ali com ela. — Ela te tratou mal? — Não, não aconteceu nada. Cheguei agora. Vamos dormir, estou muito cansado. Quando o dia amanheceu… A Karina e o meu filho ainda não estavam na mesa do café, mas o Luan e o Paulo, quando me viram aparecer, levaram um susto tão grande que quase derrubaram as xícaras. — O que você está fazendo aqui? — perguntou o Luan, com a cara fechada. — Assinamos um contrato, vocês não se lembram? Agora eu moro aqui também. Essa casa não é privilégio só de vocês. — Papai! Papai! — Ouvi a voz do meu filho, e em seguida ele apareceu ali, lindo e sorrindo. — O que foi, filhote? Não chora não — Ele correu e pulou no meu colo, começando a chorar de alegria. — O senhor está aqui mesmo? Vai ficar comigo e com a mamãe para sempre? — Filho… eu não vou ficar com a sua mãe. Eu tenho namorada, e nós vamos morar juntos. Ele me olhou com aqueles olhos grandes, como se já soubesse tudo o que eu ia dizer. Todos na sala ficaram calados, só ele falando sem parar. — Clarisse, eu vou ter que sair agora. Você vem comigo? — Claro que vou, amor. — Papai, você vai me levar com você? — O filho é coisa de casal — disse a Karina, aparecendo ali de repente. — Não é não, Karina. O filho é meu também, e o Allan vai comigo agora. Olhei firme para ela — aquela mulher quer mesmo me desafiar a cada segundo, essa venenosa que não perde uma oportunidade de brigar.






