####CAPÍTULO 03

DONOVAN

O zumbido metálico e silencioso do elevador privativo é o único som no espaço confinado.

As portas espelhadas de aço escovado refletem uma imagem de poder e controle, mas por dentro, a realidade é muito mais suja.

— Mais tarde eu passo no seu apartamento.

As palavras saem da minha boca quase no automático, um vício do qual eu não consigo — e talvez não queira — me curar.

Vanessa, encostada elegantemente na parede do elevador, vira o rosto na minha direção. Um sorriso lento, malicioso e absurdamente provocador desenha-se em seus lábios pintados. Vanessa sabe exatamente o efeito que causa em mim. Ela tem plena consciência de que, não importa o quanto eu tente racionalizar a situação, basta um olhar para que as minhas defesas desmoronem.

Ela ajeita o vinco imaginário do meu paletó de lã fria, os dedos de unhas vermelhas roçando levemente sobre o meu peito. O cheiro do perfume dela — doce, caro e inconfundível — inunda o oxigênio restrito da cabine.

— Seu tio está viajando até sexta-feira a negócios em Frankfurt… temos tempo, querido. Muito tempo.

Passo a mão pelo rosto, sentindo os músculos da minha mandíbula tensos. Um incômodo áspero sobe pela minha garganta.

— Você fala como se isso fosse normal, como se fosse um jogo sem consequências.

Ela ri. É uma risada baixa, rouca e carregada de um deboche letal.

— E não é? Afinal, é o nosso joguinho particular, Donovan.

O peso da realidade sempre tenta me esmagar quando ouço o nome dele. Damien. Meu tio. O patriarca da família, o homem que me ajudou a erguer a Stuart Corporation, o homem que confia em mim de olhos fechados. Se o Damien descobrir o que acontece entre mim e a esposa dele nos quartos de hotel, nas garagens escuras e nos apartamentos vazios… acabou. Tudo desmorona. Ele nunca vai me perdoar. O escândalo não apenas destruiria a família, mas implodiria o valor das ações da empresa em questão de horas.

Mas que culpa eu tenho?

Eu tento me convencer de que sou a vítima da minha própria biologia.

Desde a primeira vez que vi Vanessa ao lado dele, há exatos dois anos, naquele evento de gala beneficente… aquele vestido de seda vermelho colado ao corpo, aquele olhar felino que cruzou o salão e encontrou o meu… eu já sabia que aquilo ia dar terrivelmente errado, pois Vanessa tinha acabado de se casar com meu tio.

Houve uma eletricidade doentia ali. Só não imaginei que eu ia perder o controle desse jeito. Quando a conheci, fazia três anos que tinha pego minha ex- noiva me traindo, e depois dessa traição, meu mundo virou um caos. Que eu fosse me tornar um fraco a esse ponto.

Ela é linda, deslumbrante, para ser exato, mais velha que eu exatamente sete anos. Uma predadora vestida de alta-costura.

E, acima de tudo, completamente sem limites.

Exatamente o tipo de mulher que eu não deveria querer de forma alguma. O tipo de mulher que destrói impérios e reduz homens racionais a pó.

Mas eu quero.

E muito, sinto uma sede insaciável, por adrenalina tóxica que me mantém viciado no perigo de sermos pegos a qualquer instante.

— A gente precisa parar com isso Vanessa , não é certo com meu tio— digo, o tom de voz grave ecoando nas paredes de metal, embora soe mais como um lembrete patético para mim mesmo do que uma ordem para ela.

Vanessa não recua. Pelo contrário. Ela se aproxima de um passo lento, felino, encostando a palma da mão quente contra a seda da minha gravata, bem em cima do meu coração acelerado. Os olhos dela, frios e calculistas, encontram os meus.

— Você não quer parar, Donovan. Você adora o fato de que eu sou proibida.

Fecho os olhos por uma fração de segundo, engolindo a bile e a verdade amarga.

Dois anos sendo um completo e idiota, arriscando o império dos Stewart por capricho, preciso de ajuda para sair dessa prisão.

O painel eletrônico acima da porta acende, indicando que estamos nos aproximando da cobertura.

— Depois a gente se fala — digo, me afastando bruscamente, quebrando o contato físico e a aura pesada de intimidade antes que as portas se abram e as câmeras do andar registrem qualquer coisa fora do normal.

Ela não insiste, apenas ajeita a saia com um sorriso vitorioso de canto de boca.

Nunca precisa insistir, ela tem o controle, e não consigo me libertar de Vanessa, e ela sabe, com certeza absoluta, que me domina, e que eu sempre volto. Sou um viciado, sempre procuro por mais.

Sempre.

O sinal sonoro apita, As portas se abrem para o silêncio luxuoso da presidência.

Saio do elevador tentando colocar a cabeça de volta no lugar, forçando a minha máscara corporativa a deslizar sobre o rosto. O Donovan amante desaparece; o senhor Stewart, CEO implacável, assume o controle.

Mas eu já estou irritado, a tensão com Vanessa deixou meus nervos à flor da pele, e o caos que me aguarda não ajuda.

Estou sem secretária executiva há quase uma semana, minha agenda deve estar uma bagunça inominável, e eu tenho uma reunião de conselho em cima da outra. O último incompetente que ocupou o cargo não aguentou três dias da minha pressão.

Caminho pelo corredor de mármore e viro a esquina da a antessala de recepção antes de minha sala.

E então, eu a vejo.

Há uma mulher em pé, do outro lado da enorme mesa em meia-lua de carvalho escuro.

Ela não é a bagunça que eu esperava encontrar, ao contrário de todas as probabilidades, ela é o oposto.

Morena, clara em um tom de pele que as mulheres buscam nas praias, mas o moreno dela é natural, deve ser mestiça.

Cabelos escuros e cheios, uma cascata de cachos naturais e bem cuidados que contrastam com a camisa branca engomada.

Um corpo inegavelmente curvilíneo, perfeitamente delineado pela saia social preta, de um jeito que atrai o olhar masculino imediatamente, não importa o quão profissional seja o ambiente.

Mas quando me aproximo, acompanhado pelos passos de Vanessa logo atrás de mim, a mulher levanta o rosto, e vejo sua beleza juvenil e os olhos de um verde jade lindo.

E aqueles olhos…

Ela me olha direto, sem desviar, com uma seriedade que me pega desprevenido. Não há deslumbramento bajulador que a maioria dos funcionários recém-contratados exibe em minha presença.

Ela se levanta imediatamente, alisando a lateral da saia, a postura ereta e alerta.

— Bom dia, senhor Stewart, sou a sua nova assistente executiva, Sofia Sinclair.

Eu paro, e a analiso por um segundo, os instintos de leitura corporal que uso em mesas de negociação ativados em capacidade máxima.

Postura boa, firme.

Voz clara e sem gaguejar.

Mas ela está nervosa. O jeito como os dedos dela repousam rígidos sobre a madeira da mesa e a respiração ligeiramente presa a entregam.

Dá para perceber o desespero oculto sob a fachada profissional. Ela precisa desesperadamente desse emprego. Isso é bom. Pessoas que precisam do salário são obedientes, focadas e raramente questionam as ordens.

O meu olhar se desvia dela por um milissegundo, varrendo a superfície da mesa executiva.

A pilha de papéis caóticos que eu havia deixado ontem à noite sumiu. Tudo está categorizado. Pastas alinhadas, cronograma impresso no centro, o caos desapareceu .

Finalmente alguém minimamente útil no departamento de recursos humanos, contratou uma secretária competente.

— Bom dia, Sofia.

Mantenho o tom frio, impenetrável. Ela mantém o olhar profissional, sustentando a minha autoridade, mas dá para ver o alívio minúsculo passar por suas feições quando não a demito no ato por respirar o mesmo ar que eu. Ela está se segurando para não demonstrar fraqueza.

— Você pode me trazer um café? — disparo a primeira ordem do dia, testando sua agilidade. — Três gotas de adoçante… e algumas torradas. Não tive tempo de tomar café.

— Sim, senhor. Já estou levando.

A resposta é automática, eficiente.

— E traga minha agenda.

— Pois não.

Eu dou as costas e entro no meu escritório. Fecho a pesada porta dupla de madeira, garantindo que o mundo lá fora fique exatamente onde deve ficar. Caminho a passos largos sobre o carpete até a parede de vidro que me oferece a visão de toda a cidade sob os meus pés.

Mas eu não sento na minha cadeira de couro.

Fico parado ali, as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria, a mente trabalhando a mil por hora, conectando os pontos.

Sofia Sinclair.

Bonita, inegavelmente atraente de uma forma terrena e acessível, nunca me envolvi com uma assistente, mas Sofia despertou algo em mim.

Discreta, o nervosismo dela indica que é alguém que evita ser o centro das atenções, que prefere ficar nos bastidores, garantindo que as engrenagens girem.

E, principalmente: uma mulher normal, sem os sobrenomes tradicionais, sem as amarras da alta sociedade.

Alguém que absolutamente ninguém no meu círculo de convivência, suspeitaria que tivesse qualquer segunda intenção além de receber um salário no final do mês.

Eu acabo de achar exatamente o que eu preciso, Depois de Ashley ela é a segunda, mulher que me chamou a atenção.

O plano se forma na minha cabeça com a clareza de um balanço financeiro positivo, vou conquistar Sofia.

Se eu começar a ser visto com frequência ao lado de uma assistente bonita, jovem e dedicada… se eu deixar escapar que talvez haja algo além de uma relação estritamente profissional entre nós… a atenção da mídia, dos fofoqueiros do clube de golfe e, acima de tudo, do tio Damien, será desviada, e me livrar de Vanessa é meu objetivo.

Ninguém vai olhar duas vezes para mim nem a Vanessa, se eu me envolver com Sofia, Vanessa perde

Uma distração perfeita. Um escudo de carne e osso, bonito e descartável, para blindar o meu segredo com a esposa do meu tio.

O bipe suave do telefone indica que ela está vindo com o café. Viro-me de volta para a sala, o sorriso de predador se fixando em minhas feições.

Agora só falta uma coisa para que esse plano funcione impecavelmente.

Conquistar a inocente Sofia Sinclair. Fazer com que ela me veja muito mais que seu patrão. E isso…

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