####CAPÍTULO 07

NOITE DE LEILÃO

SEBASTIAN

Conforme a noite avança implacavelmente, a mansão enche-se até o limite de convidados abastados.

— O elegante e requintado salão, decorado com lustres de cristal maciço que brilham suavemente, está repleto de homens ricos e bem vestidos, adornados com gravatas de grife feitas de pura seda e abotoaduras cintilantes de ouro, que trocam palavras em tons sussurrados, como se compartilhassem segredos preciosos de um cartel.

As paredes, revestidas com tapetes finos e antigos, parecem sussurrar histórias de celebrações passadas e decadência, enquanto os aromas sofisticados que emanam da cozinha prometem delícias capazes não apenas de satisfazer o paladar, mas de criar memórias hedonistas.

Embora a elegância fria do ambiente faça parte da minha rotina corporativa na Europa, sinto que a atmosfera desta noite está impregnada de uma expectativa densa, exatamente como quando se aguarda o início de uma grande apresentação teatral em que cada detalhe parece pronunciar um espetáculo extraordinário e imoral.

— As risadas leves misturam-se ao tilintar constante de taças de cristal com champanhe caro, criando uma sinfonia de alegria superficial e antecipação predatória que preenche cada metro quadrado do espaço.

Às nove horas em ponto, Madame Edith faz a sua entrada triunfal no alto dos degraus, capturando instantaneamente a atenção de todos os presentes com uma confiança inata que irradia de sua postura imponente e do modo altivo como atravessa o salão, parecendo uma rainha tirana que adentra o seu reino particular.

— Assim que ela começa a falar, o murmúrio geral cessa de imediato como se um feitiço de silêncio tivesse sido lançado, e dezenas de olhares masculinos famintos fixam-se nela, pendendo de cada palavra proferida.

Com um gesto teatral e exagerado, ela proclama que a noite será memorável, prometendo uma experiência exclusiva que transcende o ordinário, e então apresenta ao público a novata Nina, descrevendo-a de forma marqueteira como uma figura intrigante que possui um "corpo de pecado e rosto de anjo".

— Essas palavras calculadas, que evocam um equilíbrio perfeito entre o desejo carnal e a inocência corrompida, acendem instantaneamente a cobiça e a curiosidade dos convidados, lembrando o magnetismo magnético de uma obra de arte viva, com suas feições etéreas e aura cativante.

O ar ao redor parece ficar eletrizado, como se a própria essência trágica de Nina fosse capaz de despertar inspirações ocultas e desejos animalescos adormecidos, deixando a plateia pronta para mergulhar em um mundo onde o ordinário se torna subversivo.

Com um estalo de dedos estrepitoso que ecoa no salão como um sinal mecânico, as cortinas de veludo se abrem de supetão, revelando Nina em toda a sua glória vulnerável, exposta como uma estátua de mármore para apreciação e disputa. Ela usa saltos altos vermelhos que lhe conferem uma postura altiva e poderosa, embora desajeitada pela tensão, com cada passo ecoando como batidas secas no silêncio reverente da plateia.

— As meias pretas, adornadas com uma cinta-liga vermelha chamativa, apertam suas coxas e realçam suas curvas voluptuosas, como se cada peça do figurino tivesse sido escolhida para destacar o contraste entre sua juventude e a perversão do leilão, transformando-a em uma musa contemporânea à venda.

Sua camisola transparente desliza suavemente sobre a pele clara, criando uma imagem quase miragem, um vislumbre de algo altamente desejado, mas terrivelmente inalcançável.

— Os cabelos longos e pretos, soltos até a cintura e meticulosamente estilizados, ocultam parcialmente seu rosto e conferem um ar artificial de mistério à sua persona; enquanto uma venda vermelha cobre rigidamente seus olhos, sem conseguir disfarçar o pavor absoluto que a deixa rígida como uma estátua petrificada em cima do pedestal.

É como se ela estivesse fisicamente presente ali, mas sua alma recusasse pertencer àquela cena extravagante, evocando a figura trágica de uma deusa tímida acorrentada em um altar, aguardando o julgamento cruel da plateia masculina, imersa em um mar de olhares avaliadores que carregam o peso do apetite e da humilhação.

A atmosfera está carregada de um suspense palpável, como se o oxigênio estivesse rarefeito, enquanto pergunto a mim mesmo o que realmente se passa na mente daquela mulher cercada por um glamour ostentoso, mas esmagada por uma vulnerabilidade palpável.

Eu assisto a tudo aquilo de pé, completamente atento, sem desviar o olhar nem por um segundo, plenamente consciente de detalhes microscópicos que parecem escapar aos demais bilionários ao meu redor.

— Para mim, a cena não se limita à exibição barata de um corpo exposto para consumo; há algo profundamente perturbador ali, como um nevoeiro denso que encobre uma tragédia silenciosa.

A rigidez antinatural de Nina, acompanhada por um tremor imperceptível em suas mãos atadas à frente, revela uma contenção deliberada e desesperada, como se ela estivesse segurando um grito estridente dentro do peito para não desabar na frente de todos.

Seus dedos, pálidos e trêmulos, lutam contra a própria imobilidade imposta pelo figurino, enquanto o formato do seu rosto sob a venda transmite um conflito brutal entre o medo paralisante e uma determinação doentia.

— É como se ela estivesse implorando por socorro em silêncio, transformando cada segundo daquela exposição em um peso insuportável de carregar.

Por trás da venda, sua postura contradiz todo o ouro, as luzes e o luxo ao redor, sugerindo um abismo de desespero onde suas emoções são sufocadas por uma opressão sufocante.

— Não vejo mais um simples leilão de elite; vejo um ritual sombrio, um teatro comercial de almas vendidas onde a dignidade humana se dissolve sob a pressão implacável do dinheiro.

A governanta da casa se aproxima com passos firmes e começa a soltar os nós decorativos que prendem simbolicamente os pulsos e as coxas de Nina, um ato que parece mecânico para a plateia, mas que carrega um simbolismo de humilhação profunda.

— O som suave dos laços se desfazendo ecoa no silêncio da sala, criando uma tensão palpável que parece atingir apenas a mim.

Nesse exato instante, impulsionado por um impulso protetor que nem eu mesmo consigo racionalizar, decido dar um passo à frente, rompendo a linha dos espectadores, e estendo a minha mão na direção dela, como se estivesse oferecendo uma boia de salvamento a alguém prestes a afundar em alto-mar.

Imediatamente ao tocá-la, percebo um detalhe alarmante que os outros ricaços ignoram: sua pele está absurdamente fria ao toque, como se o pavor tivesse congelado seu sangue, e há um tremor violento e visível percorrendo todo o seu corpo, manifestando-se em contrações sutis, mas inegáveis, como uma folha seca fustigada por uma ventania.

— Esses sinais físicos denunciam o estado de choque em que ela se encontra, uma fragilidade exposta sob os holofotes cruéis da mansão.

Sem pronunciar uma única palavra, seguro firmemente sua mão gelada e a conduzo comigo em direção à suíte Vênus, cruzando o salão em meio aos olhares surpresos dos demais convidados.

— O trajeto que traçamos funciona simultaneamente como uma rota de fuga e a consumação definitiva de um acordo perigoso. Ela caminha ao meu lado em um silêncio sepulcral, carregando não apenas o peso físico daquela noite — uma mistura sufocante de angústia, nojo e desespero —, mas também o fardo invisível da escolha drástica que a obrigou a se vender, queimando a cada passo que damos juntos.

Como um gesto instintivo de solidariedade humana que contradiz a minha frieza habitual, aperto levemente os dedos dela, transmitindo um sinal mudo de que, pelo menos por ora, ela não está sozinha naquele labirinto.

— Enquanto a guio para longe da multidão gananciosa, refletindo sobre as consequências irreversíveis daquele leilão, percebo em sua respiração ofegante a luta de alguém que se entregou ao destino mais sombrio para salvar o que ama.

— Encaro este momento não apenas como um comprador que adquiriu um lote exclusivo, mas como um homem relutante lançado à posição de protetor em meio a uma travessia por águas terrivelmente desconhecidas.

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