CAPÍTULO 2

Serafina apertou a mão da mãe, sentindo o coração disparar enquanto encarava aquele homem como se ele fosse um louco.

Forçar um casamento?

Aquele era exatamente o motivo de ela odiar aquele mundo. O fato de acreditarem que podiam controlar a vida de todos e resolver tudo com violência, sangue e armas.

— Don Falconi, por favor... vamos conversar — Frederico pediu, protegendo a esposa e a filha com o próprio corpo.

— Não há nada a ser conversado, Frederico. Vocês nos prometeram uma filha, e eu a levarei.

— O senhor não pode me levar à força! Eu não sou a Josefina! Que tipo de monstros são vocês? Nós enterramos ela ontem, e já estão fazendo uma barbaridade dessas?!

Caetano observou a jovem em silêncio, um brilho de impaciência atravessando seu olhar frio.

— Essa decisão não está aberta para discussão. Seu pai lhe deu uma escolha. Eu não. Na nossa família, dívidas são pagas... ou cobradas com sangue.

Um dos homens ergueu a arma e apontou diretamente para a testa de Serafina.

O corpo dela tremeu. Mesmo assim, não recuou.

— Então vá em frente, me mate! — ela desafiou, tentando ignorar o medo esmagador dentro do peito. — Porque a única forma de me levar daqui será carregando o meu cadáver!

Caetano estreitou os olhos diante da ousadia daquela garota.

Então, com um simples gesto de cabeça seu, a arma foi desviada da testa dela para a cabeça de Amélia.

—Mãe! — Serafina gritou, desesperada.

—Por acaso acha que isso é algum jogo? — Caetano perguntou friamente. — Se quebrarem o pacto firmado entre as famílias, todos vocês farão companhia à sua filha morta.

Serafina viu o homem erguer lentamente a mão, prestes a dar a ordem de execução e matar sua mãe naquele instante.

—Não!

O grito saiu rasgado de sua garganta.

As lágrimas que vinha segurando finalmente caíram enquanto ela se aproximava da mãe, afastando a arma da cabeça dela com as mãos trêmulas.

Ela se virou para Caetano, os olhos marejados, cheios de raiva e impotência.

—Tudo bem...— Serafina engoliu o nó em sua garganta, murmurando entre as lágrimas. — Eu... eu me caso com ele.

Frederico soltou um suspiro de alívio, deixando os ombros caírem, enquanto Amélia apertava mais a mão da filha, chorando.

Caetano fez um gesto discreto, e um dos homens pegou a mala dela, enquanto outro tentou segurá-la pelo braço para conduzi-la até o carro.

Serafina puxou o braço de volta bruscamente.

—Eu posso andar sozinha!

Ela se virou para a mãe, que imediatamente a abraçou.

—Me desculpe, meu amor... me desculpe...

Serafina retribuiu o abraço com força.

—Está tudo bem — mentiu, forçando um sorriso fraco.

Ela se virou para o pai, que parecia querer pedir desculpas, mas ao mesmo tempo mantinha a expressão rígida de alguém convencido de que aquilo era o dever dela.

Sem dizer mais nada, Serafina passou por Caetano e entrou no carro.

Pela janela do veículo, viu os pais abraçados, olhando para ela como se estivessem perdendo outra filha.

Ela baixou a cabeça, apertando o tecido da saia preta, enquanto deixava as lágrimas caírem silenciosamente.

Anos lutando para se manter longe daquele mundo...

E agora, estava sendo arrastada de volta para ele.

. . .

Alguns minutos depois, o carro atravessou os enormes portões da mansão principal dos Falconi.

A porta foi aberta, e Serafina desceu lentamente, encarando o patriarca, que a observava com a mesma expressão fria e impassível de antes.

—Venha. O casamento será realizado em dois dias, e a partir de hoje, você viverá aqui.

Serafina franziu o cenho, confusa.

Pelo que sabia, o casamento da irmã com Damian aconteceria dali a seis meses. Então por que tanta pressa? E por que logo após a morte de Josefina?

Sem lhe dar espaço para perguntas, Caetano seguiu em frente, adentrando a mansão.

Um dos homens lançou um olhar significativo para Serafina, indicando que ela deveria acompanhá-los.

Ela suspirou, sem opção, e entrou na mansão.

O lugar parecia mais um castelo antigo do que uma casa. A decoração clássica, os corredores silenciosos e o clima pesado faziam tudo parecer sufocante.

Serafina continuou seguindo Caetano escada acima, atravessando longos corredores.

No meio do caminho, o velho parou abruptamente.

Ela também parou.

Caetano permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de falar.

—Damian ficou profundamente abalado após o acidente. Sua função aqui não será apenas ser sua esposa... mas cuidar dele, permanecer ao lado dele e ajudá-lo a se recuperar.

Serafina franziu ainda mais o cenho.

—Ele amava sua irmã — Caetano continuou. — A perda dela o afetou bastante. Vocês duas são muito parecidas, então, imagino que sua presença aqui possa ajudá-lo.

Serafina abriu os lábios para perguntar alguma coisa. Mas o som de vidro quebrando vindo de um dos quartos interrompeu o momento.

—Saia daqui!

O grito abafado ecoou pelo corredor.

Uma das portas se abriu, e uma enfermeira saiu do quarto assustada, quase correndo, os olhos cheios de medo e lágrimas contidas.

Serafina observou a cena, cada vez mais confusa.

"O que está acontecendo aqui?"

Caetano apressou o passo, chegando até a porta, e bateu duas vezes antes de entrar sem esperar pela resposta.

Hesitante, Serafina o seguiu.

Seus passos ficaram mais lentos conforme se aproximava da entrada.

E assim que parou diante da porta e olhou para dentro do quarto, seus olhos se arregalaram diante do que viu.

Damian Falconi.

O homem cujo nome fazia mafiosos experientes abaixarem a cabeça.

O herdeiro mais temido da máfia italiana.

Frio, violento, implacável, intocável.

Agora estava ali...

Sentado numa cadeira de rodas.

A barba escura crescia desleixada pelo maxilar. Os hematomas ainda marcavam parte do rosto, uma manta cobria suas pernas sem movimento. No chão, uma bandeja de medicamentos estava jogada ao lado de um copo quebrado.

Os olhos azuis intensos que antes carregavam perigo agora pareciam mortos e sem vida, carregando apenas amargura.

O coração de Serafina falhou por um instante.

Ela baixou os olhos novamente para as pernas dele, incrédula, e quando voltou a olhar para ele, seu sangue gelou ao encontrar os olhos azuis fixos nela, como lâminas que a atravessavam.

Instintivamente, ela deu um passo para trás.

—Damian — Caetano chamou, e lentamente Damian direcionou os olhos para o avô.

O velho estendeu a mão em direção a Serafina, mandando que ela se aproximasse.

Ela hesitou por alguns segundos antes de avançar cautelosamente.

—Essa é Serafina Moretti. Imagino que se lembre dela. Ela irá se casar com você no lugar da Josefina.

O olhar de Damian escureceu imediatamente.

Os dedos dele apertaram o braço da cadeira de rodas com força, enquanto uma expressão de raiva profunda surgia em seu rosto.

Os olhos dele voltaram para Serafina. Frios e mortais.

—Tirem essa mulher da minha frente. Agora!

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