Capítulo VI

Cassandra Moore

Como se eu já não tivesse me cansado o suficiente no trabalho, agora tenho que me estressar na minha própria casa também?

— Vocês não vão poder ficar aqui.— fui direta.

— O quê? — responderam em simultâneo.

— É o que vocês ouviram.

— Cass, nós somos família! — Cara enfatizou o termo família . Até parece que eles já tinham agido como tal.

Jorge apertou a alça da mala com a mandíbula travada e então disse :

— Por que você está fazendo isso? Nós nunca te fizemos nada de mal!

Eu virei o rosto para que eles não vissem o sorriso escárnio que se formou nos meus lábios.

— Você se acha melhor que a gente só porque cresceu na cidade, não é? Só que você não é melhor que ninguém aqui. — continuou gritando, apontando o dedo no meu rosto.

Era só isso que me faltava. Ser calúniada em frente a minha casa — a casa que a minha avó tanto se esforçou para construir.

— Você não entende nada sobre bem ou o mal, por acaso é necessário apontar uma arma na cabeça de alguém para fazer o mal? Você não fez nada de mau? E o que você já fez de bom para mim? E para dona dessa casa, o que você já fez? — minha voz estava alta, o que fez com que os vizinhos saíssem fora para observar a cena. Mas eu não estava nem aí para isso.

— A nossa família comprou um monte de presentes para o seu casamento, um casamento ao qual você nem apareceu. — Jorge afirmou como se fosse uma grande coisa.

— Sim, a única coisa sua que apareceu lá foi um vestido de noiva, manchado de sangue — Cara acrescentou.

Eles são podiam estar brincando com a minha cara. — tomada pela fúria eu cravei as unhas sobre a palma da mão com tanta força que minha mão começou a sangrar.

— Vocês não têm vergonha de levantar esse assunto? Eu faltei no meu casamento e, aparece um vestido de noiva manchado de sangue e ainda assim vocês não ligaram — cinco anos mais tarde quando é conveniente vocês lembram que eu existo ? Que bela família eu tenho — ironizei a última frase batendo palmas.

Um silêncio pesado e quase palpável se instalou assim que os meus aplausos sarcásticos cessaram.

— Nós não queremos gente hipócrita na nossa vizinhança — dona Zoe exclamou quebrando o silêncio .

Os olhos da Cara e do Jorge se arregalaram ao ouvir aquilo e, por um lado até eu fiquei surpresa, mas a raiva tomava das minhas feições .

— Como vêem pedir abrigo depois de fazerem uma coisa como essa?

— Há pessoas que não têm um pingo de vergonha na cara.

Minha avó era muito querida nessa comunidade e talvez por isso eles estivessem me defendendo. Por que outro motivo seria?

— É isso mesmo. Se você quiser a gente tira eles daqui, nem que sejá a força. É só dizer ,Cass— Philippe, um vizinho que morava na casa a frente da minha afirmou.

Eu senti meus olhos arderem pelas lágrimas que se formavam — não iria deixar ninguém vê-las escorrer. Levantei ainda mais o rosto e então afirmei.

— Não é necessário, eu acho que eles já entenderam. Me desculpem pelo inconveniente — fiz uma pequena reverência para os meus vizinhos.

— Para nós não é nenhum incomodo.

— A sua avó fez muito por todos nós, é o mínimo que podíamos fazer.

Eh! Minha avó é incrível. Uma onda de calor percorreu o meu peito, a minha voz parecia funda demais e antes que a lágrima que estava na ponta dos olhos caíssem, dei um leve aceno de cabeça e entrei em casa.

Assim que entrei, aquela lágrima finalmente caiu, meu corpo deslizou pela porta, até chegar ao chão , lembranças do que minha avó e eu tínhamos passado depois daquilo , depois do meu erro preencheram a minha mente e quando outras lágrimas tentaram cair uma frase que a minha avó dizia muito invadiu a minha mente.

“ Cass, você até pode chorar, mas não te esqueças que o tempo que levas te lamentando— é tempo que devias estar te reconstruindo "

Eu me conheço melhor que ninguém e, sei bem que se eu começar a me lamentar agora, eu não vou terminar assim tão sedo . Com o coração pesado respirei fundo tentando me recompor — com dificuldade me levantei e fui tomar um banho de água gelada, mas isso não tirava a culpa que eu carregava nos ombros.

Assim que fui para cama encontrei uma mensagem de um número não registrado, perguntando:

“ Você chegou bem? "

Não sabendo quem era não vi

necessidade de responder.

...

Na manhã seguinte, cheguei bem sedo na firma e fui direto para a sala da senhora Lucélia — ela ainda não tinha chegado por isso continuei a arrumar o que não tinha terminado de arrumar ontem.

— Você chegou cedo, Cass! — a voz da senhora Lucélia emergiu atrás de mim, me fazendo soltar um grito que logo abafei com as mãos.

— Te assustei?— sorriu.

— Só um pouco.— respondi retomando o que fazia.

— Você está com orelhas horríveis!

sem olhar para ela eu apenas respondi :

— Aié? Eu nem percebi— minha voz saiu entediada.

— O segurança disse que uma funcionária nova saiu daqui bem tarde ontem.

— Ela deve ser bem desocupada — respondi , sem desviar os olhos do que fazia.

— É assim que você fala de si mesma? Eu estava lutando a meses para ler todas aquelas papeladas, você faz isso em um dia e, dizes que é ser desocupada?

Finalmente me virei para encará-la.

— Mas tudo bem, eu não digo mais nada. Será que você pode ver um caso para mim?

Me animei um pouco ao ouvir a última frase.

— Sim ,é claro! É sobre quê? — meu tom mostrava a minha animação.

— Ao menos já sei como arrancar um sorriso do seu rosto. Você vai ter que tratar desse caso com Adam.

Um dos meus pés recuou, o suor frio tomou conta da minha testa e senti minhas mãos tremeram.

— O que foi? Se você está preocupada com a eficácia dele, fica sabendo que em 17 anos de carreira ele nunca perdeu nenhum caso.

Se fosse em outras circunstâncias talvez eu ficasse feliz e até impressionada, mas diante dessa situação eu sou conseguia pensar que talvez eu sejá realmente azarada.

— Acabei de lembrar que não será possível.

—E por quê? É por que é o Adam?

Foi nesse momento que uma lembrança bateu forte, a polícia dele.

— Ele não trabalha diretamente com mulheres!— a expressão dela mudou rápido, como se tivesse escutado uma coisa importante que ela tinha esquecido —E eu também não quero trabalhar com ele.

— Eh! Eu vou ver outra coisa para você fazer.

O meu coração ficou bem mais leve depois de ouvir isso.

— Eu ficarei esperando senhora Lucélia !

— Você pode me chamar só de Lu — a voz dela saiu no tom quase maternal.

— E se for senhora Lu?

— Senhora Lu? — repetiu como se estivesse analisando o termo. — Tudo bem, é bem menos pesado com relação a senhora Lucélia. Verdade sejá tida, eu amo meu pai, mas ele não é o melhor a dar nomes.

— Mas eu acho o seu nome bonito!

— É porque tu és uma fofa.

— A senhora é que sabe deixar as pessoas confortáveis.

...

O dia foi bem mais calma — conhece alguns funcionários, o pessoal daqui é bem competente. A semana terminou e, não me esbarrei mais com o Adam , eu estava bem eleviada por isso, mas logo lembrei que na semana seguinte, além de fugir do Adam, eu teria que evitar a todo custo esbarrar com o Dominic.

O meu trabalho depende disso — se a senhora Lucélia descobrir que eu sou a mulher que abandonou o filho dela no altar — toda essa simpatia que ela tem por mim... também, que mãe gostaria de trabalhar com a mulher que humilhou o filho.

Nessa hora eu pensei — e se ela me conhece?... foi por isso que me contratou? Se for um plano dela e do Dominic para se vingarem de mim?

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