Três

Cat correu para abrir.

Estava assustada.

Não fazia ideia de quem era o homem com quem acordara, e o olhar de ódio que ele lhe lançou foi suficiente para fazê-la tremer de medo.

Seu marido, se aquele documento era de fato uma certidão legal, era um homem imponente.

Não era só por ser alto e ter um físico trabalhado na academia, mas também porque tinha aquela aura de poder.

Os cabelos escuros, os olhos igualmente escuros, a barba por fazer e o nariz que lembrava o dos deuses gregos, tudo remetia a um homem rico e influente.

Ele poderia ser um astro de Hollywood ou um modelo, mas ela não sabia.

Nunca o tinha visto.

E, se o tivesse visto, ele também não teria despertado seu interesse.

Sim, ele era lindo, mas ela preferia homens de aparência comum.

Homens como Valentim, o manobrista do hotel em que trabalhava.

Claro que ele nunca demonstrara interesse por ela, mas isso não a impedia de sonhar com o rapaz.

- Por que não abriu a porta?

- Não estou achando a chave.

- Não é uma chave, é um cartão!

O bonitão foi até a porta e perguntou quem era. Depois de ouvir quem estava do outro lado, suspirou aliviado e pediu para o sujeito ir em busca de um cartão na recepção do hotel, pois não sabia onde estava o dele.

Quando os passos se distanciaram, ele virou-se para Cat e mandou que ela fosse lavar o rosto, pois sua aparência estava deplorável.

Cat foi até o banheiro e segurou o choro.

Não conhecia aquele sujeito. Ele a havia drogado e estuprado, ou assim parecia, e agora a tratava como se ela fosse um espantalho ou qualquer coisa desprezível.

Lavar o rosto não a tornaria bonita, disso ela estava mais do que ciente, mas ajudou a aliviar a dor que sentia na cabeça.

Deveria tomar um banho, pensou, e resolveu fazer exatamente isso.

Quando saiu do banheiro, os dois homens conversavam com rostos tensos e aparência de raiva.

- Catarina, olhe estas imagens.

- E-essa sou eu?

A vergonha tomou conta de seu rosto.

A imagem dela se agarrando àquele homem como se não tivesse o mínimo de pudor gritava em sua cara.

Ela não havia sido estuprada.

Mas também não estava em si.

Cat mal havia beijado em toda a vida.

E isso com uma quantidade de garotos que podia ser contada nos dedos de uma mão.

Mesmo na época em que resolveu experimentar beijos, não foi com aquela intensidade ou indecência.

- E então?

- Eu não lembro de nada! Eu não consigo me imaginar fazendo isso! Eu nunca nem namorei!

- Ha-ha. Acha que eu acredito nisso?

- Não importa, eu não estou mentindo!

Ela odiava ser tão fraca.

As lágrimas já estavam caindo outra vez.

Era uma vergonha tudo aquilo.

- Pode ser que ela também tenha sido drogada, Noah. Não vamos acusá-la sem termos certeza de que ela é culpada.

- Qual é, Justin? Acha que eu acredito nisso? A maioria das mulheres vive tramando contra mim!

- Mas eu nem te conheço! Eu nunca faria isso! Eu nem gosto do seu tipo!

O olhar de Noah foi assassino, mas Justin a encarou com curiosidade.

- De onde você é, querida?

- Pahrump, Nevada.

- Hum... não é muito longe daqui.

- Onde é aqui?

- Você não sabe onde está?

- Não. E não consigo lembrar de nada. Estou enlouquecendo com isso.

- Acho que você foi drogada. Mas estamos em Vegas. Tem certeza de que não lembra de vir para cá?

- Não. Por que eu viria? Eu mal tenho tempo para dormir!

- Hum... o que você faz em Pahrump?

- Trabalho como camareira em um hotel à beira da Rodovia 16. O Recanto dos Viajantes. Já ouviu falar?

- Não. Nunca estive na sua cidade. Mas precisamos descobrir como você veio parar aqui.

- Eu quero muito saber. E eu realmente não consigo lembrar.

- Onde estão suas coisas?

- Não sei. Acordei, e não havia nada reconhecível, só os meus óculos.

- Certo. Você lembra o número de telefone de alguém com quem possamos entrar em contato?

- Minha amiga Mia. Nós trabalhamos juntas.

- Aqui está o meu celular. Ligue para ela.

- Obrigada.

Cat pegou o telefone e digitou o número de sua melhor amiga.

Uma lembrança, como uma espécie de sonho, surgiu, trazendo alguma coisa relacionada à ligação, mas ela não conseguiu recordar de fato.

O telefone chamou até cair na caixa de mensagens.

Cat olhou a hora. Passava das onze.

Mia costumava estar dormindo àquela hora.

Ela não tinha uma rotina como a de Cat.

Tentou mais duas vezes antes de devolver o celular ao rapaz.

Ele era bonito, de uma beleza mais clássica.

Os olhos azuis e os cabelos loiros, cortados bem curtos.

Sua melhor característica era o sorriso.

Havia uma covinha na bochecha esquerda.

Cat achou aquilo fofo.

Mas Justin não era do tipo fofo.

Ele parecia um executivo.

Um dos simpáticos.

No hotel em que trabalhava apareciam alguns de vez em quando.

A maioria das pessoas com condições financeiras elevadas se hospedava em Vegas ou nos hotéis-cassino.

O Recanto era um hotel antigo.

Pertencia à mesma família havia gerações.

O atual proprietário era um homem de meia-idade e bastante rígido.

Cat pensou em seu emprego.

Alguém ali saberia por que ela estava em um hotel em Vegas?

Era provável que não.

- Certo, não podemos ficar aqui o resto do dia. Precisamos sair e enfrentar os repórteres.

- Repórteres? Por quê?

- Porque eu sou um cara influente, que tem uma noiva e acordou em um maldito quarto de hotel com uma ninguém que finge não saber de nada!

Cat se encolheu outra vez.

Ela não era ninguém, mas não era mentirosa.

Ela realmente não se lembrava de nada!

- Acalme-se, Noah! Deixe a raiva para depois. Precisamos sair daqui com uma boa história. Do contrário, as consequências poderão ser bem desagradáveis.

- O que você sugere, então? Que eu saia discretamente? Como posso fazer isso?

- Bom, nós dois sabemos que isso foi uma armação, mas não sabemos se a Catarina tem participação ou não. Não vamos colocá-la como inimiga. Vamos dançar conforme a música.

- Está me dizendo para sair deste lugar fingindo que me casei e estou feliz com ela?

- É exatamente isso!

- Nem morto!

- Sua avó me ligou. Ela perguntou que palhaçada era essa. Se você jogar sua esposa para escanteio e tentar enfrentar a mídia sem provas de que foi drogado, como acha que vai ficar a Hampton Global? As ações já caíram um bocado esta manhã, só com a notícia do seu casamento escandaloso!

- Justin, eu sou noivo! A Vivian é a mulher com quem desejo me casar, e não uma camareira sem graça!

- Não precisa desmerecer a Catarina! Seja menos orgulhoso. E quanto à Vivian... bom... ela anunciou ontem mesmo que o relacionamento de vocês estava acabado.

- O quê? Como assim?

- Alguém postou uma foto sua em uma capela, casando com a Catarina. Em seguida, a Vivian se manifestou dizendo que o relacionamento de vocês não existia mais e que você viajou solteiro.

- Ela enlouqueceu? Eu falei com ela sobre casamento ontem mesmo!

- Ontem?

- Não sei. Que dia é hoje?

- Isso é complicado, meu amigo, mas ela fez a escolha dela sem consultar você, e agora não há muito o que possa fazer sem comprometer sua imagem. Ainda assim, dar o fora na sua esposa é a pior das opções.

- Mas que inferno!

Cat sabia que deveria se manifestar, mas estava assustada e com medo do que aconteceria caso voltasse para casa depois de aquele casamento maluco ter sido exposto na mídia.

Como seu pai iria reagir?

E Mercedes?

Aquilo faria com que ela fosse expulsa!

Seria a realização do desejo de sua madrasta!

Ela não podia aceitar, mas não tinha escolha.

Havia muito tempo que ela não tinha escolhas.

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