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Capítulo 6 — Celine narrando

Naquela manhã, acordei com uma sensação estranha no peito. Não sabia explicar exatamente o motivo, mas desde o momento em que abri os olhos tive a impressão de que alguma coisa estava diferente. Talvez fosse apenas a sequência de acontecimentos dos últimos dias. As ligações insistentes para Valquíria, os homens que apareceram na mansão, as conversas interrompidas quando eu entrava em algum cômodo e, principalmente, a maneira como minha madrasta havia começado a me tratar. Tudo parecia fazer parte de alguma coisa que eu não conseguia enxergar. Ainda assim, eu tentava não pensar demais. Passei a vida aprendendo a aceitar aquilo que não podia mudar, e talvez esse fosse um dos meus maiores defeitos: eu sempre tentava encontrar uma explicação bonita para situações que, muitas vezes, não tinham nada de bonitas.

Depois do café da manhã, Valquíria pediu que eu fosse até o escritório. Quando entrei, encontrei-a sentada atrás da mesa, com alguns documentos espalhados diante dela. Ela parecia nervosa, mas tentou esconder. Levantou os olhos quando me aproximei e apontou para a cadeira. Sentei-me sem entender o motivo daquela conversa.

— Celine, eu tenho uma notícia para você.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não. Na verdade, é uma coisa boa.

Meu coração bateu mais rápido.

— Boa?

Valquíria assentiu.

— Consegui uma oportunidade de trabalho para você.

Por alguns segundos, fiquei sem reação.

— Trabalho?

— Sim.

— Onde?

— Em uma propriedade particular. A pessoa precisa de alguém para ajudar com algumas tarefas e organização. O salário é muito bom.

Senti uma alegria que não conseguia esconder.

— Sério?

— Sim.

— E… eu vou poder ficar com o dinheiro?

Ela me olhou como se a pergunta fosse óbvia.

— Claro.

Meu sorriso aumentou.

— Então eu posso juntar dinheiro?

— Pode.

— Para sair daqui?

Ela fez uma pequena pausa.

— Se é isso que você quer.

Aquelas palavras fizeram meu coração disparar.

Liberdade.

Pela primeira vez, aquilo parecia possível.

Eu poderia trabalhar, juntar dinheiro e talvez alugar um pequeno apartamento. Poderia comprar minhas próprias tintas. Poderia procurar um curso de pintura. Talvez, algum dia, pudesse vender meus quadros.

— Quando começo?

— Hoje.

Meu sorriso desapareceu um pouco.

— Hoje?

— Sim.

— É tão rápido assim?

— A oportunidade apareceu de repente. Se você não aceitar, outra pessoa ficará com a vaga.

Fiquei alguns segundos em silêncio.

Havia algo estranho naquela pressa, mas a vontade de sair daquela casa era muito maior do que a minha desconfiança.

— Eu aceito.

Valquíria pareceu relaxar.

— Ótimo.

— Preciso levar muitas coisas?

— Não.

Ela levantou-se.

— Pegue apenas o necessário.

Subi para o meu quarto com o coração acelerado.

Eu estava indo embora.

Não sabia para onde, não conhecia a pessoa para quem trabalharia, não sabia como seria minha nova rotina, mas, pela primeira vez, todas aquelas perguntas pareciam pequenas diante da possibilidade de ter uma vida minha.

Abri o guarda-roupa e comecei a separar minhas roupas.

Eu não tinha muito.

Alguns vestidos simples, calças, blusas e algumas peças que meu pai havia comprado quando eu ainda era criança. Peguei uma mala pequena e comecei a colocar tudo dentro.

Quando abri a gaveta da escrivaninha, encontrei meu caderno de desenhos.

Segurei-o contra o peito.

Depois olhei para debaixo da cama.

Minha pintura.

Eu não poderia deixá-la para trás.

Peguei a tela e a envolvi cuidadosamente em um tecido velho. Era uma das minhas favoritas. A mulher diante da estrada aberta. A pintura que representava tudo o que eu queria.

Liberdade.

Coloquei a tela no fundo da mala e cobri com roupas.

Fiquei olhando para aquele quarto.

Era pequeno.

Simples.

Mas tinha sido meu refúgio durante anos.

Ali eu havia chorado escondida.

Ali havia comemorado pequenas vitórias.

Ali havia pintado durante madrugadas inteiras.

Ali havia sonhado.

Passei a mão sobre a escrivaninha.

— Talvez eu volte algum dia — murmurei.

Mas alguma coisa dentro de mim dizia que não voltaria.

Quando desci com a mala, encontrei Margo na sala.

Ela olhou para a bagagem.

— O que é isso?

— Vou trabalhar.

Ela franziu a testa.

— Trabalhar onde?

— Valquíria conseguiu um emprego para mim.

Margo olhou para a mãe.

— Mãe?

Valquíria respondeu tranquilamente:

— Sim.

Margo ficou em silêncio por alguns segundos.

— Você está mandando ela embora?

— Não estou mandando ninguém embora. Ela conseguiu uma oportunidade.

— Mas por quê?

— Porque é uma oportunidade para ela.

Margo voltou os olhos para mim.

— E você vai aceitar?

— Sim.

— Você nem sabe onde está indo.

— Valquíria explicou.

Margo ficou irritada.

— Isso é ridículo.

— Por quê?

— Porque você sempre quis sair daqui.

— Sim.

— Então agora conseguiu?

Sorri.

— Acho que sim.

Ela desviou o olhar.

Não entendi sua reação.

Achei que ela ficaria feliz por mim.

Durante tantos anos, Margo reclamava que eu estava sempre por perto. Agora que eu finalmente sairia, imaginei que aquilo seria bom para ela.

Mas ela parecia incomodada.

— Você não deveria ir — disse.

— Por quê?

Ela não respondeu.

— Margo?

— Porque não.

Valquíria interveio.

— Chega.

Margo olhou para a mãe.

— Eu não gosto disso.

— Não precisa gostar.

— Mas…

— Margo.

Ela ficou calada.

Eu apertei a alça da mala.

Não queria começar uma discussão no meu último dia naquela casa.

— Eu vou sentir saudade de vocês.

Margo me olhou como se eu tivesse dito alguma coisa absurda.

— Eu não vou sentir sua falta.

Sorri de leve, tentando não demonstrar que aquilo doía.

— Tudo bem.

Talvez fosse melhor assim.

Pouco depois, ouvi o som de um carro se aproximando.

Fui até a janela.

Um carro preto e luxuoso havia parado diante da mansão.

Meu coração acelerou.

— É o carro? — perguntei.

Valquíria respondeu:

— Sim.

Peguei minha mala.

Antes de sair, parei no hall de entrada.

Olhei para aquela casa pela última vez.

A enorme escadaria.

Os lustres.

As paredes.

As portas.

Tudo aquilo havia feito parte da minha vida desde que eu era criança.

Eu deveria sentir tristeza.

Mas, naquele momento, senti esperança.

Talvez aquela fosse a chance que eu sempre esperei.

Talvez, longe dali, eu finalmente pudesse ser livre.

Talvez pudesse pintar todos os dias.

Talvez pudesse construir uma vida que fosse realmente minha.

Olhei para Valquíria.

— Obrigada.

Ela ficou séria.

— Não precisa agradecer.

— Preciso.

Eu realmente acreditava que ela estava me dando uma oportunidade.

Não sabia que, naquele instante, ela estava apenas se livrando de mim.

Caminhei até a porta.

O motorista saiu do carro e abriu a porta traseira.

— Senhorita Celine?

— Sim.

— Por favor.

Entrei.

Coloquei a mala ao meu lado e olhei uma última vez para a mansão.

Valquíria estava parada na entrada.

Margo estava atrás dela.

Margo parecia nervosa.

Eu não entendia por quê.

O carro começou a andar.

Encostei a cabeça no banco e respirei fundo.

Eu estava indo embora.

Eu não sabia que aquela viagem não me levaria para um emprego.

Não sabia que não existia vaga alguma.

Não sabia que o homem para quem eu acreditava que iria trabalhar não havia contratado meus serviços.

Eu estava sendo levada até ele.

Como pagamento.

Como parte de uma dívida.

E, enquanto observava a mansão desaparecer pelo vidro traseiro, apertei a pequena medalha que carregava no pescoço, uma das poucas lembranças que ainda tinha do meu pai.

— Eu vou conseguir, pai — sussurrei. — Dessa vez, eu vou ser livre.

O carro continuou pela estrada.

E eu não fazia ideia de que estava indo diretamente ao encontro do homem mais perigoso que já havia cruzado meu caminho.

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