A SEGUNDA CHANCE PARA O VIÚVO
A SEGUNDA CHANCE PARA O VIÚVO
Por: Tônia Fernandes
####CAPÍTULO 01

A SAÍDA DA CRECHE

72 horas antes do silêncio

O portão da creche se abre com o rangido suave e característico de todos os fins de tarde.

— Lise entra apressada, com o casaco ainda aberto, enquanto o frio do lado de fora tenta invadir aquele ambiente quente, preenchido por um coro de vozes infantis e pelo cheiro acolhedor de lanche recém-servido.

Os olhos da mãe procuram direto o cantinho de sempre.

A pequena Rose está ali, sentada sobre o tapete colorido, completamente rodeada por blocos de montar.

— A menina concentra toda a sua atenção em erguer uma torre torta que insiste em não se equilibrar.

A ponta da língua para fora, no cantinho da boca, denuncia o esforço sério de quem ainda descobre o mundo peça por peça.

— Mamãe… — a voz da garotinha vem antes mesmo do olhar.

A menina larga os blocos no chão e se levanta em um pulo desengonçado, correndo com passinhos rápidos até se chocar carinhosamente contra as pernas de Lise.

Lise se abaixa no mesmo instante, acolhendo o corpo pequeno nos braços e respirando fundo o cheiro doce de sabonete infantil misturado à massinha de modelar.

— Minha vida… você se comportou hoje?

— Eu comi tudinho mamãe— responde Rose, orgulhosa.

— E dormi um pouquinho, a tia disse que eu desenhei bonito.

Lise sorri, beijando o topo da cabeça da filha com extrema delicadeza.

— Então eu acertei em vir te buscar, não é?

A professora se aproxima trazendo a mochila estampada da menina.

— Ela esteve muito tranquila o dia inteiro — relata a educadora, com um sorriso gentil.

— Brincou, dormiu bem… só chorou um pouquinho mais cedo porque disse que estava com saudade da mamãe.

Lise sente aquele aperto doce no peito — um amor avassalador que dói e aquece ao mesmo tempo.

— Amanhã chego mais cedo — promete a mãe, mais para si mesma do que para a professora.

No vestiário, Lise troca o casaco da filha com todo o cuidado, prende os cabelos macios em dois lacinhos vermelhos e calça os sapatinhos que sempre insistem em sair dos pés pequenos.

— Rose observa tudo com atenção, segurando firme o seu ursinho de pelúcia contra o peito.

— Mamãe… — a voz de Rose sai manhosa. — A gente vai pra casa?

— Vamos, meu amor. O jantar primeiro e depois você vai dormir bem quentinha.

— O papai vai estar lá?

A pergunta surge simples e inocente, mas atravessa Lise como uma pontada silenciosa de tudo o que ela ainda não consegue explicar para alguém tão pequena.

Lise respira fundo, esforçando-se para manter o sorriso acolhedor no rosto.

— Vai, sim, o papai sempre estará com a gente.

A Rose sorri satisfeita, assimilando o conforto daquela resposta sem compreender totalmente a gravidade das palavras.

Já no estacionamento, o frio da noite se espalha pelo ar cinzento.

Lise acomoda Rose na cadeirinha de segurança no banco traseiro com toda a paciência do mundo.

— Ela confere o cinto, ajusta o casaco grosso e protege cuidadosamente cada pedacinho daquela vida que representa o seu bem mais precioso.

Antes que a porta seja fechada, a garotinha boceja, fadigada.

— Mamãe… eu tô com sono…

— Dorme, meu amor, quando você acordar, já estaremos em casa.

Lise fecha a porta traseira com cuidado para não fazer barulho. Ela contorna o veículo, entra no banco do motorista e liga o motor.

— O rádio passa a tocar baixo uma música tranquila, quase imperceptível, preenchendo o silêncio da cabine.

O carro sai devagar do estacionamento da creche.

—Nada no ambiente, absolutamente nada, indica que aquele trajeto simples de volta para casa jamais será apenas mais um dia comum.

— O sinal fecha no cruzamento adiante, e Lise freia o carro, sentindo a respiração presa no peito.

O dia foi exaustivo, quase interminável, recheado de reuniões cansativas e telefonemas profissionais que pareciam não ter fim.

— Em sua mente, pesa o fardo invisível de uma rotina sufocante, um estresse constante que deixa seus ombros rígidos e seu olhar distante, como se estivesse caminhando através de uma neblina de obrigações.

Pelo retrovisor interno, Lise observa a filha dormindo tranquilamente no banco de trás. É uma visão profundamente reconfortante no meio do caos diário.

— O rosto sereno de Rose é iluminado pela luz suave do entardecer, com os cílios longos repousando delicadamente sobre a pele macia — uma beleza pura e inocente que a mãe tem o maior orgulho de proteger.

O cansaço da manhã corrida no parque, o momento em que a menina correu atrás do balão que escapou das mãos e os risos compartilhados durante o dia finalmente cobram seu preço da criança.

— Lise espera internamente que a doçura daquela pequena vida a ajude a esquecer, ao menos por instantes, as exigências que a vida adulta impõe sobre seus ombros.

Ao contemplar a imagem da filha adormecida, um sorriso nostálgico se forma involuntariamente nos lábios de Lise.

— Já estamos chegando, meu amor… — murmura para o silêncio do carro, tentando criar uma atmosfera de calmaria e segurança, mesmo que a sua própria mente continue inquieta.

— De repente, o carro é atingido por um impacto súbito e ensurdecedor que pega Lise completamente de surpresa.

O solavanco brutal a deixa sem reação por um segundo terrível.

— O coração da mulher dispara em um ritmo descontrolado enquanto ela tenta em vão processar a situação.

—'Antes que consiga compreender o que está acontecendo, a porta do motorista é arrombada e aberta com extrema violência. Uma mão masculina e poderosa agarra o braço de Lise com força implacável, e a sensação de vulnerabilidade se transforma instantaneamente em pavor absoluto.

— Fica quieta! Não abre a boca agora! — ordena o homem, com uma voz grossa e ameaçadora que não admite qualquer hesitação ou contestação.

— Em uma fração de segundo, o mundo de Lise se desfaz em mil fragmentos.

O controle do automóvel, que até então lhe oferecia uma ilusão de segurança, escapa totalmente de suas mãos. — Com movimentos bruscos e truculentos, ela é empurrada à força para o banco do passageiro, enquanto um estranho assume o volante com uma frieza cirúrgica, movendo-se com a precisão de quem já executou aquela ação inúmeras vezes.

— O peito de Lise martela violentamente, as batidas do coração ecoando em seus ouvidos como um tambor de pânico.

Do lado oposto do veículo, um segundo homem surge do nada, abrindo a porta traseira onde Rose continua dormindo.

— Dominada por um terror avassalador, Lise tenta gritar com todas as suas forças, mas uma mão rápida e pesada sufoca a sua boca antes que qualquer som consiga se formar, selando-a em uma bolha de desespero e impotência.

— Um único som… — sussurra o invasor ao seu lado.

A voz é baixa e assustadoramente calma, mas carrega uma ameaça letal que pesa no ar como um nó na garganta de Lise, e eu mato você na frente da sua filha.

O terror gelado petrifica cada músculo de Lise, transformando seu corpo em uma estátua de medo.

— A pequena Rose, totalmente alheia ao perigo e imersa em seu sono infantil, nem sequer desperta ao ser arrancada do assento de segurança.

O homem a segura nos braços com uma firmeza desprovida de qualquer cuidado, tratando a vida da menina como se não tivesse valor algum.

— Por dentro, Lise entra em colapso em um lamento silencioso e desesperado, enquanto a impotência física a impede até mesmo de chorar livremente.

O outro homem, mantendo uma expressão de frio controle, cobre os olhos de Lise com um pano áspero, apertando a venda com força excessiva para vedar não apenas a sua visão, mas também qualquer réstia de esperança.

Em seguida, vêm as contenções rígidas. Primeiro nos pulsos, onde o estalo frio do metal ressoa como uma sentença, seguido por um puxão implacável que a prende como uma presa em uma armadilha sem saída.

— Logo depois, os tornozelos de Lise são imobilizados, ceifando completamente sua liberdade de movimento e afastando qualquer possibilidade de fuga ou resgate.

O carro arranca bruscamente, acelerando pelas ruas e levando mãe e filha para um destino totalmente desconhecido.

a curva fechada e freada brusca funcionam como um lembrete cruel de que ambas estão completamente à mercê daqueles criminosos. O tempo deixa de ser mensurável, transformando-se em um conceito abstrato que se esvai lentamente enquanto o corpo de Lise balança sem forças a cada manobra do veículo, com sua sanidade vacilando terrivelmente sob o peso esmagador da incerteza e do pânico.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
capítulo anteriorpróximo capítulo
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App