Mundo de ficçãoIniciar sessãoCONTINUAÇÃO
EVANDER Imediatamente, a curiosidade misturada com o incômodo me domina, e eu me viro para a cerimonialista que nos acompanha de perto com a prancheta nas mãos, exigindo respostas em um tom baixo. — Quem são essas pessoas? — pergunto em um sussurro ríspido, sem desviar os olhos daquela mesa. — São convidados da senhorita Mabel, senhor — a mulher responde de imediato, mantendo a voz profissional e discreta. — Por que ela não levou para os pais dela o primeiro pedaço de bolo? — questiono, franzindo o cenho, achando aquela quebra de protocolo inadmissível para o padrão da minha família. — Não sei, senhor — a cerimonialista responde, olhando para a cena com um misto de admiração. — Mas dá para perceber que ela tem um carinho muito grande por esse casal. Fico em silêncio, observando Mabel se despedir do grupo. Quando ela se vira e caminha de volta na minha direção, percebo que ela retorna com lágrimas mal disfarçadas nos olhos, tentando conter a emoção que a domina. Ela para diante de mim, e a minha curiosidade fala mais alto. — Quem são? — pergunto, cruzando os braços. — Ah, são as pessoas que eu conheço — ela responde, limpando o canto do olho com cuidado para não borrar a maquiagem. — E aquela jovem lá é a Mabel, uma amiga que eu fiz. — Como você, sendo filha de uma família bem-sucedida, tem amizade com pessoas humildes? — pergunto, genuinamente intrigado com aquela dinâmica que foge totalmente do meu convívio social. Mabel me olha na mesma hora com faíscas nos olhos, a postura erguendo-se em uma defensiva feroz que me pega de surpresa. — Qual é o seu problema? — ela rebate, a voz baixa, mas carregada de uma indignação cortante. — Quer dizer que se as pessoas têm dinheiro, elas não podem se misturar com quem não tem? — Eu não quis dizer isso — respondo rapidamente, ajeitando a postura para não parecer acuado. — Eu perguntei porque dava para perceber que eles estão deslocados... — Não, eles não estão deslocados — ela me interrompe de forma firme, apontando sutilmente com o olhar para a mesa deles. — Você pode ver que eles estão bem vestidos, e estão sentados em um local próximo à nossa mesa. — E por que você não deu o primeiro pedaço de bolo aos seus pais? — insisto, tocando no ponto que mais me causou estranheza desde que ela se afastou. — Porque eles não dão importância a isso — ela responde, o tom de voz caindo para uma frieza melancólica. — Eu ofereci o primeiro pedaço de bolo a três pessoas que estão aqui se sentindo bem. Eu permaneço em silêncio, olhando para ela enquanto suas palavras ecoam na minha mente. Passo a observar sob uma nova perspectiva e vejo, pela primeira vez, que ela não é uma mulher mimada, nem cheia de vontades por causa da educação rica que recebeu. Mabel é, acima de tudo, uma pessoa humana. E, de uma forma que eu não sei explicar e que me assusta, isso mexe profundamente comigo. Para piorar a situação, após finalmente nos sentarmos na nossa mesa de noivos depois de andarmos e conversarmos formalmente com todos os convidados, o ambiente voltou a carregar. A falsa calmaria da festa foi quebrada quando Noel começou a caminhar decididamente em nossa direção. Ele cruzou o salão com passos lentos, exibindo um sorriso cínico que me fez travar o maxilar no mesmo instante. Noel veio direto até a mesa principal da família, onde nós estávamos sentados junto aos meus pais e aos familiares de Mabel. Para a minha completa surpresa e indignação, ele não estava sozinho. Ele vinha nos cumprimentar de mãos dadas com Tiffany, a atriz que havia sido o estopim de toda a tempestade midiática contra mim. Meu pai se virou na cadeira imediatamente, a postura rígida como uma rocha, os olhos faiscando o mais puro ódio corporativo. No entanto, ele manteve a voz controlada, destilando uma ironia ácida que apenas os homens do nosso meio sabiam decifrar. — Noel, meu amigo — meu pai começou, forçando uma cordialidade que parecia uma ameaça. — Obrigado pela sua presença. Mas você trouxe essa mulher ao casamento para fazer uma provocação ou vocês são um casal? Noel soltou um risinho debochado, fazendo uma cara de paisagem, como se estivesse achando graça do divertimento que acabara de criar na nossa recepção. Ele deu de ombros, soltando a mão de Tiffany por um segundo apenas para ajeitar o paletó. — Não, nós não somos um casal — Noel respondeu, a voz mansa e carregada de cinismo. — Eu só precisava de uma acompanhante para ver o evento, e ela estava disponível. Agora, o passado de Evander com ela não interfere em nada com os nossos negócios. Antes que eu ou meu pai pudéssemos abrir a boca para colocá-lo no seu devido lugar, Mabel se mexeu ao meu lado. Senti a tensão emanar do corpo dela enquanto ela se virava diretamente para o empresário, encarando-o com uma altivez e uma coragem que eu nunca tinha visto em mulher nenhuma daquela elite. — Pois eu não o conheço — Mabel disparou, a voz firme ecoando pela mesa, atraindo os olhares chocados dos meus parentes. — Pode ser que não interfira em nada no negócio de vocês, mas o senhor não pensou em ser educado? Trazer uma mulher que armou um escândalo com o meu marido para me humilhar no dia do meu casamento é inaceitável. Noel desfez o sorriso na mesma hora, pego de surpresa pelo contra-ataque direto da noiva que ele claramente julgava ser apenas uma peça decorativa. Mabel não recuou; ela inclinou o corpo para a frente, sustentando o olhar dele com uma crueza impressionante. — O convidado é seu, mas a insatisfação é minha — ela continuou, o tom de voz cortante como vidro. — Então, senhor Noel... É esse o seu nome, não é? Não, eu não estou satisfeita. Se isso não interfere no negócio de vocês, para mim é extremamente desagradável. O silêncio que se instalou na mesa foi ensurdecedor. Minha mãe olhou para mim imediatamente com os olhos arregalados, chocada com a audácia da minha nova esposa em peitar o nosso maior investidor. Eu, por outro lado, fiquei paralisado, assistindo àquela cena com uma mistura de choque e um respeito involuntário que começava a queimar no meu peito. Enquanto o clima ficava sufocante, vi que a irmã mais velha de Mabel se levantou na mesma hora, com uma expressão decidida, e foi atrás para intervir antes que a situação explodisse de vez.






