Mundo de ficçãoIniciar sessãoPRIMEIRA FATIA DO BOLO
Pego a mão de Mabel com firmeza, mas sem agressividade, tentando transmitir uma segurança que nem eu mesmo sentia naquele instante de caos velado. Sinto a pele dela fria contra a minha, uma reação nítida da tensão que acabara de se instalar entre nós por causa da presença audaciosa daquela atriz. Olho diretamente em seus olhos, tentando decifrar o turbilhão que passa pela mente da minha esposa de contrato, e indico o caminho com um aceno sutil. — Vamos sentar na nossa mesa — digo, a voz baixa e controlada, adotando o tom de quem precisa assumir as rédeas da situação antes que os olhares curiosos dos convidados percebam a nossa rachadura. Mabel não se move imediatamente; ela recua o corpo de leve, fixando o olhar no meu com uma intensidade que me desarma por um breve segundo. Há uma mágoa legítima misturada com o orgulho ferido em sua expressão, e ela não faz questão nenhuma de esconder o que está sentindo, mesmo sabendo que estamos cercados por centenas de lentes prontas para nos julgar. — Olha, tudo bem que esse casamento é um casamento de fachada — ela diz, a voz saindo em um sussurro cortante, carregado de uma dignidade que me impressiona. — Mas, por favor... Essa é a única vez que eu vou me casar na igreja. O sonho de toda mulher é ter um casamento perfeito, por mais que seja falso. Não deixa que ninguém estrague esse momento. As palavras dela ecoam no meu peito com o peso de uma acusação justa, fazendo com que eu engula em seco diante daquela honestidade crua. Eu esperava uma mulher assustada com o mundo da alta sociedade, mas Mabel se mostrava gigante, defendendo o próprio momento com unhas e dentes, exigindo o respeito que a situação pedia. — Ok — respondo, suavizando o aperto em seus dedos e assentindo com a cabeça em um pacto silencioso de trégua. Ela respira fundo, ajeitando a postura com elegância, e me encara com uma determinação renovada, mudando o rumo do protocolo que meu pai havia tentado impor segundos atrás. — Agora eu gostaria de que você me levasse para dançar, vamos para a nossa primeira dança antes de nós sentarmos — ela determina, erguendo o queixo com imponência enquanto olha para o salão. — Os noivos precisam fazer a sua primeira dança, abrir a pista. E depois vamos partir o bolo, e assim nós fazemos. Caminhamos juntos em direção ao centro do salão sob os aplausos calorosos e os flashes incessantes da elite que nos cercava, fingindo uma perfeição que estava longe de ser real. Envolvo a cintura de Mabel e iniciamos a coreografia da nossa primeira dança, os movimentos fluidos ocultando a enorme distância que existia entre os nossos mundos. No entanto, a leveza com que ela se conduz na pista me faz esquecer, por alguns minutos, o peso do contrato que nos une. Assim que a música termina, guiados pelos aplausos e pela coreografia impecável da assessoria de eventos, caminhamos diretamente para a mesa do bolo monumental. Erguemos a espátula de prata juntos, nossas mãos se tocando diante das câmeras, e partimos a primeira fatia daquela obra de arte de açúcar, cumprindo o roteiro esperado. O que acontece a seguir, contudo, foge completamente de qualquer script que minha família ou os assessores tenham planejado para aquela noite. Em vez de servir a mim, a meu pai ou a algum investidor influente como manda a etiqueta interesseira da nossa classe, Mabel pega o prato com a primeira fatia de bolo e caminha decidida pelo salão. Eu a sigo com o olhar, confuso e tenso, vendo-a se dirigir a uma mesa estrategicamente posicionada bem próxima à mesa dos noivos. Ali, estão sentados um casal de idosos afrodescendentes; o senhor, com cabelos brancos e marcas de uma vida inteira de trabalho no rosto, está acomodado em uma cadeira de rodas adaptada. Mabel se aproxima deles e se inclina com uma leveza e um carinho tão intensos, tão genuínos, que sinto um nó estranho se apertar na minha garganta. A forma como ela sorri para o idoso, segurando a mão dele antes de entregar o prato, transborda uma humanidade que há muito tempo eu não via em nosso meio social. Aquela cena crua de afeto real, no meio de tanta falsidade e interesse financeiro, chega a me emocionar de verdade — se é que eu ainda tenho um coração capaz de ficar emocionado com alguma coisa. Ao lado do casal, uma jovem com traços belíssimos e um sorriso radiante observa a cena com os olhos brilhando de orgulho, demonstrando uma cumplicidade profunda com a noiva. Mabel se vira para ela com enorme intimidade e entrega um segundo pedaço de bolo, compartilhando uma risada baixa e calorosa que parece isolar os três de todo o resto do salão luxuoso. Imediatamente, a curiosidade misturada com o incômodo me domina, e eu me viro para a cerimonialista que nos acompanha de perto com a prancheta nas mãos, exigindo respostas.






