####CAPÍTULO 02

A PERGUNTA INDISCRETA

Saí da igreja ainda atordoada, sentindo o peso do véu arrastar meus pensamentos para um abismo de incertezas. Tudo acontecia rápido demais, uma engrenagem violenta que não me dava tempo para respirar ou processar a realidade. Uma chuva intensa de arroz caía sobre nós, ricocheteando no tecido fino sobre meu rosto, nos meus ombros tensos e no chão de pedra fria. Os flashes dos fotógrafos explodiam sem trégua, cegando meus olhos e criando um barulho ensurdecedor que parecia ecoar dentro do meu peito, esmagando meus batimentos.

Era como estar no centro de um espetáculo grotesco, onde as luzes apontavam para mim, mas eu não passava de uma intrusa. Eu olhava para os lados e não conseguia discernir se era a noiva legítima daquela noite ou apenas um pedaço do cenário montado para salvar as aparências de uma dinastia. Foi exatamente nesse instante de vulnerabilidade que uma voz se destacou acima de todo o tumulto da imprensa, cortando o ar como uma lâmina afiada e cruel.

— Evander, você se casou para sempre ou isso é só mais um entretenimento na sua vida?

Senti meu corpo enrijecer imediatamente, como se o sangue tivesse congelado em minhas veias com a crueza daquela pergunta. Um homem avançava de forma agressiva com o microfone esticado na nossa direção, tão perto que a ponta do metal quase tocou meu véu, que tremulava com o movimento brusco do vento e do empurrão. O questionamento pairou no ar, atraindo outros repórteres que seguiram o exemplo, levantando as vozes e disparando perguntas invasivas, famintas por qualquer migalha de escândalo.

Meu coração disparou contra as minhas costelas, gerando um pânico silencioso que me paralisou por completo. Mas Evander, ao meu lado, não vacilou por um único segundo; ele simplesmente ignorou a audácia do jornalista com uma frieza impecável e assustadora. Mantenho os passos firmes e o queixo erguido, caminhando como se aquele caos ensurdecedor não passasse de um ruído distante e insignificante. Seus dedos envolveram os meus com uma segurança esmagadora, guiando-me sem hesitação pelo meio da multidão sedenta.

Ao nosso lado, o pai dele caminhava com uma expressão dura, os lábios cerrados em uma linha rígida e os olhos carregados de uma ameaça silenciosa que afastava os mais ousados. Bastava a presença imponente daquele homem para abrir caminho entre os repórteres, impondo um respeito quase medieval sem precisar dizer uma única palavra. Eu, por outro lado, me sentia completamente desprotegida, assimilando cada olhar torto, cada julgamento velado e cada dúvida que era lançada sobre minhas costas.

Entramos no carro luxuoso e o estofado de couro nos acolheu enquanto a porta se fechava, silenciando o mundo exterior instantaneamente. O isolamento acústico do veículo trouxe um sossego repentino, mas o eco daquela pergunta maldita continuava martelando e quebrando a minha paz mental. Para sempre ou só mais um entretenimento? A frase parecia definir perfeitamente a corda bamba onde eu pisava, e a humilhação pública me impediu de ter coragem para olhar na direção dele.

Seguimos direto para a recepção, o que significava entrar na segunda parte daquela encenação perfeitamente coreografada pelos assessores e familiares. E no fundo do meu ser, eu sabia que aquele salão de festas seria o cenário mais perigoso para a minha sanidade mental. O espaço era ainda mais impressionante e intimidador do que eu havia imaginado nos meus piores pesadelos: gigantesco, impecável e profundamente sufocante.

Milhares de flores brancas decoravam cada canto do ambiente, exalando um perfume adocicado que tentava forçar uma pureza que eu já não sentia em mim mesma. Lustres enormes de cristal lançavam uma luz dourada sobre os convidados impecavelmente vestidos, que sorriam com dentes perfeitos, observando nossos passos e prontos para destilar julgamentos. Era um desfile interminável de cumprimentos vazios, abraços calculados que não aqueciam e sorrisos ensaiados unicamente para agradar às lentes das câmeras.

Taças de champanhe circulavam sem parar entre os garçons, refletindo o brilho falso daquela elite que parecia se alimentar exclusivamente de aparências e mentiras. E eu, por ironia do destino, fazia parte daquilo agora, ou ao menos precisava fingir que pertencia àquele universo paralelo para sobreviver à noite. Foi então que algo, ou melhor, a silhueta de alguém específico, chamou minha atenção do outro lado do salão de forma magnética.

Meu olhar percorreu o ambiente quase por instinto, fugindo das conversas banais, até congelar completamente em um ponto fixo perto dos arranjos principais. O ar fugiu dos meus pulmões e a minha mente gritou em negação; não podia ser real, o destino não seria tão cruel comigo em meu próprio casamento. Mas a visão não mentia: era ela, a atriz que havia virado nossas vidas de cabeça para baixo com as notícias de tabloide.

A mesma mulher que havia causado todo o escândalo inicial, arrastando o meu nome e o de Evander para o centro de uma tempestade midiática implacável, estava ali. Ela caminhava livremente entre os convidados da alta sociedade, exibindo-se de forma elegante, confiante e com uma postura de quem pertencia legitimamente àquele lugar. A naturalidade dela indicava que ela não tinha medo, agindo como se tivesse sido convidada especial para a nossa ruína.

Um arrepio gelado percorreu toda a minha espinha, e a minha respiração ficou presa na garganta enquanto a raiva começava a substituir o medo. A realidade da farsa em que eu estava envolvida começou a rachar bem diante dos meus olhos, revelando as mentiras subjacentes. Como aquela mulher conseguiu entrar em uma festa com segurança privada rigorosa e convidados escolhidos a dedo? Aquilo simplesmente não fazia sentido, a menos que houvesse traição.

Esperei o momento certo, um pequeno intervalo em que nos afastamos dos olhares mais atentos dos fotógrafos e dos parentes, para confrontá-lo. Virei-me para Evander, sentindo a tensão pulsar em cada fibra do meu ser e a indignação transbordar pelos meus poros. Inclinei-me levemente em sua direção para que ninguém ao redor pudesse nos ouvir, deixando minha voz sair baixa, mas carregada de uma amargura que eu já não conseguia esconder.

— Foi você que convidou sua atriz escandalosa?

Ergui as sobrancelhas em um desafio silencioso, encarando-o diretamente nos olhos, deixando claro que não havia mais espaço para máscaras ou respostas evasivas entre nós. Ele reagiu na mesma hora, demonstrando que a pergunta havia atingido um ponto sensível de seu orgulho. Seu maxilar travou perceptivelmente e o traço de ironia que costumava habitar seu rosto desapareceu, dando lugar a uma irritação crua e perigosa.

Seus olhos escureceram de uma forma que me fez recuar mentalmente, revelando a tempestade que ele tentava conter sob o terno sob medida.

— Lógico que não — a voz dele saiu extremamente baixa, controlada pelo autocuidado, mas pesada com uma tensão que ameaçava explodir. — Essa mulher armou um escândalo que praticamente forçou esse casamento acontecer. Você realmente acha que eu daria a ela mais palco para me destruir?

Senti meu coração apertar diante da veemência de suas palavras, dividida entre acreditar no homem com quem acabei de me casar ou nas minhas desconfianças. Ele continuou a falar, o tom ainda mais duro e impessoal, destilando um desprezo profundo pela figura que sorria distante.

— Nunca tive nada com ela. Essa golpista inventou uma gravidez que nunca existiu só para chamar a atenção da mídia e tentar arrancar dinheiro da minha empresa.

Desviei o meu olhar por um segundo, o suficiente para encontrá-la novamente do outro lado do salão de festas, parecendo alheia ao nosso desespero. Ela parecia tão calma e segura de si, conversando com empresários renomados como se tivesse a certeza absoluta de que o seu lugar de direito era ali.

— Mas ela está aqui… bem na nossa frente nos provocando — rebati em um sussurro firme, cobrando uma atitude dele diante daquela audácia sem limites.

Por um instante, fiquei observando as reações detalhadas de Evander, tentando ler as entrelinhas de suas feições rígidas. Havia convicção legítima em sua voz e uma raiva que parecia real, mas também notei uma sombra de algo mais profundo que eu ainda não conseguia decifrar. Senti que a verdade por trás daquele jogo de interesses era muito mais distorcida e perigosa do que qualquer manchete de jornal jamais conseguiu mostrar.

— Vou mandar tirarem ela daqui imediatamente pelos fundos — ele disse, a postura rígida e a decisão tomada para conter o dano antes que os fotógrafos notassem. — Ela já está respondendo a um processo judicial severo que vai acabar com qualquer plano financeiro que ela tenha contra mim.

Os dedos dele apertaram meu braço com uma firmeza repentina, forte o suficiente para me prender à realidade e me impedir de fazer uma cena. Era um toque que servia tanto para me acalmar quanto para me lembrar rigidamente do papel de esposa perfeita que eu deveria desempenhar naquela noite.

— Ela só quer causar mais confusão pública e prejudicar os negócios da minha família com essa aparição surpresa.

E, tão rápido quanto a tensão sufocante surgiu entre nós dois, ele simplesmente mudou de assunto ao ver um investidor se aproximar com um sorriso. Evander agiu como se o problema já estivesse resolvido e como se aquela presença não pudesse destruir a nossa farsa a qualquer momento. Mas por dentro, meu estômago continuava revirando com o pressentimento terrível de que aquilo era apenas o começo de uma guerra muito maior.

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