A OUTRA: A NOIVA TROCADA
A OUTRA: A NOIVA TROCADA
Por: Tônia Fernandes
####CAPÍTULO 01

AS DÚVIDAS

Quando aceitei assinar o contrato de casamento com o senhor Evander, a negociação foi feita diretamente com Dona Margot.

Eu nunca imaginei que ficaria tão nervosa ao ponto de sentir meu peito bater como se fosse um tambor, uma pulsação descontrolada que parece ecoar pelas paredes luxuosas daquele quarto de preparação.

— Meu Deus, eles estão organizando um casamento faraônico, quando que eu imaginei que eu iria me casar e toda a sociedade de New York estaria presente em um casamento de fachada.

O pior de tudo é que meu estômago está revirando em um nó apertado e doloroso, gerando uma queimação que me impede até mesmo de respirar direito. Eu não conheço o noivo, nunca o vi pessoalmente na minha vida, sabendo de sua existência apenas através das colunas sociais e fofocas, e por sinal terríveis.

Como eu vou conseguir ter um filho com esse homem? Ele vive cercado pelas mulheres mais belas de todo o mundo! Sendo o playboy que ele é, acostumado ao luxo e a ter a mulher que ele quer, ele não vai nem olhar para mim, uma garota simplória que cresceu em um orfanato.

Mas eu assinei o contrato, não foi? A dona Margot está contando comigo, não é? Então eu deixei bem claro com a dona Margot: a criança fica comigo, eu educo, ele não precisa me dar dinheiro, basta me dar a floricultura que é o meu sonho, o resto eu me viro.

Uma batida forte na porta do quarto que era de Bettina, a verdadeira noiva, interrompe a minha linha de pensamento. A voz do senhor Peter vem do outro lado trazendo uma urgência fria que faz meu corpo inteiro enrijecer diante do espelho.

— Vamos, Bettina, está na hora do seu casamento.

Olho-me no espelho e vejo meus cabelos arrumados, tudo impecável sob a luz do aposento, e baixo o véu sobre o meu rosto para esconder a farsa. Abro a porta, dou a mão para ele sem falar nada e saímos dali em um silêncio pesado e carregado de segredos.

Descemos as escadas e vamos direto para a igreja, entrando no veículo de luxo onde o confinamento torna o ambiente ainda mais sufocante. Ainda bem que a igreja não é tão distante da mansão deles, mas o trajeto se transforma em uma tortura ambulante com as informações que o senhor Peter vem me dando para eu decorar.

— Você é Bettina, tem vinte e um anos de idade, cursou Design de Moda, fala três idiomas, francês, espanhol e italiano, além do inglês. E não se esqueça, você vai ter que dar um herdeiro para o Evander, você sabe disso, está no contrato que você assinou conosco.

Não fale. Me viro para ele no banco do carro e pergunto, deixando que a minha indignação finalmente rompa aquela barreira de submissão forçada.

— Só tem uma coisa, senhor Peter, eu não sei falar três idiomas, mal falo o inglês, eu assinei o contrato sim, mas e se ele vier falar comigo nesses idiomas, como eu vou me virar?

Aproveito o embalo do meu próprio desespero e continuo o questionamento, encarando a figura rígida do homem ao meu lado.

— E se ele não me procurar? Porque ele é um playboy, ele é um homem que tem a mulher que ele quiser.

Ele me olha com uma carranca, mantendo o olhar fixo nos meus olhos, e me fala com uma indiferença cortante que me atinge como um tapa.

— Ele vai te procurar porque ele tem obrigação de gerar um herdeiro.

— Ah, então tá bom, quer dizer que eu sou uma reprodutora, é só isso? — rebato, sentindo o gosto amargo da humilhação. — Para ele eu sou uma reprodutora, para vocês eu sou a salvação das empresas de vocês.

— Não, você não é só uma reprodutora, você é a pessoa que apareceu no momento de desespero da nossa família — ele responde, tentando suavizar o peso das próprias palavras. — Sabemos que você é a Mabel e que você não tem nada a ver com Bettina.

— Ah, tá bom, mas vocês estão cometendo um crime — insisto, apontando o dedo para a realidade sombria do que estamos prestes a consolidar. — Se eu me casar com ele e assinar o nome da filha de vocês, eu vou estar cometendo um crime também e eu posso ir presa, por que isso?

Peter me olha em choque, tentando processar essa informação enquanto o motorista manobra o carro suavemente pelas ruas que nos levam ao altar. Ele respira fundo antes de revelar o segredo que vinha guardando.

— Quando você assinou o contrato, nós te adotamos, então você também é nossa filha.

Fico imóvel no banco, assimilando o impacto daquela revelação enquanto o contorno da igreja gigantesca começa a surgir através dos vidros do automóvel.

— O que quer dizer com isso?

— O que você vai alegar é que você gosta de ser chamada de Mabel. O padre vai citar o nome de Mabel, quem vai casar com ele não é Bettina, então não se preocupe.

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