Mundo de ficçãoIniciar sessão
A cidade brilhava como se nada no mundo fosse capaz de quebrar aquele tipo de noite.
Lívia Azevedo observava as luzes do salão refletidas nas taças de cristal, nos metais dourados, nos espelhos altos que duplicavam a riqueza ao redor. Havia flores brancas por todo canto — lírios, rosas, peônias — como se o luxo pudesse purificar o que estava prestes a acontecer.
Ela inspirou devagar, tentando controlar o coração que batia acelerado demais. Não era nervosismo comum. Era uma sensação estranha, um pressentimento que vinha e voltava desde a manhã, como um aviso silencioso.
— Tá tudo bem? — perguntou Camila, sua melhor amiga, ajeitando o véu com cuidado.
Lívia sorriu, mas o sorriso pareceu mais fino do que deveria.
— Tá… — respondeu, e a própria voz soou distante. — Só… parece que eu tô sonhando.
Camila fez uma careta emocionada.
— Você tá linda. E você merece isso. Merece ser feliz. — Ela apertou os dedos de Lívia, como se quisesse transmitir força. — Eduardo te ama. Vai dar tudo certo.
Eduardo.
O nome atravessou a mente de Lívia como uma promessa. Eduardo Brandão era o homem que, por anos, a fez acreditar que amor era abrigo. Que ela tinha, finalmente, encontrado alguém disposto a escolhê-la… mesmo sendo quem ela era: sem sobrenome importante, sem família influente, sem dinheiro antigo.
Ela se olhou no espelho, por um instante, como se buscasse confirmação de que era real.
O vestido tinha caimento perfeito, a renda abraçava seus ombros e descia como se tivesse sido desenhada para a pele dela. A maquiagem estava impecável, o penteado firme, os brincos brilhando.
Ela parecia… uma noiva digna.
Mas o mundo dos Brandão nunca foi um mundo onde dignidade bastava.
Lívia soube disso desde o primeiro jantar em família.
A mãe de Eduardo, Helena Brandão, nunca precisou levantar a voz para dizer o que pensava: fazia isso com o silêncio, com o olhar calculado, com o sorriso que não chegava aos olhos. O pai, Augusto, era o tipo de homem que não enxergava pessoas — enxergava utilidade. E os irmãos… os irmãos tinham aquele ar de quem cresceu aprendendo que certas pessoas existiam apenas para servir.
Ainda assim, Eduardo a defendia.
No começo.
Lívia engoliu em seco, lembrando da mensagem que ele havia enviado horas antes, ainda pela manhã.
“Vai ser a nossa noite. Só nossa. Eu prometo.”
Ela se segurou nessa frase o dia inteiro como se fosse uma corda para não despencar.
— Vamos? — Camila perguntou, já ouvindo o burburinho do lado de fora, as pessoas sendo acomodadas.
Lívia assentiu.
O coordenador do evento abriu a porta, e o som do salão invadiu o cômodo — risadas, conversas, o piano ao fundo. Quando Lívia deu o primeiro passo, sentiu a textura do tapete macio sob seus pés e o peso do vestido acompanhando cada movimento.
O pai dela não estava ali para conduzi-la.
Nem mãe.
Lívia não tinha ninguém além de Camila e alguns poucos amigos que, mesmo assim, olhavam aquele casamento como se fosse um filme que não lhes pertencesse. Ela era a protagonista improvável de um conto de fadas moderno.
E, naquele mundo, contos de fadas sempre tinham preço.
A música começou.
A porta dupla se abriu por completo.
O salão inteiro se virou.
Lívia caminhou.
E, por um segundo, ela acreditou. Acreditou mesmo que tudo aquilo era dela.
Eduardo estava lá na frente, de terno escuro, postura impecável, o rosto bonito como sempre, mas… havia algo errado. Um detalhe sutil. Um músculo tensionado na mandíbula. O olhar que evitava o dela por segundos longos demais.
Lívia sentiu o gelo na espinha.
Ainda assim, continuou caminhando.
Porque ele prometeu.
Porque ele sempre prometia.
O que ela não viu foi a movimentação discreta nas primeiras fileiras. Os Brandão cochichando. A mãe de Eduardo segurando uma expressão rígida demais para ser emoção. O pai mexendo no relógio, impaciente. Um dos irmãos — Rafael — sorrindo como se soubesse de algo que o resto ainda não sabia.
O passo de Lívia desacelerou quando chegou perto do altar improvisado com flores e velas.
Eduardo finalmente a encarou.
E naquele olhar não havia amor.
Havia medo.
Lívia tentou sorrir, tentando atravessar a estranheza.
— Você tá bem? — sussurrou, quando chegou perto o suficiente.
Eduardo não respondeu de imediato.
O celebrante pigarreou. O salão silenciou.
E então Eduardo respirou fundo como se estivesse prestes a arrancar algo do próprio peito.
— Eu… — ele começou, e a voz saiu baixa, rouca.
Lívia segurou a mão dele. Queria ser âncora.
Eduardo recuou.
O gesto foi pequeno, mas foi como um tapa.
Lívia congelou.
— Eduardo…?
Ele olhou para os convidados. Para a mãe. Para o pai. Para o conselho de olhares que o pressionavam. Depois voltou para Lívia com uma expressão que ela nunca tinha visto antes.
Uma expressão de alguém que já tomou uma decisão… e que sabe que vai destruir alguém.
— Não dá. — Ele disse.
As palavras caíram no salão como um objeto pesado.
Por um instante, ninguém entendeu. Nem Lívia.
— O quê…? — a voz dela falhou. — Como assim não dá?
Eduardo apertou o maxilar, e quando falou novamente, o tom tinha algo pior do que frieza.
Tinha justificativa.
— Eu não posso me casar com você.
Lívia sentiu o sangue sumir do rosto.
O salão começou a murmurar.
Camila deu um passo à frente, indignada.
— Você tá louco? Isso é brincadeira?
Eduardo não olhou para Camila. Olhou só para Lívia.
— Eu tentei. Eu juro que tentei. Mas… eu não posso fazer isso com a minha família.
O ar deixou os pulmões de Lívia como se alguém tivesse esmagado seu peito.
— Com a sua família? — ela repetiu, como se não conseguisse entender. — E eu? E tudo o que você disse?
Eduardo desviou o olhar por um segundo.
— Você não entende, Lívia. Você nunca entendeu.
A frase foi cruel porque era falsa.
Lívia entendeu tudo por tempo demais.
Entendeu cada silêncio no jantar, cada comentário velado, cada “você é tão… simples” disfarçado de elogio. Entendeu que naquele mundo ela era um erro bonito — até deixar de ser conveniente.
O celebrante tentou intervir, desconfortável.
— Senhor Eduardo, se há algum problema, podemos…
— Não. — Eduardo cortou. E então, para que todos ouvissem, ele disse: — Eu não vou assinar esse casamento.
Lívia piscou, atordoada.
— Assinar…? — ela sussurrou. — Você tá falando como se isso fosse um contrato.
Os olhos de Eduardo escureceram.
— Porque é. — Ele respondeu, e a frieza daquela palavra fez o salão inteiro se calar de novo. — Um contrato que eu quase estraguei.
A mão de Lívia tremeu.
— Você… me trouxe até aqui… me fez passar por isso… pra me dizer isso agora?
Eduardo finalmente baixou a voz, mas era tarde.
— Foi o que eu pude fazer.
Lívia riu — um som sem humor, quase quebrado.
— O que você pôde fazer? Eduardo, você tinha mil escolhas. Mil maneiras de não me destruir.
Ele fechou os olhos por um instante, como se quisesse se convencer de que não era o vilão.
— Eu não sou o cara ruim dessa história.
Lívia olhou para ele, e sentiu uma espécie de claridade amarga.
— Não… — ela murmurou. — Você só escolheu ser.
Eduardo ficou imóvel.
E então a mãe dele se levantou.
Helena Brandão caminhou até o altar com a elegância de quem sempre soube que o mundo se curvaria. Parou ao lado do filho e encarou Lívia como se ela fosse poeira.
— Chega. — ela disse, doce demais para ser gentileza. — Isso já foi longe demais.
Lívia sentiu o corpo inteiro endurecer.
— A senhora… sabia?
Helena sorriu.
— Eu sempre soube. E eu avisei. — Ela virou o rosto para Eduardo. — Você fez o que tinha que fazer. Agora acaba com isso.
O mundo girou.
Lívia percebeu o verdadeiro palco: não era o altar. Era ela. Um espetáculo.
Alguns convidados cochichavam, outros filmavam discretamente. Camila estava com os olhos cheios de lágrimas, segurando a raiva.
Lívia sentiu o rosto queimar.
E, ainda assim, não chorou.
Porque chorar ali seria dar a eles a última vitória.
Ela soltou as mãos, lentamente, como se estivesse se libertando de uma corrente.
Olhou para Eduardo uma última vez.
— Você me prometeu o mundo. — A voz dela saiu firme, firme demais para alguém que estava desmoronando por dentro. — E me entregou a humilhação.
Eduardo engoliu em seco.
— Lívia…
Ela deu um passo para trás.
— Não me chama. — E respirou, segurando a dor na garganta como se fosse vidro. — Você não tem esse direito.
Ela se virou.
O caminho de volta parecia mais longo do que o corredor inteiro.
Mas Lívia caminhou.
Cabeça erguida.
Passo firme.
E quando atravessou a porta dupla e o som do salão ficou para trás, foi só então que ela sentiu o peso real do que tinha acontecido.
As pernas falharam por um segundo.
Camila a segurou.
— Lívia… meu Deus… — Camila estava chorando. — Eu vou matar esse desgraçado.
Lívia fechou os olhos.
O peito doía como se estivesse sendo esmagado por dentro. Mas ela respirou fundo, uma vez, duas, três.
E quando abriu os olhos, havia uma decisão silenciosa ali.
Não era vingança ainda.
Era algo anterior.
Era sobrevivência.
— Me tira daqui. — ela pediu, com a voz baixa e firme. — Agora.
Camila assentiu, e as duas começaram a andar rápido pelo corredor lateral.
Atrás delas, o salão continuava. As conversas voltavam, a música retomava, como se o mundo tivesse apenas assistido a um show e agora seguisse para o próximo ato.
E Lívia… Lívia sentiu algo quebrar.
Não foi o coração.
Foi a ingenuidade.
A porta de serviço se abriu para o estacionamento.
O ar frio da noite bateu no rosto dela.
E, quando entrou no carro, Lívia finalmente permitiu que uma única lágrima escorresse — silenciosa, contida.
Não por ele.
Mas por ela.
Pela mulher que acreditou.
Pela mulher que se diminuiu.
Pela mulher que implorou por um lugar onde nunca caberia.
Camila entrou no banco do motorista, tremendo de raiva.
— Pra onde? — perguntou, com a voz quebrada.
Lívia olhou para frente, para o vazio.
E respondeu como se estivesse falando para si mesma:
— Pra longe.
E, enquanto o carro arrancava, o mundo dos Brandão ficava para trás.
Mas aquela noite…
Aquela noite não tinha acabado.
Ela só tinha começado a cobrar o preço.







