Mundo ficciónIniciar sesión***Lucca Schutz***
Não vi mais aquela vizinha pessoalmente, apenas o barulho daqueles chaveiros barulhentos dela, e para o meu desespero o Treu levantava a cabeça toda vez que ela chegava ou saía, mas era questão de tempo até ele esquecer, pelo menos assim eu espero.
Mesmo frequentando a empresa no horário comercial, já consegui ativar a minha lista de contatos e me divertir nesse tempo aqui em Londrina, o problema está sendo o Treu que resolveu não aceitar as minhas visitas.
Esse cachorro só pode ter endoidado aqui em Londrina, ele nunca me deu trabalho com isso, na verdade, até me ajudava com as garotas e agora isso, não as aceitas de forma alguma.
Resultado, tenho que prender ele no quarto quando recebo alguma mulher, mas o que me tira completamente mesmo do sério é que ele não pode escutar aquele barulho infernal dos chaveiros daquela nanica que ele quer ir atrás dela.
Ele nunca se comportou desta forma e sinceramente não sei como reagir a isso agora, mas ficar o trancando no quarto não está mais tão viável assim, já que ele sempre desconta a sua frustração mijando e cagando por todo o quarto.
— Nem inventa Treu, ela não é legal — repito sempre para ele que deita no mesmo lugar virando de costas como forma de demonstrar a sua birra.
A minha única resposta a este comportamento é suspirar fundo e seguir com o que estou fazendo, mesmo não querendo admitir estou ficando preocupado com esse seu comportamento.
Hoje o tempo está de chuva ao ponto de escurecer o tempo, o Treu está de plantão na porta desde cedo, que por coincidência ou não, foi o mesmo tempo que a nanica saiu. Ele não saiu da porta nem mesmo para comer ou beber água.
Esse comportamento já está começando a me preocupar, ele nunca foi obcecado seja por outro animal ou outra pessoa, na verdade, nem por mim ele foi tão obcecado assim. Quando a chuva começa a aumentar, a energia oscila até o ponto de acabar de vez, o Treu começa a choramingar e arranhar a porta. Nem deu tempo de abrir, ele já saiu correndo para as escadas em meio à escuridão.
Na hora nem pensei e sai correndo atrás dele, pelo andar estar completamente escuro o via somente quando o raio caia lá fora, parei ao seu lado esperando a sua próxima reação.
— O que tanto espera aqui? Vamos para dentro — o Treu resmunga em resposta e quando vou puxar, o escuto choramingar enquanto eu volto a suspirar sem saber o que fazer.
Escuto passos lentos, na verdade, pareciam mais medrosos do que qualquer coisa, até o momento não faço ideia de quem seja, mas estou me divertindo com isso, afinal quem tem medo de uma chuva? Que absurdo… No momento seguinte um raio seguido de um estrondo alto acontece e vejo a nanica soltar um grito e tentar correr.
Tudo acontece muito rápido, o seu grito e a sua tentativa de correr, mas ao levantar o seu olhar e me ver no começo do corredor ela paralisa e começa dar alguns passos para trás, o que ela tem na cabeça? Dar passos para trás em uma escada?
Tenho tempo apenas de correr até ela e segurar pela roupa para evitar que ela caia, mas ao invés de me agradecer essa louca começa a gritar mais ainda e a me empurrar, mas se eu a soltar ela irá cair e se machucar feio.
Escuto o Treu latir e nesse momento ela olha nos meus olhos desmaiando em seguida, ela está encharcada, era nítido o seu pânico pela situação, mas o medo não era de qualquer pessoa, por incrível que pareça eu também senti o medo dela mesmo sem entender.
Ela não estava acompanhada pelo rato hoje, o que facilitou a minha vida. A pego no colo e sem outra opção a levo para o meu apartamento, vejo o Treu me acompanhar sem precisar de nenhum comando… Agora ele resolveu se comportar, inacreditável.
Mesmo no escuro me vejo parado no meio do apartamento com ela apagada nos meus braços, era a primeira vez que não sabia o que fazer com uma mulher. Respiro fundo decidindo se a levo para o quarto ou se a deixo ali no sofá, mas também preciso dar um jeito nessas roupas molhadas.
— O que eu fiz na vida passada hein? — o Treu apenas resmunga em resposta me fazendo rir — Vou cuidar dela, não se preocupe — ele se senta olhando para a nanica, que está deitada no meu sofá enquanto vou pegar algumas toalhas.
Não demorei para retornar com duas toalhas, uma enrolei nos seus cabelos que até o momento não me lembrava de serem tão longos. E com outra vou secando o seu corpo tentando ao máximo não a tocar, vejo o Treu ir até o meu quarto e voltar com o meu edredom na boca.
— Está brincando né? O meu edredom? Me conta Treu quando foi que cuidou de mim assim? — ele me solta o edredom em cima dela e me empurra com o focinho — Não acredito nisso, o que tanto gosta nela? É por causa dela que você não me ajuda mais? Treu me fala o que ela fez com você? — a única resposta que tenho dele foi ele encostar a sua cabeça nas pernas dela depois que a cobri.
A chuva já tinha amenizado e com isso a energia também voltou, mas nada dela acordar. Não queria admitir, mas estava ficando preocupado, a olhava sentado no outro sofá, mas ao observar a sua expressão começar a mudar o meu corpo se move sozinho até ela.
— Está a salvo — a minha voz era tão suave e calma que por um momento me questionei se estava no controle do meu próprio corpo.
— Saí… Socorro… — ela finalmente começa a dar sinal que vai acordar, a sua voz era somente um sussurro, mas esse sussurro era de medo, aos poucos ela foi abrindo os olhos, mas assim que ela me reconhece dá um grito me empurrando para trás.
— Calma… — digo ainda sentado no chão, mas mantenho as minhas mãos no alto para ela ver, a respiração dela estava acelerada, ela realmente estava em pânico e agora eu realmente estava muito mais que preocupado e comecei a entender o que o Treu estava sentindo — Eu te encontrei na escada, você desmaiou e eu te trouxe aqui.
— Você o quê? — ela olha ao redor se levantando de uma vez e depois olha o seu corpo que já estava quase seco — Você me tocou? — ela dá uns passos na minha direção e consigo apenas engatinhar para trás, vejo o Treu entrar na minha frente em forma de defesa, mas ao invés de rosnar ou latir ele apenas ficou choramingando e ela para os movimentos olhando para ele — Você não o deixou fazer nada estúpido? — ela se abaixa falando com o MEU cachorro que agora está completamente rendido a ela.
— Não te toquei, apenas sequei o seu cabelo, os braços e os pés, o restante secou em seu corpo e no edredom — Aponto para o sofá onde ela estava até agora pouco enquanto o seu olhar me acompanha ainda em dúvida.
— Hum… — ela estava se acalmando, mas não me atrevi a levantar, vai que ela desmaia novamente, não quero ser indiciado a nada.
— O que você tem na cabeça de sair em uma chuva daquela?
— Não é da sua conta — ela simplesmente pega a sua bolsa e vai saindo do apartamento, mas trava na porta.
— Está tudo bem? — deveria estar perguntando ou preocupado? Não, ainda mais depois da resposta que ela me deu, mas as palavras saem em controle da minha boca.
— Você viu alguém me seguindo ou atrás de mim?
— Não, você estava sozinha, desmaiou apenas quando conseguiu me reconhecer.
— Pode abrir a porta e ver se tem alguém no corredor? — a sua voz vacilava, normalmente eu teria a irritado, mas dessa vez não consegui, na verdade, queria apenas que ela voltasse a sorrir assim como ela estava enquanto estava falando com o meu cachorro.
— Claro.
Me levanto e vou até a porta a abrindo e saindo primeiro, ela fica paralisada ainda alguns passos dentro do meu apartamento, tento abrir a sua porta para mostrar que está trancada e a vejo dar um passo para frente.
— Me dá a chave — ela me olha como se eu fosse um extraterrestre — Para ver se tem alguém.
Foi agora que percebo que ela ainda está tremendo, ela pega a chave cheio daqueles chaveiros barulhentos dela e o Treu para ao seu lado, relutante ela me entrega a chave.
Não demoro em abrir a porta e vejo o rato correr para ela que em questão de segundos já está no seu colo, entro acendendo as luzes e realmente verificando se não tem ninguém, afinal é melhor prevenir.
— Não tem ninguém… — nem terminei de falar, ela corre para dentro e fecha a porta na minha cara me deixando sem nem um obrigada do lado de fora “Abusada…”
Chamo o Treu para dentro, mas ele novamente trava ali na porta olhando para onde a nanica entrou, aproveito e volto nas escadas para ver se ela não deixou cair nada durante o desmaio, mas não encontrei nada.
Não sei descrever ou identificar o que eu senti, mas não era nada legal. No fundo, acredito que queria encontrar alguma coisa ali nas escadas apenas para ter a desculpa de bater na sua porta.
— O que eu estou pensando? — resmungo comigo mesmo e volto para dentro arrastando o Treu junto comigo.







