####CAPÍTULO 01

QUANDO TUDO COMEÇOU

VINCENT SPENCER

Era uma prática comum para mim agendar almoços de negócios no restaurante situado em um dos meus hotéis.

—Essa estratégia funcionava como um diretor de teatro que assiste ao espetáculo do fundo da plateia, permitindo-me observar atentamente o funcionamento do local sem chamar muita atenção.

Eu conseguia perceber as interações entre os funcionários e os clientes, o andamento do serviço, e se o padrão de qualidade que exigia estava sendo mantido.

—Naquele dia, estava acompanhado por três empresários para discutir uma possível parceria.

A conversa fluía com seriedade, mas de forma descontraída, como uma reunião de mentes criativas em busca de soluções inovadoras.

— Foi então que uma nova garçonete se aproximou da nossa mesa, e era a primeira vez que a via.

Ela era jovem, loira, e sua beleza se destacava das que costumo encontrar em ambientes luxuosos. Sem exageros em maquiagem ou roupas chamativas, seu cabelo estava elegantemente preso em um coque simples, e o uniforme impecável realçava sua figura.

—Havia algo sóbrio em sua postura que chamava atenção, como um artista que, mesmo em um papel secundário, exibe um talento inegável.

Ela parou diante de nós e se apresentou com educação.

— Boa tarde, senhores, meu nome é Mary Rose e eu vou atender a mesa de vocês.

Sua voz, suave mas cheia de segurança, fez com que todos prestassem atenção, como uma melodia que instantaneamente atrai o ouvido.

—Sem saber quem eu era, continuou: — Os senhores desejam ver a carta de bebidas? Um dos empresários respondeu prontamente: — Sim, por favor.

Então, Mary Rose voltou-se para mim: — E o senhor?

Respondi de forma direta: — Apenas água, não bebo quando estou trabalhando.

Com um aceno de entendimento, ela fez uma pergunta adicional: — Água com ou sem gás?

— Sem gás, por favor — eu disse.

Ela anotou com atenção, agradeceu com um sorriso e se afastou.

Enquanto caminhava pelo salão, percebi que um dos empresários comentou sobre sua presença: — Funcionária nova? — perguntou ele.

— Acredito que sim — respondi.

Alguns minutos depois, Mary Rose retornou com as bebidas, colocando cuidadosamente cada copo na frente de quem havia pedido, antes de nos deixar os cardápios.

— Os senhores podem olhar com calma.

Quando decidirem o pedido, eu retorno.

Ela deu um passo para trás, aguardando que a chamarmos.

Foi nesse momento que ouvi uma voz da mesa ao lado.

— Garçonete! Mary Rose se virou imediatamente e se dirigiu àquela mesa. Eu não sabia exatamente por que, mas continuei a observar.

— O que o senhor deseja pedir para o almoço? — ela perguntou.

O homem a avaliou de cima a baixo de uma forma que me incomodou, como se julgasse um livro pela capa, lembrando-me de situações em que funcionários eram desrespeitados em ambientes de trabalho, algo que muitos enfrentam.

— Antes de pedir… queria saber uma coisa. Ela, mantendo a educação, respondeu: — Pois não, senhor.

Ele sorriu de maneira desrespeitosa.

— Você está no cardápio?

Um breve silêncio se instalou, como um fio de tensão prestes a romper.

—Contudo, Mary Rose não se deixou abalar. — Desculpe, senhor, sou apenas uma funcionária.

Não faço parte do cardápio — reiterou com firmeza, como um defensor do respeito no ambiente de atendimento ao cliente.

— Se o senhor desejar, posso chamar outro garçom para lhe atender.

Nesse instante, chamei a atenção dela a partir da minha mesa. — Senhorita.

Ela se virou imediatamente e retornou.

— Já decidiram o pedido? — Ainda não — respondi.

— Mas você pode chamar outro garçom para a mesa ao lado.

Com um gesto discreto, Mary Rose concordou e chamou um colega, solicitando que ele assumisse o atendimento para aquele cliente.

— Em seguida, voltou para nós e anotou nossos pedidos com a mesma educação e calma que a caracterizava, mesmo que eu pudesse notar que ela estava visivelmente constrangida.

Um dos empresários na mesa comentou: — Que situação desagradável.

Sem hesitar, ela respondeu: — Não foi nada, senhor.

—Então, eu a observei atentamente e perguntei: — O que aquele homem disse a você? Após uma breve hesitação, ela esclareceu: — Nada que eu já não tenha ouvido antes.

E, como se procurando normalizar a situação, acrescentou: — Estou habituada a esse tipo de pergunta, como aquelas em que os clientes questionam se eu trabalho aqui para ser servida ou se estou à disposição para algo mais. Isso, por mais desconfortável que seja, se tornou parte da rotina dela, como um artista que, mesmo após ser desrespeitado com frequências, continua sua apresentação sem perder o foco.

—Esse relato me irritou mais do que deveria. Imagine uma ponte que suporta um tráfego constante, e você é o engenheiro que deve mantê-la firme.

Se ela começar a apresentar rachaduras, como permitir que alguém a esmague ainda mais?

— Se ele voltar a importuná-la ou qualquer outro cliente fizer algo assim, você pode chamar o gerente. Isso é absolutamente inaceitável.

—Ao ouvir minhas palavras, ela balançou a cabeça e respondeu: — Não, senhor, preciso desse emprego.

Com um leve e cansado sorriso, como quem aprendeu a se equilibrar em uma corda bamba, ela acrescentou: — Apenas aprendi a impor limites.

Agradeceu pela preocupação e saiu para buscar nossos pedidos.

Assim que se afastou, um dos empresários comentou: — Que moça elegante. Outro concordou: — Muito bonita e soube lidar bem com a situação.

Essa capacidade de impor limites em situações delicadas é como uma bateria que dá energia a uma máquina; é fundamental para profissionais que enfrentam o público, e ela pareceu entender isso.

Eu continuei a olhar em direção à cozinha, pensativo.

— Até agora, confirmamos que os funcionários do seu hotel são muito bem treinados — observou um deles.

— E este é o padrão, certo? Olhei diretamente para ele e afirmei: — Sim, este é o nosso padrão.

Entretanto, mesmo com a conversa ao meu redor, não consegui tirar os olhos daquela garçonete. Algo nela despertou minha curiosidade.

—Quem é você, Mary Rose?

Na cozinha, Mary Rose se aproximou de Natalie, a gerente.

— Acabei de atender aquela mesa — informou.

— Eles estão almoçando.

Você se incomodaria se eu fosse ao banheiro um momento?

Natalie imediatamente percebeu que algo estava errado.

— O que aconteceu?

Mary Rose suspirou, como alguém que carrega um peso invisível nos ombros.

— Aquele tipo de galanteio de sempre, algo que já se tornou uma rotina estressante em nossa profissão.

Parecia exausta, como se tivesse lutado numa batalha interminável.

— Alguns clientes acreditam que por eu ser jovem e bonita, estou à disposição deles.

Naquele momento, confessou em um sussurro carregado de dor: — Hoje eu me senti muito humilhada.

O olhar de Natalie se tornou preocupado, refletindo a compreensão de que esse tipo de situação é como uma tempestade emocional, devastadora para a confiança e o bem-estar de um funcionário.

— Vá lavar o rosto, isso pode ajudar.

— Eu volto rápido — respondeu Mary Rose, tentando manter a compostura como um soldado que se coloca de pé após uma batalha.

— Quando eles pedirem a conta, posso chamar outro garçom.

Porém, Mary Rose balançou a cabeça firmemente, como alguém que decide não desistir.

— Não, comecei a atender aquela mesa e vou terminar.

— Natalie suspirou, percebendo a determinação dela, e disse: — Tudo bem, você é forte.

Após concluirmos o almoço, pedimos a conta.

Quando Mary Rose retornou à nossa mesa, percebi que seus olhos estavam levemente avermelhados; ela havia chorado.

— Este gesto me fez lembrar de uma tempestade súbita que interrompeu o sol radiante de um dia claro.

Assim que ela se afastou, chamei o gerente do hotel.

— Eu não aceito esse tipo de constrangimento com meus funcionários, declarei.

O gerente se aproximou imediatamente e perguntou: — O que aconteceu, senhor? Expliquei: — Um cliente da mesa ao lado insinuou que a funcionária fazia parte do cardápio.

O gerente suspirou, mostrando-se compreensivo, como alguém que já ouviu uma música triste e sabe como a letra afeta os outros.

— Desde que ela começou a trabalhar aqui, alguns homens se sentem à vontade para fazer esse tipo de comentário depreciativo, disse ele, refletindo sobre as situações semelhantes que já presenciou, como um quem sempre vê críticas severas diante de seu trabalho.

— Quanto tempo ela trabalha aqui?

— A dois anos, e nunca a vi dar liberdade a clientes.

— Ela já teve algum problema?

— Nunca, senhor, é uma funcionária extremamente discreta e dedicada, posso afirmar que exemplar.

A mary trabalha até às quatro da tarde porque estuda à noite e está quase terminando a faculdade.

Essa informação despertou ainda mais meu interesse, como se eu tivesse descoberto um tesouro oculto.

— Faculdade, pelo jeito ela é esforçada, não é?

— Sim, senhor, confirmou ele.

O gerente, além disso, comentou: — Nunca a vi com namorado, Mary sempre foi muito focada no trabalho.

— A combinação de suas responsabilidades acadêmicas e profissionais me fez admirar ainda mais, como um atleta que treina intensamente para alcançar seu sonho.

Fiquei em silêncio por alguns instantes e então declarei: — Fique de olho nela.

O gerente assentiu: — Sim, senhor. — E, por favor, conceda uma bonificação a ela hoje.

—O gerente aparentou surpresa, questionando: — Pela situação constrangedora que ela enfrentou?

Aceitei seu reconhecimento e afirmei: — Sim, senhor.

Levantei-me da mesa.

—Antes de sair, olhei mais uma vez para o salão, como um artista que se despede de sua obra, pois algo me dizia que aquele almoço de negócios era apenas o primeiro ato de uma peça envolvente que estava prestes a se desenrolar.

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