Renan enviou a foto no grupo da família. Sua voz infantil carregava uma maldade intensa e cruel.
— A cicatriz na barriga da mamãe é muito feia. Por que ela sempre tenta chamar a atenção e faz questão de roubar as roupas bonitas da Helena?
Minhas mãos e pés ficaram gelados de repente. Vi Helena saindo do provador ao lado.
Ela vestia um maiô exatamente igual ao meu. O modelo destacava perfeitamente as suas curvas impecáveis.
Os olhares de todas as pessoas na loja foram atraídos por ela.
— Nossa, o corpo dela é maravilhoso. A pele é tão clara e lisa, a cintura é perfeita. Ela parece a queridinha do criador.
— Quem é aquela mulher ao lado dela? A barriga está cheia de estrias, as axilas são escuras. Que visão nojenta.
Senti como se estivesse completamente nua diante de todos. Olhei para Ignácio em busca de algum amparo.
O olhar dele estava grudado em Helena com uma admiração ardente. Ele não percebeu o meu constrangimento em nenhum momento.
O grupo da família começou a me atacar de forma implacável. Eles diziam que era uma vergonha eu tentar ser sedutora mesmo já sendo mãe.
Voltei para dentro do provador como se estivesse fugindo. Grossas lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto.
Após o nascimento de Renan, tentei de tudo para apagar essas marcas do meu corpo. Queria muito remover as estrias e a cicatriz da cirurgia.
Acabei desenvolvendo uma grave ansiedade em relação à minha aparência física. Isso acabou me levando a uma depressão leve.
Ignácio sempre tentava me consolar na época. Ele dizia que aquelas marcas eram apenas sinais do nosso amor.
Quando Renan cresceu um pouco, também costumava me confortar. Ele sempre me elogiava, afirmando que eu era a mãe mais linda do mundo inteiro.
As feridas que eu julgava cicatrizadas foram brutalmente reabertas. A dor me atingiu com tanta força que quase não conseguia respirar.
Pude ouvir as risadas abafadas de pai e filho do lado de fora da porta.
— Da última vez, a mamãe reclamou no grupo que a Helena era desorganizada. Esse mico agora é o castigo dela.
Escorreguei pela parede do provador até o chão, completamente sem forças. Só tive coragem de abrir a porta quando ouvi Ignácio me chamar para ir embora.
Na saída da loja, Helena lançou um olhar carregado de provocação para mim. Ela balançou de propósito as sacolas cheias de compras na mão.
— Irmã, na próxima vez que for comprar roupas, me consulte primeiro. Fico com pena de ver você passar vergonha usando o mesmo modelo que eu.
Renan deixou escapar uma risadinha debochada. Ele logo se ofereceu para ajudar Helena a carregar as sacolas pesadas.
Ignácio empurrou para as minhas mãos uma presilha de pérola muito simples.
— Você já não é mais uma garotinha e não tem noção do seu próprio corpo. Acessórios clássicos e arredondados, como essa pérola, combinam mais com o seu estilo.
Minhas unhas perfuraram a palma da minha mão. Eu tentava ao máximo reprimir a imensa tristeza que dominava o meu peito.
A verdade era que pérolas não combinavam comigo de jeito nenhum. Apenas na mente de Ignácio, eu era digna somente de ganhar os brindes baratos da loja.
Helena abraçou o braço de Ignácio com muita intimidade. Ela piscou o olho para mim de forma maliciosa.
— Irmã, eu ainda não comprei os meus óculos de sol.
Ignácio segurou o meu pulso com firmeza. Ele me puxou com força para trás de forma brusca.
— Não precisa ter tanta pressa de ir para casa, ainda temos coisas para resolver.
Tropecei para trás e quase perdi o equilíbrio. Meu braço raspou com força na borda afiada de uma das sacolas de presente.
Gotas de sangue começaram a escorrer de imediato. A dor aguda me fez respirar fundo para tentar suportá-la.
Mas Ignácio e Renan sequer me lançaram um único olhar de preocupação. Eles apenas deram meia-volta e acompanharam Helena de volta para dentro da loja.
Um grito abafado ecoou perto de mim de repente. Uma jovem que passava pela rua tirou um curativo da bolsa e me entregou.
— Você é a fotógrafa Luna?
Meu coração acelerou levemente com a pergunta inesperada. Balancei a cabeça, confirmando de forma hesitante.
A garota me abraçou com um entusiasmo impressionante.
— Eu já vi todas as suas fotografias e sou a sua maior fã. Mas você não publica nada de novo há oito anos.
Há dez anos, eu era uma fotógrafa de alto nível e estava no auge da minha carreira.
Através das minhas lentes, capturava a alma e a essência única de todas as coisas. Minhas fotos sempre transmitiam uma sensibilidade incomparável.
Ignácio se apaixonou pelas minhas obras de fotografia na época. Ele moveu montanhas até conseguir descobrir o meu contato pessoal.
Ele costumava me entregar flores de manhã cedo e marmitas caseiras durante o almoço. Ao cair da tarde, sempre me trazia uma xícara de chocolate quente.
Acabei me deixando levar pela sinceridade do seu afeto. Aceitei o pedido de casamento sem pensar duas vezes.
Depois do casamento, os negócios dele decolaram de maneira impressionante. Eu, por outro lado, passei a dividir o meu tempo entre as obrigações do lar e as viagens fotográficas.
Mais tarde, fui forçada a me tornar uma dona de casa em tempo integral. Desde então, nunca mais ousei tocar em uma câmera fotográfica.
Eu insistia em ir ao lago Tahoe para a nossa lua de mel por um motivo muito especial. Ignácio havia prometido tirar uma sessão de fotos de casamento comigo no local onde o nosso romance começou.
Ele simplesmente esqueceu de buscar essa felicidade ao meu lado. Sendo assim, eu escolhi seguir o meu próprio caminho sozinha.