Cecília não lembrava do caminho de volta para casa. Sabia que tinha entrado no carro, que o motorista havia fechado a porta e dado partida, que as luzes da cidade tinham passado diante dos seus olhos, mas nada daquilo parecia real. Era como se tudo estivesse acontecendo distante, como se ela estivesse apenas assistindo à própria vida desmoronar sem conseguir reagir.
O beijo ainda queimava nos lábios, não pela forma como aconteceu, mas pelo que ele significava. Controle, certeza e posse. Brian Beckman não agia como alguém que fazia propostas, e sim como alguém que já tinha decidido.
Quando o carro parou em frente à mansão Foster, Cecília demorou alguns segundos antes de sair. Precisou respirar fundo mais de uma vez, como se estivesse tentando reunir forças para atravessar aquela porta e encarar o que vinha a seguir. Mas, quando entrou, não encontrou ninguém.
O silêncio da casa era pesado, quase sufocante, e, pela primeira vez naquele dia, ela estava completamente sozinha.
Subiu as escadas sem fazer barulho, como se qualquer som pudesse quebrar o pouco controle que ainda restava dentro dela. Quando entrou no quarto, fechou a porta devagar, apoiou as costas contra a madeira e deixou o corpo escorregar até o chão.
As lágrimas vieram sem aviso, fortes e incontroláveis. Tudo aconteceu rápido demais, e sua mente parecia incapaz de organizar os acontecimentos. O jantar, as palavras dele, o contrato, o casamento marcado para o dia seguinte, tudo se misturava em uma realidade absurda, mas impossível de negar.
Cecília levou as mãos ao rosto, tentando conter o choro, mas era inútil. A imagem de Gabriel com Celina invadiu sua mente novamente, misturada à lembrança do olhar de Brian, firme e decidido, como se ela já fosse dele mesmo antes de qualquer assinatura.
Nada daquilo fazia sentido, nada daquilo era justo e, ainda assim, estava acontecendo.
Foi então que um pensamento surgiu, pequeno, frágil, mas suficiente para fazê-la reagir. Ela ainda tinha uma escolha.
Podia ir embora.
Podia simplesmente sair daquela casa, daquela cidade, daquela vida que nunca foi realmente dela. Podia desaparecer antes que fosse tarde demais, antes que aquele casamento se tornasse definitivo.
Cecília se levantou rapidamente, como se tivesse encontrado a única saída possível. As mãos tremiam enquanto puxava a mala do armário e jogava algumas roupas dentro sem pensar muito. Pegou documentos, dinheiro e tudo o que conseguiu alcançar primeiro. O coração batia acelerado, mas, pela primeira vez desde que tudo começou, havia algo diferente dentro dela.
Esperança.
Ela não precisava aceitar aquilo, não precisava se entregar e não precisava pertencer a ninguém.
Com a mala pronta, abriu a porta do quarto com cuidado e desceu as escadas em silêncio, certificando-se de que ninguém estava por perto. A casa continuava quieta, como se estivesse esperando, ou talvez apenas ignorando.
Quando saiu pela porta principal, o ar frio da noite bateu contra seu rosto, fazendo-a respirar fundo. Não olhou para trás nem hesitou. Apenas começou a andar, com passos rápidos e determinados, tentando se afastar o máximo possível, como se a distância fosse suficiente para libertá-la.
Mas não foi.
O carro preto estacionado alguns metros à frente chamou sua atenção. Discreto, silencioso e completamente fora do lugar.
Antes que pudesse reagir, a porta traseira se abriu.
— Senhorita Foster.
A voz foi calma, educada, mas firme.
Cecília parou.
O motorista que a havia levado ao jantar estava ali, olhando diretamente para ela.
— O senhor Beckman pediu para garantir que a senhorita chegasse em segurança.
O coração dela despencou.
— Eu não vou voltar — disse, tentando manter a voz firme, mesmo que o corpo não acompanhasse.
O homem não se moveu.
— Não é uma opção.
A resposta foi simples e direta.
Cecília deu um passo para trás.
— Você não pode me obrigar.
— Não estou obrigando — ele respondeu, abrindo mais a porta do carro — estou apenas cumprindo instruções.
O silêncio entre eles foi curto, mas suficiente para que ela entendesse.
Ela nunca teve escolha, nunca teve controle e nunca esteve realmente livre.
O celular em sua mão vibrou. A tela acendeu, mostrando um número desconhecido, mas ela já sabia quem era.
Atendeu.
— Eu não gosto quando tentam fugir de mim.
A voz de Brian veio baixa e controlada, como se estivesse exatamente onde deveria estar, observando.
Cecília fechou os olhos por um segundo.
— Você não pode fazer isso comigo.
— Posso.
A resposta veio imediata, sem hesitação.
— E, se você tentar novamente, eu vou garantir que a sua situação fique mais difícil.
Não havia grito nem ameaça explícita, mas o significado era claro.
— Volte para casa, Cecília — ele continuou.
A forma como ele disse o nome dela fez algo dentro dela se apertar.
— Descanse. Amanhã é o nosso casamento.
A ligação foi encerrada sem despedida, sem espaço para resposta.
Cecília permaneceu parada por alguns segundos, o telefone ainda na mão, o coração pesado e a respiração irregular.
Então ela cedeu.
Sem forças para lutar, sem para onde ir e sem ninguém a quem recorrer, deu um passo à frente e entrou no carro.
Enquanto a porta se fechava atrás dela, uma única certeza se formava dentro de si, fria e inevitável.
Não havia fuga.
E, na manhã seguinte, ela se tornaria a esposa de Brian Beckman.