Mundo de ficçãoIniciar sessãoA chuva começou no meio da tarde.
Gotas finas escorriam pelo vidro da janela do quarto 302, criando um som suave e constante que preenchia o silêncio.
Valentina estava sentada ao lado da cama, como sempre.
Uma das mãos apoiada na cadeira.
A outra… segurando a dele.
Já havia se tornado um hábito.
Quase natural.
— Está chovendo — murmurou, olhando para a janela. — Eu gosto de chuva.
Ela inclinou a cabeça, pensativa.
— Não quando falta energia, claro… mas quando dá pra ficar em casa… é bom.
Um pequeno sorriso surgiu.
— Dá uma sensação de… pausa.
Seus olhos voltaram para ele.
— Acho que você não é o tipo de pessoa que gosta de pausa, né?
Silêncio.
Ela soltou uma respiração leve.
— Você parece mais o tipo que controla tudo.
O monitor continuava constante.
Bip.
Bip.
Bip.
Valentina abaixou o olhar para as mãos entrelaçadas.
— Eu fico pensando… como você era antes disso tudo.
Ela fez uma pausa.
— Além da foto.
Seus dedos se moveram levemente sobre a pele dele.
— Será que você era gentil?
Outra pausa.
— Ou insuportável?
Um sorriso discreto escapou.
— Acho que um pouco dos dois.
O som da chuva ficou mais forte.
E então…
Algo mudou.
Pequeno.
Mas real.
Os dedos dele se moveram novamente.
Dessa vez…
Mais claro.
Mais firme.
Valentina congelou.
Seus olhos se arregalaram.
— Leonardo?
O coração dela disparou.
Ela apertou levemente a mão dele.
— Eu… eu vi isso de novo…
O monitor cardíaco deu uma leve alteração.
Bip—
Um som um pouco mais rápido.
Valentina se levantou rapidamente.
— Leonardo?
E então…
As pálpebras dele tremeram.
Uma vez.
Duas.
O mundo pareceu parar.
— Não… não pode ser…
Valentina deu um passo para trás, completamente imóvel.
E então…
Devagar…
Muito devagar…
Leonardo Montenegro abriu os olhos.
O olhar dele estava perdido.
Confuso.
Como se estivesse tentando entender onde estava.
A respiração dele mudou levemente.
Mais profunda.
Mais presente.
Valentina levou a mão à boca.
— Meu Deus…
Ela não sabia se chorava, gritava ou chamava alguém.
Mas não conseguiu se mover.
Porque naquele momento…
Ele virou o rosto.
E olhou diretamente para ela.
Os olhos dele eram intensos.
Mesmo confusos.
Mesmo frágeis.
Ainda havia algo ali.
Algo forte.
Algo que fazia o coração dela bater mais rápido.
O olhar dele percorreu o rosto dela lentamente.
Como se tentasse reconhecê-la.
Como se procurasse alguma lembrança.
Valentina deu um passo à frente.
— Leonardo…?
A voz saiu baixa.
Cautelosa.
Ele franziu levemente a testa.
Os olhos ainda fixos nela.
E então…
A primeira palavra saiu.
Rouca.
Fraca.
Mas clara.
— …quem…
Valentina prendeu a respiração.
O coração apertou.
— Eu…
Ela hesitou.
Porque aquele momento…
Era o início de tudo.
Ou o fim.
— Eu sou Valentina.
O silêncio entre os dois foi pesado.
Denso.
Os olhos dele continuaram nela por mais alguns segundos.
E então…
A expressão mudou.
Frieza.
Confusão.
E algo mais.
Desconfiança.
— …quem é você?
As palavras atingiram como um golpe.
Valentina sentiu o peito apertar.
Mas se manteve firme.
— Eu sou…
Ela respirou fundo.
E disse a verdade.
— Sua esposa.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
E então…
Os olhos de Leonardo escureceram.
E a primeira reação dele…
Não foi surpresa.
Foi rejeição.







