Início / Romance / A Esposa Abandonada do Bilionário / O homem que ela nunca deveria voltar a ver.
O homem que ela nunca deveria voltar a ver.

“Mamãe, você está apertando minha mão com muita força.”

“Desculpa, meu bem.” Bianca afrouxou o aperto nos dedos de Zoe, mas não soltou. Não depois da noite passada. Não depois de uma mensagem que a deixara acordada às três da manhã, olhando para o teto, repetindo a palavra “filha” na cabeça até que ela parasse de soar como uma palavra e passasse a soar como uma ameaça com dentes.

O prédio da fundação era todo vidro do térreo para cima, o tipo de lugar que fazia você se sentir mal vestida só de atravessar a porta. Bianca conferiu a carta na bolsa mais uma vez, mesmo já tendo lido umas cem vezes. Reunião hoje. Nove em ponto. As mãos dela não paravam de ficar geladas desde que ela saíra da cama.

Ela não tinha dormido. Passara a noite decidindo se contava para alguém sobre a mensagem e decidindo, repetidas vezes, que não havia ninguém seguro para contar. Kemi ia entrar em pânico. A polícia ia fazer perguntas para as quais ela ainda não tinha respostas. E a única pessoa que talvez soubesse realmente o que aquilo significava era um homem que ela tinha conhecido por quatro minutos numa calçada na noite anterior, um homem cuja mão no braço dela ela ainda pensava mais do que gostaria de admitir.

Uma mulher na recepção indicou a sala da família. Poltronas macias, luz de manhã demais para como Bianca se sentia. Ela escolheu um lugar mais ao fundo, perto da porta. Hábito antigo. Sempre saiba onde está a saída.

Então a porta da frente se abriu, e Ethan entrou.

O estômago dela despencou.

Ele ainda não a tinha visto, examinando uma pasta, as mangas dobradas como se estivesse acordado havia tanto tempo quanto ela. Quando ele levantou os olhos, o olhar varreu a sala e parou nela.

“Você,” ele disse, antes de conseguir se conter.

Todos os pais na sala se viraram. O rosto de Bianca esquentou.

“Vocês dois se conhecem?” uma mulher perto da frente perguntou, leve, como se achasse fofo.

“Nós nos conhecemos ontem à noite,” Ethan disse, se recuperando rápido, profissional de novo num piscar de olhos. “Brevemente.”

Ele não disse como. Não disse onde. Bianca observou ele escolher não dizer, e alguma coisa no peito dela afrouxou, só um pouco, do jeito que tinha afrouxado naquela esquina bem antes do celular dela tocar.

A reunião durou quarenta minutos. Ele falou sobre o cronograma do programa, os conselheiros, o que esperar das primeiras sessões, e Bianca o observou fazer aquilo, firme e sem pressa, como se cada pai naquela sala fosse o único que importasse para ele naquele momento. No meio da reunião, os olhos dele encontraram os dela por cima da mão levantada de uma mãe, só por um segundo, só o suficiente para parecer algo particular passando entre duas pessoas numa sala cheia de estranhos. Ela baixou os olhos para o colo e se obrigou a parar de contar quantas vezes aquilo aconteceu depois disso.

Ele era bom nisso, ela percebeu, observando ele falar com uma sala cheia de pais assustados e cansados como se fossem a única coisa que importava no dia dele. Quando Zoe levantou a mão e perguntou se as outras crianças do programa também tinham perdido o cabelo, ele não olhou para Bianca pedindo permissão. Simplesmente olhou para a filha dela e disse a verdade.

“Algumas perderam,” ele disse. “Algumas ainda estão deixando crescer de novo. Ninguém aqui vai ficar te encarando por isso.”

Zoe balançou a cabeça devagar, como se estivesse esperando havia muito tempo por alguém que dissesse aquilo em voz alta.

A garganta de Bianca apertou. Ela não esperava sentir aquilo, ver um estranho ser gentil com a filha dela.

Depois da reunião, as famílias foram saindo uma por uma. Bianca ficou para trás, deixando Zoe correr até o aquário no corredor. Disse a si mesma que tinha uma dúvida sobre horários.

Ethan a encontrou primeiro.

“Eu não sabia,” ele disse baixinho, perto o bastante agora para que ela sentisse o mesmo calor da noite anterior. “Ontem à noite, na rua. Eu não fazia ideia de que você fazia parte desse programa.”

“Eu não sabia que você comandava isso aqui.”

Ele a estudou por um segundo, algo quase divertido cruzando o rosto dele. “O mundo é pequeno.”

“Bem pequeno.” Ela olhou para Zoe, que pressionava a palma da mão contra o vidro do aquário, depois de volta para ele. “Você parecia diferente ontem à noite. Menos…” Ela procurou a palavra.

“Composto?”

“Eu ia dizer humano.”

Aquilo arrancou dele uma risada de verdade, curta e surpresa, como se ela o tivesse pego desprevenido duas vezes em doze horas. “Vou aceitar isso como elogio.”

“Era um.”

Ele a olhou um instante a mais do que a conversa precisava, o tipo de olhar que a deixava muito consciente de quão perto estavam parados num corredor vazio, com um aquário zumbindo atrás deles e nada urgente acontecendo pela primeira vez em toda a manhã. Ela sentiu aquilo pousar em algum lugar sob as costelas, quente, indesejado, impossível de ignorar. Reparou, feito boba, que ele tinha cheiro de cedro e café, e odiou ter reparado.

“Eu ia te perguntar uma coisa ontem à noite,” ele disse. “Antes do seu celular tocar.”

“O quê?”

“Não me lembro mais. Você riu e saiu tudo da minha cabeça.”

Um calor subiu pelo pescoço dela que não tinha nada a ver com raiva dessa vez. Ela desviou o olhar primeiro, para as próprias mãos, qualquer lugar menos o rosto dele, porque olhar para o rosto dele por mais um segundo parecia ficar perto demais de um fogo que ela ainda não tinha o direito de se aquecer.

Então a expressão dele mudou, o momento se fechando tão rápido quanto tinha se aberto.

“Minha assistente me ligou logo depois que eu te deixei ontem à noite,” ele disse, a voz voltando a algo cuidadoso. “Alguém tentou tirar o arquivo de uma família do sistema sem autorização.” Ele fez uma pausa. “O seu.”

O corpo inteiro de Bianca ficou imóvel.

“Alguém tentou tirar a Zoe do programa,” ela disse devagar. “Ontem à noite.”

“Sim.”

“Enquanto eu ainda estava parada naquela calçada com você.”

“Sim.” O maxilar dele se travou. “Eu resolvi antes de sair.”

As peças se encaixaram tão rápido que a deixou tonta. Fique longe do meu irmão, ou sua filha perde a vaga. Não era uma ameaça sobre hoje. Era uma ameaça sobre algo que já tinha acontecido e já tinha sido impedido por um homem que nem sabia o nome dela ainda quando o impediu.

“Por que você faria isso?” ela perguntou. “Você nem me conhecia.”

“Porque não era certo.” Ele disse aquilo com simplicidade, como se decência fosse só o modo padrão em que ele funcionava. “Quem quer que tenha feito isso não tinha autorização para mexer naquele arquivo. Não enquanto eu estiver à frente dessa fundação.”

Ela olhou para ele, olhou de verdade, aquele estranho que a tinha amparado numa calçada doze horas atrás e que já estava parado entre a filha dela e algo que Bianca nem sabia que devia temer ainda.

“Ethan.” Ela disse o nome dele com cuidado, testando como quem testa o gelo antes de apoiar o peso. “Aquela mensagem ontem à noite. Não era da minha irmã.”

O rosto dele mudou, o calor se dobrando em foco. “Quem era?”

Bianca tirou o celular, rolou até a mensagem, virou a tela para ele. A mão dela não estava muito firme.

Ele leu. Ela observou o exato segundo em que a expressão dele mudou, a confusão escorregando para algo mais frio.

“Ingrid,” ele disse. Não era uma pergunta.

O estômago de Bianca revirou. “Você a conhece.”

“Ela é minha irmã.”

A palavra ficou entre eles, pesada e impossível, e Bianca viu doze horas de algo quente e novo ficarem muito, muito quietas no rosto dele.​​​​​​​​​​​​​​​​

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