A acusação anônima

— Assassina! Maldita!— gritou, a mão indo direto ao rosto de Yelissa com um tapa estalado— Você destruiu a minha vida! O choque congelou todos por um segundo.

— Calma, senhora!— um policial tentou intervir, mas Mirna empurrou-o com brutalidade.

— Vai pagar! Vai pagar pelo que fez com a minha filha!— vociferava enquanto agarrava Yelissa pelos cabelos, arrastando-a ao chão.

Yelissa gritava de dor, tentando se defender. Gustavo correu até elas e tentou separar, mas Mirna já tinha atingido a cabeça da jovem contra a parede. O sangue escorreu pela testa de Yelissa, e ela ficou tonta, zonza, confusa.

— CHEGA!— gritou o delegado, ordenando que dois agentes a contivessem.

No meio da confusão, Yelissa se arrastou discretamente para longe. Viu todos ocupados e, mesmo ferida, correu pela porta lateral da delegacia. Ninguém notou imediatamente — só depois de alguns segundos, um policial gritou:

— Ela fugiu!

Gustavo correu atrás, mas já era tarde. Do lado de fora, tudo estava quieto. Só um objeto pequeno brilhou no chão perto da saída: a pulseira de tecido vermelho trançado, igual à que ele usava no pulso.

Ele se abaixou lentamente, apanhou-a e a fechou na mão com força. Olhou para a rua escura.

— Yelissa… onde você foi?— sussurrou, com o coração apertado.

O sangue que estava escorrendo, acabou secando todo. O ônibus parou na paragem dela, desceu com corpo todo dolorido, e a cabeça latejando.

A fumaça ao fundo a fez ficar com o coração na mão, parecia perto de onde vivia, do outro lado da rua se podia ver a fumaça preta.

“Meu Deus! As crianças”

Ela correu com toda velocidade que tinha. E quando se aproximou, viu a multidão parada a frente da casa, algumas pessoas tentaram apagar o fogo, mas já tinha queimado tudo.

Em sua mente, só gritava o nome da Raissa e do Noah. Já tinham passado todas as possibilidades.

Ela quis entrar, para os salvar.

— Minha família— Murmurou. O rosto já cheio de lágrimas . Tentou entrar mais os vizinhos a impediram.

— Não sobrou mais nada aí! Se entrar lá… vai acabar morrendo— disse um dos senhores.

— Me solta! Eu preciso salvar minha família. Eles estão lá dentro. Me deixem entrar — Gritou.

Yelissa em prantos, gritava, chorava lutava para sair dos braços fortes que a seguravam.

— Aí está tão quente, não vai encontrar nada lá, com esse todo fogo, os ossos já devem ter-se desfeito— gritou uma senhora.

— Não… não… eles não— ela caiu de joelhos no chão, rendendo-se finalmente ao lamento.

Os bombeiros chegaram, mas ela, estava longe, sabia que qualquer contato com as autoridades significaria entrar novamente para o orfanato. A vizinha que as vezes cuidava dos meninos, perguntou se encontraram alguma coisa, o bombeiro abanou a cabeça.

— Tudo já tinha se perdido no fogo. Caso estivesse alguém aí dentro, nada restou.

Yelissa tampou a boca com as mãos e chorou amargamente. O sol já tinha nascido. E ela estava parada a frente da casa coberta de cinza e as paredes queimadas.

Não acreditava na má sorte que tinha. Ver aquela mulher outra vez, foi horrível, e ter seus meninos mortos, foi ainda pior. Ela se levantou, não sabia para onde ia. Apenas caminhou. Durante horas, ela só tinha na cabeça tudo o que aconteceu nas últimas horas. Parecia sofrimento impossível demais para uma só pessoa suportar.

Quando chegou ao apartamento de Gustavo, podia ouvir os gritos. Parecia seu pai.

— Como você pode fazer uma coisa dessas Gustavo— Gritou— Ela só tem dezesseis anos.

— Foi tudo consensual, eu não obriguei ela a nada— disse calmo.

— Você perdeu a cabeça? Esqueceu que tem um noivado marcado com a Clara Louis? Com que cara vai aparecer para a família dela?

— Pai se acalma por favor. Não foi nada demais.

— Como assim não foi nada demais? Você dormiu com uma menor de idade, a polícia veio até aqui e levou vocês os dois e agora ela fugiu sabe-se lá para onde. Tomara que ela não volte Gustavo Foster, eu juro que entrego ela para ação social. Ou faço da vida dela um inferno.

— O senhor não precisa se preocupar. Com ela foi só um caso! Já passou. Ela sumiu e depois de hoje ela nunca mais se atreveria a voltar.

Yelissa ouviu tudo em silêncio. Já não tinha lágrimas para derramar, mas o coração, esse parecia ter sumido. Ruído com a casa que pegou fogo com as únicas pessoas que ela amava dentro.

Tirou o colar que ele lhe deu, e colocou na maçaneta da porta. Quando virou-se para sair. Deu de cara com Clara.

Ela olhou para o colar, e depois para o estado da jovem.

— Quanto você quer para sair da vida dele. Da um preço. Qualquer preço eu pago — disse.

Yelissa olhava para ela com olhos sem emoção nenhuma. Tudo que ela dissesse ou fizesse não a machucaria mais. Nunca mais.

— Tá! — ela tirou o cheque em branco e entregou a ela. Que não quis receber— Você precisa disso. Vá qualquer outro lugar, não volte a cruzar o meu caminho e do Gustavo. Nunca mais.

Ela colocou o cheque dentro do vestido com nojo. Pois Yelissa estava toda suja. De sangue, cinza e luto.

Ela nada disse, apenas caminhou em direção a saída. Pronta para tirar a própria vida. Mas não teve coragem.

Foi para o lugar onde encontrou eles a primeira vez, e nenhum sinal. Uma gota de esperança ainda estava naquele coraçãozinho quebrado.

Gustavo abriu a porta para seu pai, que saiu após saudar Clara. Mas antes que fosse olhou para trás.

— Daqui a dois meses vocês irão se casar. Sem desculpa. Se quiser cuidar da empresa, essa é a única solução— virou-se e foi embora. Sem dar espaço para contestar.

Ele suspirou e olhou para Clara, que indicou para a maçaneta da porta.

— Ela ouviu tudo… veio apenas para devolver o colar acho, mas não se preocupe, eu dei um cheque a ela para ter uma vida tranquila, longe de nós os dois.

Gustavo olhava para o colar, não queria que ela tivesse ouvido. Ele acabara mentindo para o pai que ficaria longe dela. Na verdade o que queria, era engravidar ela e assim poder se casar com ela.

Sua mãe, estaria do seu lado se tivesse um bebê envolvido. Mas depois disso, é bem possível que ela não o queira ver nem pintado de ouro.

As estrelas brilhavam no céu, e ela se apagava na terra. A chuva estava se formando nas nuvens, ela se levantou do beco onde encontrou Raissa, e andou até a ponte onde viviam.

Estava escuro, então não viu quem era. Percebeu que estava ocupado, deu as costas para sair. Mas então ouviu a pequena, mas firme voz chamando o nome dela.

— Yelissa? É você?

Ela parou, levantou a cabeça e virou-se devagar.

— Noah?

— Onde você se meteu? Estávamos assustados e procurando por você— disse ele, caminhando até ela com a Raissa no colo.

Yelissa estava emocionada, ou achando que ficou louca, e começava a delirar.

— A casa…

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