Cinco

JADE

As portas do elevador abriram no térreo com um suave e metálico ding. Henrique saiu primeiro, ajustando o abotoamento do terno com uma precisão cirúrgica, como se toda aquela proximidade e o arrepio no corredor tivessem sido apenas parte de um dia comum de trabalho. Eu ainda tentava colocar meus pensamentos e meus batimentos cardíacos de volta no lugar.

— Ei! — chamei, apressando o passo para acompanhar a passada longa dele pelo corredor.

Ele continuou andando sem desacelerar um milímetro.

— Tá me ouvindo?

— Estou.

— Então responde.

— Você já está falando por nós dois — disse ele, sem alterar o tom.

Revirei os olhos para o teto alto.

— Convencido.

Assim que atravessamos as portas de vidro e entramos no saguão imponente do hotel, o verdadeiro caos começou.

Flashes explodiram de todos os lados em uma tempestade cega.

Jornalistas gritavam perguntas ao mesmo tempo, seguranças formavam uma barreira humana para abrir caminho e curiosos levantavam os celulares na esperança de capturar algo.

Henrique parou por uma fração de segundo e estendeu discretamente o braço flexionado para mim.

Olhei para o rosto dele. Depois para o braço oferecido.

— Vai ficar me encarando ou vai fazer seu trabalho? — murmurou entre os dentes, sem perder a postura ereta.

Sorri, recuperando a firmeza.

— A educação mandou lembranças.

Segurei seu braço, sentindo o tecido caro do terno sob meus dedos. No mesmo instante, sem hesitar, a mão dele pousou na minha cintura.

Natural. Precisa.

Como se aquele gesto tivesse sido treinado e aperfeiçoado inúmeras vezes.

— Sorria — disse ele, num sussurro de canto de boca, sem mover os lábios.

— Eu tô sorrindo.

— Não.

Olhei para ele de lado.

— Você está mostrando os dentes.

Bufei, sentindo o calor das luzes das câmeras no meu rosto.

— É praticamente a mesma coisa!

— Não é.

Fiz um sorriso exagerado, perfeitamente artificial, piscando para as lentes.

— Agora melhorou?

Ele apenas me olhou pelo canto do olho, completamente imperturbável.

— Continue andando.

Os fotógrafos disparavam perguntas em um jogral ensurdecedor.

— Senhor Montenegro! Quem é a moça?

— É sua nova namorada?

— Há quanto tempo vocês estão juntos?

Henrique respondeu antes que eu pudesse abrir a boca para inventar qualquer absurdo.

— Sim.

A resposta foi curta. Objetiva. Suficiente para paralisar metade dos repórteres.

Outro jornalista insistiu, esticando um gravador por cima do ombro de um segurança.

— Como vocês se conheceram?

— Em um evento beneficente.

Ele continuou caminhando com passos firmes, mantendo a mão segura na minha cintura como se o assunto estivesse totalmente encerrado.

Olhei discretamente para o perfil esculpido do seu rosto. Evento beneficente? Nem eu sabia dessa história. Pelo visto, o homem do contrato engessado também sabia improvisar quando convinha.

Resolvi entrar no personagem de vez. Colei meu ombro ao dele, inclinei a cabeça levemente e sorri com elegância para as câmeras. Se ele queria um casal convincente para a imprensa, teria um show completo.

Atravessamos a barreira de fotógrafos e entramos na parte traseira do carro blindado que nos aguardava. O motorista fechou a porta e arrancou poucos segundos depois, isolando-nos completamente do barulho da rua.

O silêncio absoluto tomou conta do veículo.

Um minuto.

Dois minutos.

Três minutos.

Cinco minutos inteiros de um ar tão quieto que dava para ouvir o ponteiro do meu relógio. Não aguentei.

— Você sempre é assim?

Ele sequer desviou os olhos do tablet que havia tirado da pasta.

— Assim como?

— Quieto. Parece uma estátua.

— Gosto de silêncio — respondeu, deslizando o indicador pela tela brilhante.

— Isso foi uma indireta?

— Foi uma observação.

Soltei uma risada curta, balançando a cabeça.

— Você é inacreditável.

Ele não respondeu. Apenas continuou mexendo no tablet.

Olhei pela janela de insulfilm, acompanhando as luzes da cidade. Depois olhei para ele. Depois para a janela outra vez.

— Posso fazer uma pergunta?

— Faça.

Revirei os olhos.

— Você é casado?

— Não.

— Divorciado?

— Também não.

— Noivo?

Ele fechou a capa do tablet e virou o rosto na minha direção.

— Você costuma entrevistar todos os seus clientes?

— Só os misteriosos.

— Vai ficar decepcionada.

— Por quê?

— Não existe mistério. Só privacidade.

A sustentação daquele olhar me fez ajeitar a postura no banco. Apoiei o queixo na mão, desconfiada.

— A propósito, aquele 'evento beneficente' foi uma boa mentira.

— Evitou perguntas mais longas.

Fiquei encarando o perfil sério dele por alguns segundos. Pela primeira vez, comecei a desconfiar de que aquele homem não economizava palavras por timidez. Ele simplesmente acreditava que quase nenhuma era necessária.

O carro diminuiu a velocidade e parou suavemente diante da fachada suntuosa do restaurante. Um funcionário de luvas brancas abriu a porta do veículo.

Henrique desceu primeiro, ajeitou o terno e estendeu a mão para mim. Segurei seus dedos firmes e, ao sair do carro, aproximei meu rosto dele.

— Tá nervoso?

— Não.

— Tem certeza?

— Pessoas nervosas falam demais.

Sorri de canto.

— Então eu devo estar desesperada.

Pela primeira vez, ele olhou diretamente para mim.

— Essa conclusão foi sua.

Passei meu braço pelo dele, sentindo o tecido do terno sob meus dedos.

— Relaxa. Hoje eu vou me comportar.

— Ótimo. Vamos entrar.

Assim que atravessamos as portas de vidro do restaurante, o murmúrio de dezenas de conversas diminuiu drasticamente de volume. O ambiente exalava luxo contido, luzes amareladas e taças de cristal tilintando. Alguns convidados em ternos sob medida se levantaram para cumprimentar Henrique com acenos respeitosos. Outros apenas nos observavam com curiosidade mal disfarçada.

Então, uma mulher extremamente elegante, vestida em um corte impecável de seda preta, levantou-se da mesa principal no fundo do salão.

Os olhos afiados dela passaram por Henrique com familiaridade. Depois, desceram e pararam fixamente em mim.

O sorriso que surgiu em seus lábios era impecável e bonito.

Mas definitivamente não tinha nada de gentil.

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