6: LOUIS SEAGAL

Eu precisava manter os garotos na roda e longe das armas de Silvério sem transformar o Morro do Coiote numa nova zona de guerra, mas a voz rouca que desceu a ladeira e o farol cegante da moto me avisaram que a conversa que ele queria não seria com palavras — e que cada passo errado agora colocava Helena, Lucas e os meninos diretamente na linha de fogo.

O farol da moto cortou a escuridão do pátio como uma lâmina. Eu não me mexi. O corpo já estava em posição de combate antes mesmo de eu decidir: peso distribuído, joelhos levemente flexionados, mãos livres, visão periférica varrendo as sombras dos muros pichados. A cicatriz do ombro esquerdo latejou, antiga lembrança de que tiros não avisam duas vezes. Helena ainda estava a poucos metros, a bolsa na mão, o corpo tenso. Eu senti o olhar dela nas minhas costas, rápido, preocupado. Os últimos meninos que ainda não tinham ido embora congelaram. Ratão engoliu seco. Tiago deu um passo para trás.

Silvério desceu da moto com a calma de quem manda no pedaço há tempo demais. Alto, não tanto quanto eu, mas largo, o rosto marcado por uma cicatriz fina que cortava a sobrancelha esquerda. Camisa aberta, corrente de ouro pesada, o cheiro de perfume barato e maconha misturado ao suor da noite. Dois homens desceram atrás dele, um de cada lado, mãos perto da cintura. Eu contei as armas sem precisar ver: pelo menos três. Talvez quatro.

— Seagal — repetiu ele, a voz baixa, quase amigável. O sotaque carioca carregado, o sorriso que não chegava aos olhos. — Ouvi falar que o gringo tá dando aula de dança pros cria. Capoeira, né? Bonito isso. Minha mãe gostava.

Eu não respondi de imediato. Mantive o silêncio que as Forças Especiais tinham me ensinado: quem fala primeiro perde terreno. O berimbau ainda estava no chão, ao lado da mochila militar. O som do funk distante subia a ladeira, misturado ao latido de um cachorro e ao ronco de outra moto mais acima. O ar quente cheirava a terra batida, óleo de motor e o resto de suor da roda.

Silvério deu dois passos à frente. Os homens dele acompanharam.

— Eu não gosto quando alguém mexe com o que é meu sem pedir licença — continuou, o sorriso sumindo. — Esses moleques… alguns deles trabalham pra mim. Outros ainda vão trabalhar. E a professora ali… — o olhar dele deslizou para Helena, demorado demais — …é respeitada. Não quero ver ela se metendo em coisa que não é dela.

Helena não se mexeu. Eu senti a tensão no corpo dela mesmo de costas. Quatro anos de viúva, mãe solo, professora que segurava a escola com unha e dente. Ela não era mulher de baixar a cabeça. Mas eu também não era homem de deixar o perigo chegar perto demais de quem eu estava começando a querer proteger.

— Eles não são seus — falei finalmente, a voz baixa, firme, o sotaque americano cortando o carioca. — São garotos. E eu não estou mexendo com o que é seu. Estou ensinando eles a não se entregarem.

Silvério riu. Um riso curto, sem humor.

— Entregar? Eles já nasceram entregues, gringo. Você veio de fora, passou uns anos matando gente em deserto e acha que vai chegar aqui e mudar o jogo com ginga e berimbau? Olha em volta. Isso aqui não é Afeganistão. Aqui o tiro vem de dentro. Dos cria. Dos próprios.

Ele deu mais um passo. Eu não recuei. A altura me dava vantagem, as cicatrizes no rosto e nos braços contavam histórias que ele talvez não quisesse testar. Mas eu sabia que números importavam. Dois homens armados, talvez mais nas sombras. E Helena atrás de mim.

— A roda continua — disse eu, sem levantar a voz. — Quem quiser vir, vem. Quem não quiser, fica. Não estou forçando ninguém.

Silvério inclinou a cabeça, estudando meus olhos verdes como se procurasse medo. Não encontrou. O que encontrou foi a mesma coisa que eu via no espelho todas as manhãs: um homem que já tinha matado e não gostava de lembrar, mas que ainda sabia como fazer se precisasse.

— Tá bom — murmurou ele por fim. — Pode brincar de professor. Por enquanto. Mas se eu ver um dos meus cria faltando serviço por causa da sua dancinha… a gente conversa de novo. E da próxima vez não vai ser tão educado.

Ele virou o rosto na direção de Helena.

— Cuida de você, professora. E do menino. Lucas, né? Bonito o moleque. Parece o pai.

O nome do filho dela saiu da boca de Silvério como uma ameaça velada. Eu senti o corpo de Helena endurecer atrás de mim. O ar ficou mais pesado. Silvério subiu na moto, os dois homens atrás. O farol acendeu de novo, cegante, e a moto subiu a ladeira sumindo entre as casas grudadas. O ronco se afastou. O silêncio que ficou foi pior do que o barulho.

Os meninos restantes se dispersaram rápido, sem olhar para trás. Ratão passou por mim e murmurou baixo:

— Cuidado, seu Louis. Ele não brinca.

Helena ainda estava parada. Eu me virei. O suor esfriava nas minhas costas. Os cachos dela estavam grudados na testa, a regata branca colada ao corpo. Os olhos escuros me encaravam com uma mistura de raiva, medo e algo que eu ainda não sabia nomear.

— Você não devia ter respondido assim — disse ela, a voz baixa, controlada. — Ele não esquece.

— Eu sei.

— Ele citou o Lucas.

— Eu ouvi.

O silêncio entre nós era denso. O cheiro de terra e de perfume barato de Silvério ainda pairava. Eu queria tocar nela. Queria dizer que ia proteger o filho dela, que a roda não ia parar, que eu não era o tipo de homem que fugia. Mas as palavras ficaram presas. Quatro anos de solidão dela. Dezoito anos de guerra minha. O desejo que tinha nascido na roda agora pesava como uma arma carregada.

Helena passou a mão pelo cabelo, respirando fundo.

— Amanhã tem aula normal. Se você ainda quiser a roda depois, eu… eu posso ajudar a manter os meninos na linha.

Eu assentí. O peito apertava. A cicatriz do ombro latejava de novo.

— Obrigado.

Ela pegou a bolsa, deu meia-volta e começou a descer a ladeira em direção à casa onde criava o filho sozinha. Eu fiquei parado no pátio vazio, o berimbau na mão, o olhar ainda preso na escuridão onde a moto de Silvério tinha sumido.

O vento quente da noite trouxe o som distante de um funk e o cheiro de chuva que ainda não caía. Eu apertei o berimbau com força suficiente para sentir a madeira cravar na palma calejada, e pela primeira vez desde que voltei ao Coiote senti o gosto metálico da adrenalina misturado ao desejo de ir atrás dela.

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