4: HELENA COSTA

Eu tentava proteger meu filho Lucas e aqueles alunos do tráfico que engolia o Morro do Coiote todos os dias, mantendo a vida dura mas estável de mãe solo e professora, mas o olhar verde daquele gringo cicatrizado atravessou minha armadura no pátio e acendeu um desejo perigoso que ameaçava destruir tudo o que eu ainda controlava.

Quando nossos olhares se cruzaram de verdade pela primeira vez, algo que nunca deveria ter acontecido — principalmente ali, no meio da terra batida da escola, sob o sol do fim de tarde — aconteceu. Um arrepio subiu pela minha nuca, desceu a coluna vertebral como um fio elétrico e se instalou quente, pulsante, no fundo da barriga. Os olhos verdes de Louis Seagal me atravessaram como se conseguissem ver além da professora de português durona, da viúva que criava o filho sozinha há quatro anos e da mulher que já tinha perdido demais para o morro. Instantaneamente senti o rosto esquentar. Desviei o olhar rápido, fingindo arrumar os papéis já bagunçados na mesa de madeira rachada, o coração batendo forte demais para uma simples apresentação de novo professor.

— Professora Helena — ele chamou, e a forma como disse meu nome, com aquele sotaque americano amaciado por um leve tom carioca enterrado, me fez apertar as coxas sem querer. A voz grave, baixa, controlada. — A senhora topa me ajudar? Preciso de alguém que conheça esses meninos de verdade.

Engoli em seco. O corpo traía a razão. Desde que o pai do Lucas morreu — um tiro perdido numa troca de tiros que não era com ele, quatro anos atrás — eu não deixava nenhum homem chegar perto. Não por falta de propostas. Homens do morro, de fora, até um professor substituto que durou três semanas. Eu afastava todos. A solidão era segura. O desejo era perigo. E agora aquele gringo aparecia do nada, alto, forte, cheirando a perigo e a algo que eu não conseguia nomear — suor limpo, sabão barato, metal antigo — e meu corpo reagia como se tivesse vida própria. As mãos suaram. A blusa de algodão grudava ainda mais nas costas.

— Eu ajudo — respondi, forçando a voz a ficar firme, o queixo erguido. — Mas vou te avisando desde já: aqui não é brincadeira. Tem gente que não vai gostar de ver os moleques fora do controle deles. Principalmente o Silverio.

O nome saiu da minha boca e o ar pareceu ficar mais pesado, como se o próprio morro tivesse escutado. Louis apenas assentiu, uma vez, lenta, os olhos verdes sem surpresa. Como se já esperasse exatamente por aquilo. Como se já tivesse calculado o risco antes mesmo de entrar na escola. Aquele homem não era ingênuo. As cicatrizes no rosto e nos braços contavam histórias que eu preferia não imaginar.

Terminada a conversa curta e tensa, ele pediu para fazer uma demonstração rápida no pátio. Os alunos — Ratão, Tiago, Larissa e os outros bagunceiros que eu mal controlava — correram atrás dele como imãs, empurrando carteiras, gritando, a energia repentina contrastando com o cansaço habitual. Eu fui atrás, de braços cruzados, tentando manter distância física e emocional. O pátio de terra batida ainda carregava o cheiro de sangue seco do menino que levara tiro mais cedo. O sol baixava, pintando tudo de laranja quente. Louis parou no centro, tirou a camiseta preta num movimento único e a jogou sobre a mochila militar.

Puta que pariu.

Meu Deus do céu.

As pernas bambearam. Eu tive que apoiar o peso num pé só para não vacilar. O corpo dele era uma escultura viva de músculos densos e definidos, o peito largo riscado por cicatrizes antigas — uma longa e irregular que descia do ombro esquerdo até quase o mamilo, outra mais fina atravessando as costelas. O abdômen marcado, os ombros largos, os braços fortes cheios de veias e marcas de quem tinha carregado peso demais por tempo demais. A pele morena clara brilhava de suor. Ele começou a gingar devagar no início, os pés deslizando na terra como se conhecessem cada grão. Depois acelerou. O corpo girava fluido e poderoso, os braços cortavam o ar, a coluna se curvava e se erguia em movimentos que eram luta e dança ao mesmo tempo. Não era só técnica. Era arte. Era sobrevivência transformada em beleza brutal. E, cá pra nós, era sexy pra caralho.

Os meninos ficaram boquiabertos. Alguns começaram a imitar os movimentos desajeitados. Ratão tentou um aú e quase caiu de cara no chão, mas riu — um riso verdadeiro, de adolescente, que eu não ouvia nele há meses. Tiago, o que vivia “a serviço”, parou de olhar pro lado e concentrou o corpo inteiro na ginga. Larissa, celular esquecido no bolso, deu um passo à frente, os olhos brilhando. Pela primeira vez em muito tempo vi esperança crua no olhar daqueles adolescentes que eu já considerava perdidos para o tráfico. O sol batia nos músculos suados de Louis, fazendo as cicatrizes brilharem como mapas de guerra. O silêncio do pátio era quebrado só pelo som dos pés na terra e pela respiração controlada dele.

E eu? Eu estava ferrada.

Porque enquanto ele girava, suado, poderoso, os nossos olhares se encontraram de novo. Dessa vez ele sustentou. Um segundo. Dois. Três. Suficientes para eu sentir um calor incontrolável subir pelo ventre, espalhar pelas coxas e se instalar baixo, quente, pulsante. A boca secou. O coração acelerou tanto que eu tinha certeza de que ele ouviria se chegasse mais perto. “Não, Helena. Não mesmo”, pensei, os dedos cravados nos próprios braços. “Esse homem é problema. Gringo, ex-soldado, cheio de cicatriz na alma. Vai trazer mais dor pro morro, pra você e pro Lucas.” Mas o corpo não queria escutar a razão. Quatro anos de solidão, de noites frias, de mãos que só tocavam o filho ou o giz, e agora aquilo.

Quando a demonstração acabou, os alunos aplaudiram de verdade — não o aplauso educado de sala de aula, mas o grito solto de quem tinha visto algo novo. Louis vestiu a camiseta de novo, o tecido escuro grudando no peito molhado, e veio até mim. Estendeu a mão. Eu segurei. A palma dele era grande, quente, calejada, áspera de quem tinha segurado armas e cordas e talvez o berimbau da mãe. O aperto durou um segundo a mais do que o necessário. O polegar dele roçou a base do meu, leve, quase imperceptível. Eu puxei a mão de volta como se tivesse levado um choque elétrico. O coração batia tão descompensado que eu temia que ele percebesse pelo pulso.

— Obrigado, professora — murmurou ele, baixo o suficiente para só eu ouvir, os olhos verdes ainda presos nos meus. — Vamos mudar isso aqui juntos.

Ele se afastou com alguns meninos querendo conversar, perguntar, tocar no braço dele como se a força fosse contagiosa. Eu fiquei parada no meio do pátio, o vento quente do fim de tarde bagunçando os cachos que já tinham escapado do coque. O suor escorria entre os seios. O cheiro de terra e de corpo masculino ainda pairava no ar.

Eu me chamo Helena Costa. Tenho trinta e dois anos. Sou professora de língua portuguesa nesta escola que cai aos pedaços. Tenho um filho adolescente chamado Lucas, que ainda não sabe o quanto o morro tenta puxá-lo todos os dias. Sou viúva há quatro anos e carrego a solidão como quem carrega uma mochila pesada demais. Minha vida nunca foi fácil. Mas nada do que eu acreditava ser ruim se comparava à tempestade que já começava dentro de mim.

No momento em que virei para voltar à sala, senti o olhar fixo nas minhas costas. Não era o de Louis. Era outro. Mais frio. Mais conhecido. Levantei a cabeça e vi, no alto da laje vizinha, a silhueta de um homem parado, celular na mão, o rosto meio escondido pela sombra. Silverio. Ou um dos dele. O celular apontava direto para mim.

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