A noite caiu lentamente sobre o lixão, tingindo o céu de um escuro profundo e impregnando o ar com o cheiro de fumaça. O vento frio atravessava as frestas das lonas remendadas que serviam de abrigo, mas, dentro da barraca, havia calor. Um calor feito de laços, resistência e, acima de tudo, de família.Lara, a mais nova da turma, ajeitava um pano como toalha no centro do espaço apertado. O pano velho, mas limpo, parecia brilhar com orgulho próprio. Keven, um garoto de olhos sempre curiosos, segurava um pedaço de vela velha que ainda tinha um toco de pavio teimando em não se apagar. Juliano, agora com dezoito anos, esperava ansioso pela pequena caixa de papelão que trouxera do que restava da padaria. Com um cuidado quase reverente, abriu-a, revelando o presente secreto: um pedaço de bolo — seco, a cobertura meio grudada na caixa, mas inteiro.— É hoje, hein! — exclamou Juliano, com um sorriso orgulhoso, os olhos brilhando sob o clarão amarelo da lâmpada que balançava levemente com o ven
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