12. Regras De Uma Casa Silenciosa
Na manhã seguinte, Clara acordou antes que alguém viesse chamá-la.Por alguns segundos, não soube onde estava. O teto alto, as cortinas claras ao redor da cama, o cheiro de sabonete caro e madeira encerada, tudo parecia pertencer ao quarto de outra mulher, uma mulher educada desde menina para dormir em lençóis finos e acordar sem medo de que a chuva tivesse entrado pela fresta da janela. Depois a memória voltou inteira, sem delicadeza: a igreja, a assinatura, a mão cicatrizada de Gabriel, a carruagem de Monteluz, a porta que não fora trancada e o choro silencioso que a vencera sobre o vestido de noiva.Clara levou a mão ao rosto e encontrou a pele seca. Detestou isso também. Havia algo humilhante em perceber que o corpo continuava, que os olhos paravam de arder, que a respiração obedecia, que a fome começava a existir mesmo depois de uma vida ter terminado. Nenhuma tragédia, ao que parecia, tinha a decência de suspender as necessidades simples.A sineta repousava sobre a mesa de ca
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