Rodrigo, anota a hora. O mundo vai acabar na sexta-feira.
Eu sinto a mancha de óleo no meu queixo e, pela primeira vez no dia, eu sorrio. Ricardo não faz ideia do que o espera. Mas o silêncio carregado entre eu e Daniel dura pouco. A oficina, que parecia vazia há um minuto, subitamente ganha "vida" de um jeito nada discreto.De repente, a poucos metros de nós, atrás de uma pilha de pneus de um caminhão antigo, três cabeças surgem em degraus, uma em cima da outra. Juninho está na base, Rodrigo no meio e Caíque, o mais alto, tenta se equilibrar no topo. Eles não estão apenas olhando; estão praticamente em um camarote de teatro, com os pescoços esticados e os olhos arregalados.— Ele tocou nela — Juninho sussurra, mas num volume que ecoaria até na calçada. — Com o dedo sujo de graxa. Ele está morto.— Cala a boca, Juninho! — Rodrigo rebate num sussurro ainda mais alto, dando um safanão no braço do garoto. — Ela não está brava. Olha a cara dela. Ela está... derretendo.— Derretendo nada, é o calor da oficina — Caíque intervém, tentando ajustar o
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