POV: MARI Dona Isabel fez café pra três e sumiu pra cozinha como quem não queria existir e, ao mesmo tempo, queria garantir que todo mundo ali sobrevivesse à conversa. Liguei a TV. Ela aumentou o volume logo depois. Do corredor, veio o barulho de panela, uma gaveta fechando, depois outra. Privacidade de mãe. Aquela coisa meio falsa, meio afetuosa, meio inútil. Funcionava mais como aviso do que como cobertura. Gabriel olhou pro corredor e soltou um ar pelo nariz. — Sua mãe é muito discreta. — Ela acha que é. Ele quase sorriu. Eu quase também. A mochila dele estava perto da porta. Não no quarto de hóspedes. Não num canto escondido. Perto da porta mesmo, como se ele quisesse me mostrar que ainda existia saída. Ou talvez quisesse mostrar pra si mesmo. Eu conhecia esse tipo de gesto. Gente que deixa as coisas à vista pra parecer menos presa. Sentei no sofá. Ele ficou na cadeira em frente, um pouco inclinado pra frente, os antebraços apoiados nos joelhos, como se tivesse vindo pra c
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