PALOMA: Fechei a porta do meu quarto e encostei as costas na madeira fria. O som dos passos de Ricardo no corredor, entrando no quarto do nosso filho, parecia martelar dentro do meu crânio. Segurei a respiração, contando os segundos, lutando contra o tremor que subia pelas minhas pernas. Mas, no momento em que ouvi o clique da porta dele se fechando, eu desabei. Escorreguei até o chão, abafando o soluço com as duas mãos. Dói. Dói de um jeito que nenhum plantão de doze horas, nenhuma agulha ou ferimento exposto que já tratei no hospital poderia explicar. Porque a ferida é interna, e quem a golpeia é o homem que eu, contra toda a lógica e amor-próprio, ainda amo. Aquele homem frio, hostil, que só consegue transbordar afeto quando olha para o nosso filho. Para mim, restavam apenas as sobras: o dever, a conveniência, a sombra de um erro que ele nunca me deixou esquecer. — Eu nunca usaria o Henry... sussurrei para o escuro do quarto, as lágrimas queimando minhas bochechas
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