O silêncio depois da entrada dele era pesado, mas não durou.Meu tio Paulo, que até então estava calado, encostado na parede como se fosse apenas espectador, resolveu falar.— Então é verdade mesmo — disse ele, a voz carregada de ironia. — A menina arrumou um protetor.Eu senti o chão balançar sob meus pés.— Tio… — comecei, mas ele me cortou.— Não precisa explicar. A gente sabe muito bem como essas coisas funcionam. Homem desse tipo não faz caridade.A insinuação ficou no ar, suja, venenosa.Meu estômago virou.— Cala a boca — o Coroa disse, baixo.Mas meu tio não se intimidou como eu imaginei que se intimidaria.— O quê? Vai dizer que tá interessado no currículo dela? — ele riu, debochado. — Ou é outro tipo de serviço que ela presta?A vergonha me atingiu como um tapa.— Para! — eu gritei, sentindo o rosto queimar.Mas minha tia Lenice não me defendeu.Ela suspirou, cruzando os braços.— Paulo, deixa — disse, mas não havia repreensão na voz. — A verdade dói mesmo.Eu olhei para ela
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