A água quente que caía do chuveiro da suíte parecia a única coisa capaz de lavar, mesmo que superficialmente, a crosta de graxa, pólvora e a fumaça do morro que pareciam ter grudado na minha alma. Fiquei longos minutos sob o vapor do banheiro, deixando as gotas pesadas baterem contra as minhas costas, tentando sufocar os soluços que ainda insistiam em subir pela minha garganta. Meu corpo todo doía. Cada músculo parecia ter sido esticado até o limite, e a cicatriz da minha cirurgia em Milão latejava sutilmente, um lembrete físico de que eu nunca estive verdadeiramente livre.Mais tarde naquele mesmo dia, o sol começou a se deitar atrás das montanhas do Joá, banhando o quarto com uma luz alaranjada e melancólica. Encontrei o meu celular em cima da escrivaninha. Segurei o aparelho por um instante, a tela escura refletindo o meu rosto pálido e as olheiras profundas. Pensei em tudo o que já tinha passado. Sobre como a minha
Ler mais