Silvia Silva O som da chave girando na fechadura foi como um despertador que me trouxe de volta à realidade. Levi e Hannah entraram, o ar frio da rua subindo pelas roupas deles, e a cena que encontram na sala — eu e Leonel, sentados em lados opostos do sofá, assistindo a um documentário sobre a vida marinha nas profundezas do Atlântico — deve ter parecido, para qualquer observador externo, uma imagem de harmonia doméstica.Mas eu sabia a verdade. Eu sentia.Leonel estava ali, a presença física dele ocupando muito mais espaço do que os poucos metros de estofado permitiam. Ele estava calmo, quase desarmado, os olhos fixos na tela, comentando sobre a pressão das fossas abissais com uma erudição que, honestamente, me fascinava. No entanto, por trás da fachada polida e daquela postura relaxada que ele adotara desde que Levi saiu, havia algo que me fazia arrepiar.Eu via. Aquela sombra escura, uma névoa que pairava no fundo das írises dele, um vazio que nem mesmo o intelecto brilhante ou o
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