137. Nosso maior medo
CássioO cheiro de antisséptico incomoda mais do que o de pólvora jamais incomodou, porque pólvora anuncia o fim da luta, o barulho que marca que a ameaça acabou, enquanto o antisséptico é o cheiro da espera incerta, da fragilidade que ainda persiste depois que tudo parece ter terminado. Estou sentado na maca estreita da emergência, o médico aplicando anestésico local no braço ferido, e o corte arde fundo, não foi só um raspão como eu disse pra ela, a bala pegou de lado, abriu a carne o suficiente para exigir pontos que vão deixar uma marca feia por um tempo.Mesmo assim, mal registro a dor; minha atenção está inteira do outro lado da cortina fina que separa as macas, onde ela está deitada, e cada bip ritmado do monitor cardíaco, cada tilintar de instrumento metálico ou voz baixa dos enfermeiros, faz meu pescoço tensionar involuntariamente, como se meu corpo inteiro estivesse pronto para pular caso algo desse errado.Tento espiar por cima do ombro do médico, o corpo inteiro inclinado
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