Valentina ficou alguns segundos parada diante do depósito, com a chave fria apertada entre os dedos e a sensação nítida de que o mundo, do lado de fora, havia diminuído de volume. O estacionamento vazio, a fachada desgastada, o letreiro quase apagado, o vento arrastando poeira pela calçada — tudo parecia distante, como se aquele lugar existisse numa dobra esquecida da cidade, onde o tempo apodrecia sem testemunhas.O endereço no papel estava certo. Ela conferira três vezes no caminho, mais por necessidade de controlar o tremor interno do que por dúvida real. O envelope de Andrade ainda parecia pesar dentro da bolsa, embora agora o conteúdo mais perigoso já estivesse diante dela: a chave, a fechadura, a escolha.Sozinha.Essa era a parte que a incomodava mais.Não o medo simples, direto, honesto. Valentina conhecia o medo e sabia administrá-lo. O que a atravessava naquele instante era algo mais traiçoeiro, mais denso. Era a consciência de que talvez estivesse prestes a tocar em algo qu
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