“A culpa é uma forma de prisão.” Albert CamusHelena estava novamente no quintal, entregue a outra tela, enquanto Mabe repousava ao seu lado, entretida com um petisco grande demais para a própria boca. O sol filtrava-se pelas folhas, criando manchas de luz irregular sobre o chão — um movimento lento, quase hipnótico, que acompanhava o ritmo interno dela.Na tela, uma mulher começava a existir.Não inteira.Nunca inteira.O corpo surgia fragmentado, como se tivesse sido montado e desmontado vezes demais. Partes de si permaneciam espalhadas ao redor — pedaços de braços, fragmentos de torso, contornos de um rosto que não se completava. Não eram restos violentos, mas ausências silenciosas, como coisas que haviam sido deixadas pelo caminho sem que ninguém percebesse quando caíram.O fundo era neutro, quase vazio, um espaço indefinido que não sugeria chão nem céu. Apenas um lugar de passagem. As cores da figura principal eram opacas, esmaecidas, como se tivessem sido lavadas por dentro. Ton
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