reencontros

Já faz muito tempo que não tiro um tempo para ficar com a minha mãe. Entre escola, trabalho e academia, minha rotina é frenética. Às vezes ela está dormindo quando chego ou eu saio quando ela ainda está no quarto. Está difícil.

Até na academia o pessoal notou que eu emagreci e que estou bem mais jovem. O André está me dando umas indiretas desconcertantes na frente de todo mundo. Quando ele vem me beijar no rosto, ele sempre busca um lugar mais perto da boca...

— Tchau, até amanhã! — me despedi.

— Amiga, o que foi isso? — Bia perguntou logo que nos afastamos. — Ah, parabéns para a Bia, que não é boba nem nada! Esse gato está facinho para você.

— Pode ser... — respondi, pensativa. — Você já esqueceu sua paixão de adolescente?

— Faz tempo que não o vejo — confessei, sentindo um aperto no peito. — Mas ele sempre me tratou mal. Idiota fui eu de achar que ele um dia iria me notar.

— Que nada, amiga! Do jeito que você fala dele, ele é que é um boboca.

— Pode ser... Beijos, amiga. Amanhã a gente se vê.

Cheguei em casa exausta e, por milagre, encontrei minha mãe na sala. Ela me olhou de cima a baixo, surpresa.

— Filha! O que aconteceu com você? — ela perguntou, os olhos brilhando.

— O quê? Nada, por quê?

— Filha, como você emagreceu! Você está muito mais linda do que sempre foi. ...quase não te vejo em casa. Só tem uns quatro meses, mas você mudou muito! — minha mãe continuou, ainda surpresa. — Filha, você está incrível!

— Obrigada, mãe — respondi, sentindo um calor no peito.

— Ai, filha, me desculpa por estar tão desatenta ultimamente. É a empresa... está um caos. Estou fechando um negócio novo e por isso tenho tido mais trabalho, mas prometo que vou desacelerar antes de você ir para a faculdade.

— Tudo bem, mãe. Se precisar de mim, é só falar. Não vou sumir — sorri. — Ah, amanhã você vai comigo escolher o carro?

— Sim, está bem. Te pego no trabalho depois da aula.

Na escola, as coisas estavam estranhas. Havia gente chata perguntando o que eu fiz para emagrecer e gente que antes nem olhava na minha cara e agora ficava me encarando. Eu não ligo para esse povo. Não é como se eu usasse roupa apertada para todo mundo ver que emagreci; ainda sou a mesma na escola, só com minhas roupas largas. A diferença é que agora me sinto melhor comigo mesma. Não foi só academia; tenho ido à nutricionista todo mês, mudei muito minha alimentação e agora estou vendo o efeito em mim.

— Oi, Bia, sua linda! E aí, como foi na escola? — perguntei ao encontrá-la.

— Um saco! Não sei o que é pior: ser invisível ou ter um monte de gente perguntando o que você fez para emagrecer.

— Claro que todo mundo ia ver, né, gata? Não adianta você se esconder nessas suas roupas que nem te servem mais — ela retrucou, rindo.

Bia, só você para rir! — falei, tentando disfarçar o sorriso. — Falta pouco para a formatura e logo vamos para a faculdade.

Ela estava em um momento de puro êxtase, quase saltitando. Estava prestes a dar um grito de alegria no meio da lanchonete.

— Ta bom, ta bom! — brinquei. — Vai acabar assustando os clientes e nada de eles virem me trocar. E cara, o treino hoje pegou pesado, nem me fala!

— Cara, você decidiu se vai lá em casa comigo? — perguntei ao Nick, enquanto tentava decifrar sua expressão. — Acho que sim. Minha mãe falou que vai ter uma surpresa boa quando eu voltar. Você não sabe o que é?

— Não... — Nick respondeu, parecendo distante. — Você disse que a Kate não está namorando?

— É, minha mãe vai com ela escolher o carro, mas ela não sabe que é para ela. Você já mandou mensagem para ela depois desse tempo todo que estamos aqui? André? André! Oi, cara! Estou falando com você! Parece que está em outro planeta. O que você vai fazer mesmo se for lá? Já tentou falar com a Kate?

Nick suspirou, o peso do arrependimento evidente em sua voz:

— Bem, falar o quê? Ela é que parou de falar comigo.

— Ah, cara, mas você está sendo um idiota. Já pensou que ela pode estar namorando?

— Não sei, cara... A Kate é linda por dentro e por fora. Tamanho não define ninguém. Acho que sim... Oi, filha! A mãe então vai, né? Vamos, Bia! — despedi-me, enquanto saíamos. — Você vai na academia depois, né? Vou passar lá com a minha mãe.

Bia me deu um tchau animado.

— Tchau, meninas! Nossa, filha, você é a cara da sua mãe! — comentou André, aproximando-se. — Sua mãe é linda, e você também.

— Tá bom, beijos! — respondi, tentando não dar muita corda.

Já no carro, minha mãe não aguentou a curiosidade:

— Nossa, filha, quem é aquele gatinho? É um amigo novo? Ele trabalha na academia? Ele tá caidinho por você, dá para ver que não tira os olhos de cima!

— Para, mãe... É só um amigo. E eu sou cega para essas coisas — brinquei, mas ela ficou séria por um momento.

— Sabe, filha, eu sei que errei. Me perdi muito tempo longe de você, foquei demais no trabalho... Mas e a sua vida amorosa? Alguma novidade?

— Bom, se você quer saber se já dei uns beijinhos... Sim. Mas ainda sou virgem, mãe.

— Filha, você já esqueceu o Nick? — a pergunta dela me pegou de surpresa. — Aquele trauma que rolou... Meu irmão me disse, mas eu não quis nem lembrar. Você sabe que ele gostava de você, mas é uma pessoa que gosta de humilhar os outros. É igual ao pai dele.

— Mãe, sério? Você já viu aquele ditado: "quem desdenha quer comprar"? — retruquei, tentando encerrar o assunto. — Mas enfim, vamos... Que tipo de carro você quer agora?

— Ah, filha, eu quero um mais moderno, que combine com você! O que você preferia? Um Jeep Renegade? Acho eles bonitos, carros grandes e imponentes... Acho que faz o seu estilo.

— Ah, e já deu certo! — ela continuou, empolgada. — Na semana que vem você já começa as aulas na autoescola e, depois do seu aniversário, já faz a prova para tirar a habilitação.

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