Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 2
Ísis levantou devagar e observou a sala com um olhar curioso. O ambiente era amplo e elegante, com uma harmonia perfeita entre madeira escura, pedra natural e grandes painéis de vidro que deixavam o jardim entrar como parte da decoração. Ao se aproximar da lareira, imaginou as noites frias de inverno ali: um bom vinho, uma manta pesada, o crepitar do fogo. Sorriu de leve. Fazia tempo que não se permitia sonhar com algo tão simples e tranquilo. Foi então que seus olhos encontraram uma fotografia sobre a estante de livros. Abaixo da moldura, uma pequena placa de prata dizia: Leon Whitmore. O nome soava forte, quase aristocrático. Mas foi o olhar na foto que a prendeu. Verde intenso, daqueles que pareciam atravessar a alma de quem estivesse do outro lado da lente. Maxilar firme e traços marcantes. Ísis desviou o olhar e olhou para o homem sentado na poltrona. O mesmo Leon. Os mesmos olhos verdes, agora perdidos em um lugar inalcançável. Sentado diante da janela, ele permanecia imóvel, como se o tempo tivesse decidido parar só para ele. Por um instante, ela imaginou como teria sido se o tivesse conhecido antes do acidente. Será que ria com facilidade? Gostava de música alta? Viajava por impulso ou era o tipo de homem que planejava cada detalhe? Sério, mas capaz de gestos inesperadamente gentis? Não sabia. Mas, desde que chegou, sentiu uma curiosidade imensa, quase urgente, de descobrir mais sobre ele. Ficou na frente da poltrona e ajoelhou ficando quase na altura dele. Seus olhos desceram até a mão grande e imóvel sobre o braço da poltrona. Sem entender bem o que a impulsionava, ergueu a mão e seus dedos tocaram os dele. A pele estava quente. Surpreendentemente viva. A mão dele era grande, a dela quase desapareceu sob aqueles dedos longos. Mesmo imóvel, ele tinha presença: ombros largos, pernas compridas, provavelmente cerca de um metro e noventa de pura estrutura. — Você é enorme... — murmurou baixinho, mais para si mesma. Ela encostou novamente os dedos nos dele e as pálpebras de Leon fecharam lentamente. Ísis prendeu a respiração ficando com o coração disparado. Antes que pudesse processar o que tinha acontecido, alguém entrou: — Com licença. A enfermeira entrou com a prancheta na mão e caminhou até Leon. — Vim verificar a medicação. Ísis puxou a mão rapidamente, sentindo o rosto queimar. A enfermeira checou os sinais vitais, ajustou o soro e trocou a medicação com uma calma de quem repetia aquele ritual havia muito tempo. Ao terminar, sorriu para Ísis. — Vai ficar com ele o dia todo? — Sim. O senhor Caio me contratou para isso. A enfermeira olhou para Leon e deu um sorrisinho de lado. — Ainda bem. Ele merece alguém que converse com ele de verdade. — Antes de guardar a prancheta, completou em tom leve: — E, convenhamos... continua bonito até desse jeito. Ísis sorriu, sem conseguir disfarçar. — Continua, sim. — Qualquer coisa, é só me chamar. Assim que ela saiu, o silêncio voltou. Leon abriu os olhos novamente, voltando a fixar o mesmo ponto além da janela, como se nada tivesse acontecido. Ísis ficou observando por longos segundos. Teria sido apenas um reflexo? Ou ele realmente sentiu seu toque? A dúvida ficou no peito dela. Ela decidiu não forçar. Pegou o controle remoto e ligou a televisão. — Vou escolher um filme para nós dois — disse, como se ele pudesse responder. Enquanto a tela iluminava o ambiente, percebeu que o fim da tarde havia trazido um frio sutil. Tinha uma Manta no sofá pegou e, com todo o cuidado, acomodou sobre as pernas dele e conferiu se o soro estava bem posicionado. Depois voltou a sentar ao lado. Sem perceber, sua mão procurou a dele outra vez. Seus dedos se entrelaçaram aos dele com delicadeza. — Espero que você goste de filmes de ação... porque eu adoro. Sorriu sozinha, sentindo o calor da pele dele contra a sua. O silêncio continuava o mesmo. Mas, curiosamente, não parecia tão opressivo. Quase.. confortável. Ísis baixou os olhos para as mãos unidas. Era estranho. Conhecia aquele homem havia menos de um dia. Mesmo assim, não sentia a menor vontade de soltar a mão dele.






