Capítulo 7

Aurora

Eu fiquei alguns segundos olhando para a mensagem na tela do celular.

Senhor Monteiro:

Senhorita Duarte, quando puder, gostaria que revisássemos os últimos pontos do contrato.

Era uma mensagem simples.

Profissional.

Exatamente como todas as mensagens que Leon Monteiro costumava enviar.

Mesmo assim, naquele momento, ela parecia diferente.

Porque eu sabia o que aquela conversa significava.

Não era mais apenas uma possibilidade.

Não era mais uma ideia absurda colocada sobre uma mesa.

Era o último passo antes de uma decisão definitiva.

Guardei o celular e respirei fundo.

— Você vai?

A voz de Lívia me tirou dos pensamentos.

Olhei para ela.

— Vou.

Ela observou meu rosto por alguns segundos.

— Então é isso?

Eu sabia o que ela queria dizer.

Era isso?

Eu realmente faria aquilo?

Olhei para a porta da sala de Leon.

— Acho que sim.

Lívia não tentou me convencer de nada.

Ela apenas assentiu.

— Então espero que seja uma escolha sua.

Aquelas palavras ficaram comigo.

Porque era exatamente isso que eu precisava lembrar.

Uma escolha minha.

---

Levantei da minha mesa alguns minutos depois e caminhei até a sala dele.

Bati na porta.

— Entre.

Entrei.

Leon estava sentado atrás da mesa, com a pasta do contrato aberta à sua frente.

A mesma pasta que tinha mudado completamente o rumo dos últimos dias.

— Senhor Monteiro.

Ele levantou os olhos.

— Senhorita Duarte.

A formalidade entre nós continuava a mesma.

E talvez fosse melhor assim.

Ainda não existia intimidade.

Ainda não existia nada além daquele acordo que estávamos prestes a fazer.

Ele indicou a cadeira.

— Sente-se.

Fiz isso.

Leon empurrou uma cópia do contrato na minha direção.

— Antes de qualquer decisão final, quero garantir que todos os pontos estejam claros.

Assenti.

— Eu agradeço.

Ele abriu a primeira página.

— A primeira cláusula é sobre confidencialidade.

Passei os olhos pelo documento.

— Nenhuma informação sobre o acordo pode ser divulgada.

— Exatamente.

Ele continuou:

— O contrato e todos os detalhes relacionados ao casamento permanecem privados entre nós e os envolvidos diretamente na organização.

Assenti.

Fazia sentido.

Se aquela informação vazasse, toda a imagem que eles estavam tentando construir poderia ser destruída.

— A segunda cláusula diz respeito à exposição pública.

Leon explicou:

— Durante eventos, reuniões importantes ou situações em que nossa relação precise ser apresentada, devemos agir como um casal.

Olhei para ele.

— Incluindo demonstrações de carinho?

— Quando necessário.

A resposta veio calma.

— Mas nada além do que for preciso para manter a aparência.

Aquilo me deixou um pouco mais confortável.

Porque deixava claro que não existia uma expectativa escondida.

Ele não estava tentando transformar aquilo em algo que não era.

— A terceira cláusula é sobre convivência.

Ele virou a página.

— Após o casamento, nós iremos morar na mesma residência.

Eu já sabia disso.

Mas ouvir novamente tornou tudo mais real.

— Teremos quartos separados.

Olhei para ele.

— Isso está no contrato?

— Sim.

Uma pequena surpresa passou por mim.

Não porque eu esperasse outra coisa.

Mas porque Leon parecia ter pensado em tudo.

— Também existem regras sobre respeito ao espaço pessoal.

Ele continuou:

— Nenhum de nós será obrigado a interferir na vida particular do outro.

Assenti.

Aquilo era importante.

Porque, no fim, ainda éramos duas pessoas desconhecidas tentando dividir uma vida por causa de um acordo.

— A quarta cláusula fala sobre o prazo.

Leon tocou a página.

— O contrato terá duração inicial de um ano.

— E depois?

— Após esse período, decidiremos juntos os próximos passos.

Juntos.

A palavra parecia estranha naquele contexto.

Mas eu não questionei.

— Existe alguma penalidade caso alguém queira encerrar antes?

Ele assentiu.

— Sim.

Essa parte chamou minha atenção.

— O contrato prevê consequências caso uma das partes quebre o acordo sem uma justificativa válida ou exponha informações confidenciais.

Ele não falou como uma ameaça.

Apenas como um fato.

Tudo estava ali.

Claro.

Organizado.

Profissional.

Era exatamente o tipo de coisa que eu esperava de Leon.

— E a parte financeira?

Ele abriu outra página.

— A compensação está dividida conforme combinado.

Olhei os valores novamente.

Ainda era uma quantia que me deixava desconfortável.

Não porque fosse ruim.

Mas porque representava muito.

Representava uma oportunidade.

Representava o mestrado.

Representava uma chance de finalmente cumprir aquilo que eu carregava há tantos anos.

— Senhor Monteiro.

Ele levantou os olhos.

— Sim?

— Por que o senhor escolheu fazer isso dessa forma?

Ele ficou em silêncio.

— Quero dizer... um contrato, regras, tudo tão organizado.

Por um momento, pensei que ele não responderia.

Mas respondeu.

— Porque sentimentos mudam.

A frase me surpreendeu.

— Mas acordos precisam ser claros.

Fiquei olhando para ele.

Era uma resposta muito dele.

Prática.

Objetiva.

Mas, de alguma forma, fazia sentido.

— Entendi.

Ele fechou a pasta.

— Se estiver de acordo, podemos finalizar.

Meu coração bateu um pouco mais forte.

Era estranho.

Eu sabia que aquela era uma decisão racional.

Mas ainda assim parecia um salto.

Peguei a caneta.

Antes de assinar, fiquei alguns segundos parada.

Pensei na minha vida até ali.

Na menina que perdeu os pais cedo demais.

Na promessa que carregava.

Na mulher que eu tinha me tornado.

Eu não sabia onde aquilo iria me levar.

Mas sabia que não podia passar a vida inteira com medo de escolher.

Assinei.

Meu nome ficou no papel.

Aurora Duarte.

Empurrei o documento de volta para ele.

Leon pegou a caneta em seguida.

Assinou.

Leon Monteiro.

E naquele momento, o acordo deixou de ser uma possibilidade.

Virou realidade.

---

Por alguns segundos, nenhum de nós falou.

Era estranho pensar que um pedaço de papel podia mudar tantas coisas.

— A partir de agora, precisamos organizar os próximos passos.

Assenti.

— O casamento.

— Sim.

A palavra ainda parecia distante.

Casamento.

Eu.

Leon.

Aquilo ainda parecia pertencer à vida de outra pessoa.

— A cerimônia será simples — ele explicou. — Um cartório. Poucas pessoas.

— Certo.

— Precisamos escolher uma data.

Assenti.

— E anunciar no momento adequado.

Olhei para ele.

— Para manter as aparências.

— Exatamente.

Ele falou aquilo com tanta naturalidade que quase parecia uma reunião de negócios.

Talvez porque, para ele, fosse a forma mais fácil de lidar com aquilo.

Eu me levantei.

— Então está decidido.

Leon assentiu.

— Está.

Segurei a pasta.

Quando cheguei à porta, ouvi sua voz.

— Senhorita Duarte.

Virei.

— Sim?

Por um segundo, pareceu que ele ia dizer algo diferente.

Mas voltou à expressão habitual.

Controlada.

— Amanhã conversaremos sobre a preparação do casamento.

Assenti.

— Claro, Senhor Monteiro.

Saí da sala.

E, pela primeira vez, a sensação de que minha vida estava mudando deixou de parecer uma possibilidade.

Era real.

Eu tinha acabado de assinar um contrato de casamento com Leon Monteiro.

E agora precisava descobrir como seria viver a partir disso.

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